Arquitecto ganha a vida a vender janelas eficientes

A vocação para a arquitectura começou a revelar-se no jeito para o desenho e no gosto por brincar com legos. Confirmou-se com o incêndio do Chiado. Ainda adolescente, na Buraca, ajudou ao balcão de uma drogaria e fundou a 'Trombeta',um jornal local. Antes de ir para a faculdade, trabalhou na Dun & Bradstreet, um emprego que abriu uma nova janela na vida deste arquitecto-

O incêndio do Chiado, que o apanhou no 9.º ano, levou-o a tomar contacto com o mundo da arquitectura e teve o condão de lhe acender a vocação. Ainda adolescente, começou a acompanhar os planos para recuperar a zona ardida, riscados por Álvaro Siza Vieira, o autor do edifício que João mais aprecia - o Pavilhão de Portugal -, apesar de achar deplorável que se mantenha sem funções há mais de uma dúzia de anos.

Não entrou à primeira. O acesso a Arquitectura exige médias elevadas e os 92% com que se candidatou eram curtos. Para ser admitido precisava de 98%. Como o dinheiro não abundava em casa, enquanto se preparava para a segunda tentativa de entrar no curso que queria, arranjou emprego, respondendo a um anúncio do Expresso Emprego que pedia um business analyst .

Durante um ano trabalhou na Dun & Bradstreet, a recolher informações comerciais, fazendo telefonemas e espiolhando à lupa relatórios e contas de centenas de empresas. Além de dinheiro, ganhou experiência e uma visão mais alargada da vida e do mundo.

Filho mais novo (o irmão, oito anos mais velho, é polícia) do casamento de uma doméstica com um responsável pela doca de Alcântara, João fez o secundário no Liceu Nacional de Queluz, onde o seu jeito para o desenho deu logo nas vistas.

"Passava as aulas a desenhar. Nos primeiros dez minutos aprendia, depois distraía-me a desenhar caricaturas dos colegas e professores", recorda João, acrescentando que por causa disso foi acumulando faltas de castigo, pois nem sempre os professores apreciavam a sua veia artística. Os primeiros sinais da vocação para a arquitectura manifestavam- -se nesta queda para o desenho e no gosto por brincar com legos, que ainda mantém ("Ofereço legos aos meus sobrinhos e depois aproveito e sou eu que os monto", conta).

Desenrascado, cedo começou a ganhar dinheiro. Com 14 anos, nas férias grandes, arranjou um biscate ao balcão de uma drogaria ao pé de casa. E depois, num rasgo precoce de empreendedorismo, dinamizou o grupo de colegas do bairro que fundou um jornal local, a Trombeta, financiado com as receitas de publicidade angariadas junto dos comerciantes da Buraca.

Mas, quando finalmente entrou na faculdade, teve de abandonar os ganchos. "O curso de Arquitectura é excelente, mas um full time job. Nos outros podia estudar-se de véspera. No nosso tinha de ser o ano inteiro", conta João que herdou do pai o seu primeiro carro, um Fiat 127 preto, com uma risca laranja, que fez mais de 250 mil km sem uma única avaria, e que ele nas descidas punha em ponto-morto para poupar gasolina.

Acabado o curso e o estágio (no ateliê de Nuno Leónidas), ainda fez pequenos projectos de arquitectura, para familiares e amigos, mas logo reparou que o trabalho era pouco e a concorrência grande, pelo que tinha de se virar para outro lado. Começou por promover as torneiras Oliva, tendo como patrão Ludgero Marques, antes de em 1999 desaguar no mundo das janelas.

"Além das vantagens em segurança e isolamento acústico, ter janelas eficientes permite uma poupança até 40% em aquecimento e ar condicionado", explica João Ferreira Gomes, que, além de trabalhar desde 2004 no departamento comercial da Caixiave (empresa de Famalicão que é líder ibérica em janelas de PVC), fundou a Associação Nacional de Fabricantes de Janelas Eficientes, para ajudar a superar as debilidades de um sector muito atomizado e que carece de inovação permanente.

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