A médica que mudou de vida porque não suportava a dor alheia

Maria João Queiroz. Filha de médico, andou no Colégio Alemão, foi guia turística e escolheu Medicina para investigar Biologia. Após concluir o curso com média de 18,7 valores, especializou-se em Imuno-Hematologia, foi professora universitária e fez uma pós- - graduação na Suíça. Na semana em que morreram sete doentes numa enfermaria com seis camas, deixou o hospital. Após dois anos na Merck, aventurou-se a criar a Eurotrials, um dos mais brilhantes casos de sucesso da investigação em Portugal na área da saúde

Temos um perfil de hipertensão idêntico ao dos outros países do Sul da Europa e até acatamos melhor as recomendações médicas. Todavia, sofremos mais AVC do que eles. Porquê?

A resposta a este porquê é uma das coisas de que se ocupa a Eurotrials, empresa fundada há 14 anos por Maria João, que se dedica à investigação e desenvolvimento na área da saúde.

A partir do seu gabinete no 16.º andar da torre 3 das Amoreiras, com uma vista de cortar a respiração sobre Lisboa e o Tejo, ela comanda duas equipas multidisciplinares (médicos, engenheiros, químicos, biólogos, farmacêuticos, bioinformáticos, matemáticos, psicólogos, estatísticos, engenheiros químicos, etc.) de cientistas, separadas pelo Atlântico (40 em São Paulo, 70 em Lisboa), que actuam em três continentes. Em África, a Eurotrials colabora com Fundação Bill Gates na criação de medicamentos adaptados à realidade local.

A caracterização do envelhecimento da nossa população, que revela enormes assimetrias regionais e entre homens e mulheres (elas fecham-se em casa, enquanto eles ainda vão ao café), foi um dos últimos estudos concluídos pela Eurotrials, que é filha directa da incapacidade de Maria João de perder a sensibilidade face ao sofrimento humano.

Filha de um médico (Maia Ferreira, que deixou o nome gravado na história do Sporting), viveu uma infância fantástica e atravessou a adolescência no Colégio Alemão. A escolha de Medicina não foi óbvia. Ela gostava de História, Arqueologia e Biologia, mas havia uma contra-indicação comum a todos esses cursos: as saídas profissionais esgotavam-se no ensino.

"Para chegar à investigação em Biologia, tinha de ser médica", explica. Durante o curso, foi monitora de Biologia Genética, mas já tinha ganho o primeiro dinheiro como guia, trabalho em que a sua fluência em línguas e os conhecimentos de História e de histórias dos locais visitados eram recompensados pelos turistas com generosas gorjetas.

Especializou-se em Imuno-Hematologia, foi professora universitária e médica no Hospital Santa Maria. Tal como dr. House, tem fascínio pelo diagnóstico, mas nunca conseguiu perder a sensibilidade à dor alheia.

"Custa-me imenso lidar com o sofrimento humano. Ficava deprimida sempre que morria uma criança com leucemia", confessa.

Na semana em que morreram sete doentes numa enfermaria com seis camas, tomou a decisão mais difícil de toda a sua vida - deixar o hospital. Ainda esteve dois anos na Merck, entre Lisboa e Nova Jérsia, até que em 1995 embarcou com Inês (com quem fizera amizade na pós-graduação em Basileia) na estimulante aventura de fazer uma empresa que facilitasse a cooperação entre a indústria, a universidade, os hospitais e os institutos de investigação.

A princípio não foi fácil. Vizinhas do atelier de Cutileiro na Viúva Lamego, logo viram que à míngua de clientela em Portugal tinham de se apresentar no estrangeiro. Como Portugal era mais associado a sol e a praia do que a rigor científico, construíram a sua credibilidade, coleccionando chancelas, auditorias e certificações. Deu resultado, como o comprova o facto de, nove anos depois, terem sido distinguidas com o Prémio Dona Antónia.

"Portugal está a mudar. Há muito mais investigação e um clima criativo. Só falta mesmo acabar com o que resta do espírito de quinta", conclui Maria João, que, da mesma maneira que continua sensível à dor alheia, também não banalizou a beleza das vistas de Lisboa de que desfruta das janelas do seu gabinete.

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