Portugueses trabalham mais horas pelo mesmo dinheiro

Bruxelas explica por que razão Portugal ainda cresce: empregados estão a trabalhar mais para compensar subida do desemprego.

A crise foi mais branda em Portugal comparativamente a muitos outros países europeus porque o esforço dos trabalhadores foi maior, permitindo às empresas aumentar a facturação e, assim, contribuir mais para o crescimento da economia, conclui um estudo da Comissão Europeia. Nos próximos anos, este fenómeno de aumento da produtividade sem criação de emprego deverá intensificar-se.

O documento, que faz uma análise profunda ao mercado laboral europeu em 2010, ontem divulgado em Bruxelas, prova que a crise - período compreendido entre o primeiro trimestre de 2008 e igual período deste ano - foi muito mais suave para a facturação das empresas do que para a situação dos empregados.

Os economistas da Comissão mostram que Portugal foi dos poucos países que se ajustaram e pagaram a crise através de uma destruição de emprego em larga escala. Pior do que Portugal, só Espanha. O primeiro-ministro José Sócrates tem defendido que "a economia portuguesa foi a que melhor resistiu à crise, basta olhar para os números".

Do ponto de vista do emprego, não. Mas é evidente que quem manteve o emprego passou a trabalhar mais - o número médio de horas de trabalho por pessoa aumentou - e isso salvou a economia. A produtividade acompanhou, pois menos pessoas conseguiram criar mais riqueza; e de tal maneira que este ano o PIB até vai crescer cerca de 1,3% (previsão do Governo), apesar do desemprego estar perto dos 11%. A subida da produtividade foi especialmente marcada entre o segundo trimestre de 2009 e igual período de 2010.

Dados recentes do INE mostram que aquele aumento da produção não está a ser acompanhado a nível salarial. Os ordenados estão a caminho de uma estagnação, havendo profissões (as mais qualificadas, por exemplo), onde os cortes do salário líquido mensal nominal são já uma realidade.

A Comissão diz que "a resposta negativa do emprego ao declínio da actividade económica foi mais pronunciada" em Espanha, Portugal, Irlanda e Dinamarca. Por esta ordem. "Na Bulgária, Portugal e Espanha todo o ajustamento [à crise] foi via emprego, ao passo que o número médio de horas trabalhadas aumentou ligeiramente", explica o estudo.

Os peritos da Direcção-Geral do Emprego explicam ainda que países como Portugal e Espanha pagaram a crise com tanto desemprego devido à natureza pouco sofisticada das suas economias e dos seus negócios, que não se conseguiram adaptar (internamente) a esquemas com menos horas de trabalho. No entender destes especialistas, a flexibilidade permitiria salvar postos de trabalho, mas isso estará mais relacionado com o perfil das indústrias dominantes. Alemanha, Áustria e Bélgica conseguiram evitar o desemprego galopante pois têm tecidos empresariais e mais avançados.

Na semana passada, a OCDE projectou um prolongamento deste modelo de compressão sobre os trabalhadores por mais cinco anos, pelo menos. Segundo a instituição, o emprego tenderá a diminuir, mas quem se mantiver empregado deverá produzir sempre mais, ano após ano.

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