BCE corta fundos à banca e agrava crise no crédito

Espanhóis respondem com fortes críticas, e Vieira da Silva mostra-se preocupado

Os bancos europeus, nomeadamente portugueses e espanhóis, vão enfrentar condições mais adversas no recurso aos financiamentos junto do Banco Central Europeu (BCE). Como consequência, o acesso ao dinheiro por parte da banca vai ser dificultado e o crédito às famílias e empresas vai escassear ainda mais.

A autoridade monetária europeia não deverá a voltar a conceder dinheiro a um ano, expirando amanhã o empréstimo a 12 meses de 452 mil milhões de euros. Resultado: resta aos bancos, que nos últimos meses só têm conseguido dinheiro para a sua actividade junto do BCE, as cedências de liquidez semanais desta instituição, bem com as mesmas operações a três meses. Na essência nada muda, mas são cada vez menos as hipóteses de financiamento.

Segundo fontes contactadas pelo DN, mais do que a situação, mudam essencialmente as indicações de que a instituição liderada por Jean-Claude Trichet quer dar ao mercado. O BCE quer alterar paulatinamente as condições excepcionais em que o acesso ao dinheiro tem funcionado nos últimos três meses e forçar o mercado interbancário (troca de dinheiro entre os bancos) a funcionar.

Mas não será assim que a confiança se restabelecerá, dizem analistas e responsáveis bancários, e as consequências de mais esta restrição do BCE estão à vista. Ontem, vários responsáveis espanhóis faziam eco nos jornais, nomeadamente no Financial Times, do seu descontentamento, apelando ao BCE para que tenha consciência das necessidades de financiamento da banca e renove o programa de financiamento a um ano. O "trambolhão" na bolsa de Madrid foi imediato, especialmente por parte dos bancos.

Em Lisboa, o ministro da Economia, Vieira da Silva, mostrava-se preocupado com as dificuldades de financiamento da banca e os seus efeitos sobre a economia real, salientando que "o Governo e o Estado fazem todos os possíveis para encontrar medidas".

Para a banca, em concreto, é sempre mais vantajoso financiar--se a prazos mais longos, uma vez que as garantias entregues junto do BCE (colaterais) são essencialmente compostas por carteiras de crédito à habitação (activos de muito longo prazo), explicou ao DN um responsável bancário.

Tomar decisões relativas ao financiamento de consumidores e empresas torna-se mais difícil, quando para se obter esse dinheiro tem de se recorrer aos leilões diários de liquidez ou aos de três meses, como referiu ao DN Cristina Casalinho, economista-chefe do BPI. "Os bancos dificilmente podem tomar decisões ou lançar financiamentos com base em situações que não têm lastro", acrescentou.

Mas, os maiores receios junto da banca advém agora de outra possível alteração que o BCE venha a tomar, ou seja, voltar aos leilões a taxa variável e com montantes limitados. "O BCE não estará disposto a manter esta situação por muito mais tempo", prevê Rui Constantino, economista-chefe do Santander Negócios.

Aí, quando a cedência de liquidez por esta autoridade deixar de se fazer à taxa fixa de 1%, por montantes ilimitados, como acontece desde Abril, quando o mercado começou a "secar", as condições para a banca vão voltar a agravar-se. Nenhum destes dois economistas acredita num restabelecimento do mercado interbancário a curto prazo. Porque quem tem dinheiro para emprestar (França e Alemanha) não confia nos que necessitam dele (Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda).

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