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O país não tem dono, mas tem de ter cuidadores

A Constituição da República Portuguesa faz 200 anos. Em 1822, a economia estava em colapso. Citando João Cotrim de Figueiredo, líder do Iniciativa Liberal, no seu discurso, ontem, no Parlamento, "evidência com que não aprendemos", no fundo, "não aprendemos com a história". Ainda assim, a Constituição mudou Portugal, disso não tenhamos quaisquer dúvidas. Deixámos de ser súbditos e passámos a ser cidadãos com direitos e com deveres, claro. O avanço não foi perfeito, nem para os mais pobres nem para as mulheres, mas foram erguidos pilares fundamentais para o estatuto de cidadania. O conceito de soberania popular e a proteção dos direitos fundamentais têm uma marca de água com dois séculos. Na prática, significou a primeira regeneração da nação Portugal.

Menos carga fiscal e mais competitividade, precisa-se!

As famílias primeiro, as empresas em último". Este não foi o slogan escolhido pelo governo, mas poderia ter sido, uma vez que ficaram para o fim os apoios do governo às empresas, com vista a enfrentar os efeitos da inflação. Colmatá-los totalmente será impossível e levaria ao desacerto completo das contas nacionais no fecho deste ano. Mas também é sabido que o Executivo pode ajustar melhor a sua política a uma economia de guerra.

Clara, Francisca, Helena e o Clube do Bolinha

As mulheres estão em maioria nas escolas, universidades, hospitais e centros de saúde, nas áreas do makerting e relações públicas e dão a cara em tantas direções e balcões de serviços como, por exemplo, a banca. Mas o topo tem-lhes sido vedado. Como se o poder das grandes organizações estivesse tapado por teto de vidro ou de cristal difícil de quebrar. Felizmente, por uma questão de igualdade, reconhecimento e até justiça social, vários desses tetos começam a quebrar-se, ainda que uns por convicção e outros por obrigação legal. Mas um avanço é sempre um avanço e deve ser assinalado.

Tirar a Saúde dos corredores das Urgências

Já lá vai uma semana desde que foi nomeado o novo ministro da Saúde, Manuel Pizarro, a 9 de setembro. Disse que "não podia recusar o convite" e os portugueses esperam que também não recuse olhar de frente os problemas, nem resolver muitos dos imbróglios que afetam o estado da Saúde Pública. O diagnóstico está mais do que feito, não precisamos de outro. Já passou pela máquina do raio-X, da TAC e da ressonância magnética, agora falta definir a terapêutica e fazer acontecer.

O elefante (excessivo ou extraordinário) na sala

O tão esperando anúncio de ajudas às empresas é curto. As ajudas recaem sobre as chamadas eletrointensivas, ou seja, cuja produção está muito dependente do petróleo e do gás. Depois, uma outra fatia diz respeito a crédito, ou seja, apoios que na prática são incentivos ao endividamento, ainda que com condições favoráveis via linhas de crédito de 600 milhões de euros. Problema: as companhias ainda estão a braços com os créditos contraídos durante a pandemia e vem aí um ano em que a economia vai abrandar muito ou até entrar em recessão na zona euro, pelo que contrair mais crédito é pouco sensato ou até perigoso. O país tem falta de capital, mas não de dívida ou de impostos.

Uma líder empoderada pela guerra

A Europa amanheceu com decisões, metas e muitos avisos à navegação da Presidente da Comissão Europeia. Num discurso de serenidade, mas duramente assertivo, Ursula Von der Leyen provou que a Europa unida tem, finalmente, uma liderança forte, sem medo das palavras e com uma estratégia. Falta passar da teoria à prática em várias áreas e de forma célere, mas o plano e as decisões orientadores para o futuro foram bem audíveis. Ursula parece agora ainda mais empoderada pela guerra. Vale a pena fazer marcha atrás, ou seja, carregue no botão do comando do seu televisor (ou consulte o site do Diário de Notícias), ande para trás, e ouça (ou leia) o discurso de Ursula Von der Leyen ontem em Estrasburgo, a propósito do Estado da União Europeia.

A rainha do serviço e devoção ao país e os desafios de Carlos III 

Uma perda irreparável. Isabel II deixa um legado único e foi um exemplo inspirador para líderes europeus e mundiais. Acaba uma era para começar uma nova e os britânicos demonstram alguma ansiedade própria de uma mudança, mas a monarquia não parece estar em causa. Isabel II era sinónimo de Reino Unido. Como referiu Liz Truss, nova primeira-ministra britânica, era "uma rocha", sempre firme e segura. O rei Carlos III é proclamado durante a manhã de hoje. Como irá Carlos inovar dentro do conservadorismo próprio de uma monarquia? Que marca quer ele deixar? Para já, é sabido - e era também vontade de sua mãe - que pretende tornar o núcleo central mais curto, ou seja, a família real tem mais de 50 membros e Carlos gostaria que fosse um grupo mais restrito. Um núcleo duro como aquele que acompanhou a rainha no Jubileu, em que se fez ladear apenas do filho mais velho, da nora e de William e Kate, com os seus filhos. Os outros elementos, mais seniores e mais experientes em conspiração palaciana, poderão não estar na célula num futuro próximo. Até lá, muita tinta correrá na imprensa e muitas cerimónias marcarão a despedida à rainha. Este fim de semana, o corpo chegará ao Palácio de Buckingham e espera-se a presença de meio milhão de pessoas junto ao edifício para homenagear a monarca. "A ponte de Londres caiu" foi a expressão usada como código secreto antes de ser anunciada a morte da rainha. Caiu e termina a era isabelina, mas a monarquia precisa de seguir em frente, forte e sã, porque dois dos grandes desafios de Carlos III serão manter a coesão do próprio Reino Unido e da Commonwealth.

O líder e a comunicação. Conhece Costa a frase de Thatcher?

No dia em que Liz Truss foi convidada a formar governo pela rainha Isabel II e a tomar em mãos os destinos do Reino Unido - é a terceira mulher primeira-ministra em terras de Sua Majestade -, Portugal acordou com a conferência de imprensa proferida por quatro ministros do governo de António Costa para explicar com detalhe o pacote a que o primeiro-ministro chamou "Famílias Primeiro". Um título forte que faz jus a uma frase emblemática da antiga Dama de Ferro britânica, Margaret Thatcher, "um líder é alguém que sabe o que quer alcançar e consegue comunicá-lo".

Do jogo do empurra às boas notícias

"Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo." A frase é popular e é regularmente atribuída a Fernando Pessoa, ainda que alguns autores contestem a sua autoria. Mas vamos à mensagem: em Portugal, empreender é sempre difícil e há sempre muitos caranguejos no balde que, ao ver um dos seus pares subir, crescer e empreender, o puxam de volta para o fundo do balde. Por isso não é de admirar que a construção e a organização da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa esteja cheia de pedras no caminho. Da disputa política ao argumento financeiro, da discussão ambiental à localização, têm sido muito os calhaus no trajeto.

A esperança na juventude... e a falta dela na Saúde

Com o mundo virado do avesso, desde a Ucrânia a Taiwan, a palavra esperança ganha um reforçado significado. Esperança constrói-se com paz e também com juventude. Começando pela paz, no seu tom provocador e polémico, Pedro Abrunhosa disse há dias aos microfones do Diário de Notícias e da TSF: "Não quero que o presidente Putin vá procriar consigo próprio, quero é que ele pare com a guerra". Terminar a guerra é essencial para o reequilíbrio político e económico, que, no final das contas, é aquele que os portugueses mais sentem na sua carteira todos os dias, devido à subida do preço da energia, da taxa de inflação e das taxas de juro. Passando à juventude, é e sempre será ela que nos devolve a esperança de um mundo melhor. Não acreditem nos Velhos do Restelo que gostam de dizer bem alto que "a juventude está perdida". Não só não está perdida, como se trata da geração mais bem qualificada de sempre e que começa, finalmente, a ganhar um sentido de urgência ambiental e de equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. Já lá vai o tempo dos lobos de Wall Street ou dos yuppies, termos cunhados no início dos anos 1980 para caracterizar os viciados em trabalho (workaholic) e viciados em acompanhar as últimas tendências da moda.

Dinheiro e energia não nascem nas árvores

Os preços da energia vão continuar a subir e o prolongamento da guerra arrastará esse efeito, depauperando ainda mais a carteira das famílias portuguesas e da generalidade das empresas. O presidente da Endesa admitiu, no último domingo, aumentos de 40% na eletricidade e o país ficou chocado. O governo chamou-lhe "alarmista". Mas todos sabemos que, quando acabar a subsidiação do gás e com o agudizar das alterações climáticas que deixam as barragens vazias, a eletricidade vai ficar ainda mais cara. Ninguém sabe é quanto, mas do aumento não nos livramos. Assim, temos todos fortes razões para estar preocupados, sejamos clientes deste operador ou de outro. Há um quadro geral e macroeconómico que não depende da Endesa, nem do governo, mas sim dos mercados, do ambiente e, acima de tudo, do risco geopolítico europeu.

Razoni, sinal de esperança ou manobra de Putin?

Um sinal positivo de Putin ou simplesmente um atirar de areia para os olhos? O primeiro navio carregado de cereais partiu de Odessa, na Ucrânia, após o desbloqueio dos portos pelas forças russas. Razoni, o nome do cargueiro que enverga a bandeira da Serra Leoa, seguiu com 26 mil toneladas de milho com destino ao Líbano. Desde a invasão russa, a 24 de fevereiro, esta foi a primeira embarcação a conseguir sair dali transportando alimentos. Há meses que os portos e todo o corredor marítimo estão bloqueados. A negociação que permitiu ao Razoni sair de Odessa foi intensa e longa, envolveu os governos de Kiev e Moscovo e contou com a mediação da Turquia e da Organização das Nações Unidas (ONU).