Autores

1384 e 2021. Dois cercos a Lisboa

O atual cerco a Lisboa não é exatamente como o de 1384. Nessa altura foi imposto por Castela, pelas tropas comandadas por João I de Castela, e terá durado de 26 de maio a 3 de setembro. Foram meses longos de sofrimento e restrições a vários níveis. Os portugueses eram então chefiados pelo mestre de Avis, que seria depois aclamado rei de Portugal. O cerco foi feito por terra e por mar e é descrito por Fernão Lopes na Crónica de El-Rei D. João I. Na crónica desse pioneiro do jornalismo referem-se alguns dados sobre o cerco à cidade: um forte dispositivo armado, apoiado por 77 torres, garantia o isolamento da urbe.

Quem colocou quem no bolso?

Hoje é o dia! Vamos saber da avaliação que faz o governo à situação pandémica em Lisboa. Recuará a capital no plano de desconfinamento? Só o saberemos mais logo. O primeiro-ministro disse ontem que a cidade terá o mesmo tratamento que os outros concelhos em função da matriz de risco da covid-19. Ao lado da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen (que veio a Lisboa dar luz verde ao Plano de Recuperação e Resiliência para Portugal), António Costa foi questionado sobre o tema e admitiu um cenário de antecipação em uma semana das medidas restritivas a aplicar a Lisboa pelo facto de a capital estar agora com uma incidência de novas infeções superior a 240 por 100 mil habitantes nos últimos 14 dias. "Todos os concelhos são iguais. Lisboa não será diferente dos outros concelhos e terá exatamente o mesmo tratamento", respondeu António Costa.

Desta vez, a tartaruga pode perder a corrida para a lebre

Tudo vai ficar bem, diziam os cartazes afixados nas janelas e nas varandas durante o primeiro confinamento. Um pouco por todo o mundo, os seres humanos queriam acreditar que a crise sanitária não passaria de uma fase. Até pintaram o arco-íris nesses mesmos cartazes, em sinal de luz, fé e esperança. Mais de um ano depois, ainda não está tudo bem. A covid-19 teima em persistir e reinventa-se em novas variantes e os mercados ainda não sararam as feridas provocadas por este longo período de paragem.

"Erros, mentiras e omissões graves"

Que grande surpresa! A Comissão Parlamentar de Inquérito covid-19 do Senado aponta erros e omissões graves ao governo brasileiro. "Serão indiciadas as pessoas responsáveis e penalizadas, por terem participado na tragédia" que assolou o Brasil, afiançou ontem Omar Aziz, presidente da comissão parlamentar numa entrevista exclusiva à RTP. Apenas um mês depois do início dos trabalhos, as primeiras conclusões estão aí e sem admirações. "Foram ditas mentiras ao país e ao mundo, inclusive pelo primeiro-ministro e ministros da Saúde anteriores e atual", que terão "protegido o governo federal e Bolsonaro", afirma o presidente da comissão. "A causa" desses indivíduos não é o todo, não é coletivo, "não é o Brasil, mas pessoas".

Vacinas? Quantas querem e para onde?

Acelerar a vacinação dos mais novos e a testagem é fundamental para reabilitar a economia e o tecido social. O plano de combate à pandemia compreende, desde o início desta semana, um avanço da testagem à covid-19, uma medida quem a meu ver só peca por atraso. Há muito que o desconfinamento entrou na vida dos portugueses, permitindo inclusive assistir a ajuntamentos como os que acontecerem em redor do estádio de Alvalade. Portanto, anunciar a aceleração do rastreamento é uma boa notícia , mas, mais uma vez, acaba ser uma medida tardia e que terá de correr atrás do prejuízo.

A variante da euforia

Depois de ser conhecida a variante indiana da covid-19, que está a assolar a Índia e com fortes efeitos negativos no Reino Unido, a França tenta agora travar um surto de uma variante rara detetada em Bordéus. Poderá ser teoricamente mais contagiosa, mas não existe indício que ofereça maiores riscos para as populações. As autoridades francesas estão a implementar diversas medidas sanitárias para travar este surto em Bordéus, que fica no sudoeste do país. Ao mesmo tempo, as autoridades de saúde lançaram uma campanha de vacinação intensiva na região e pediram a todos os adultos que fossem vacinados. Nas próximas três semanas, cerca de 15 mil doses adicionais de vacinas vão chegar, com 5 mil doses a começarem a ser distribuídas na semana que agora se inicia. Há pelo menos 46 pessoas infetadas com a variante VOC 201/484Q no distrito de Bacalan, em Bordéus, mas nenhuma delas se encontra numa situação preocupante. Trata-se de doentes essencialmente jovens, uma vez que os mais velhos já foram quase todos vacinados.

Taça. Os festejos podem esperar, a vida não

Afinal da Taça de Portugal, esta noite, será um ponto alto do calendário futebolístico. Espera-se, a bem de todos, que a nação benfiquista ou bracarense tenha maior consciência e respeito pelos outros do que uma parte da nação sportinguista revelou ter. É que os casos de contágio por covid-19 estão a subir na capital e arredores, refletindo já a concentração de pessoas em redor do Estádio de Alvalade no dia em que os leões foram campeões nacionais. O espírito dos adeptos esta noite deve honrar o esforço que os portugueses têm feito ao longo de mais de um ano, passando por vários e dolorosos confinamentos, na tentativa de conter a pandemia.

"Crise", disse ela

A recuperação económica, tão desejada por todos, dominou a reunião do Eurogrupo e Econfin, ontem em Lisboa, no âmbito da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia, cuja sede é o Centro Cultural de Belém. Christine Lagarde falou em "divergências" na forma como as nações vão recuperar. Cada país terá o seu ritmo e o avanço da vacinação será decisivo para reanimar as empresas e a confiança dos consumidores e dos investidores. "Acreditamos que dada a incerteza do que estamos a enfrentar, e a divergência do que vamos observar, que as políticas coordenadas e de apoio continuarão a ser necessárias nos próximos meses, para assegurar que a recuperação está bem em marcha", vincou a presidente do Banco Central Europeu (BCE).

Saúde, economia e bola para a frente 

Uma boa parte do país ficou ontem, de novo, inebriada com o futebol e a escolha dos 26 convocados para o Campeonato da Europa. Fernando Santos foi a estrela dos telejornais, quando anunciou os nomes dos atletas e entre os quais se destaca Pedro Gonçalves (Pote). "Pode dar à seleção o que deu ao Sporting", afirmou o selecionador nacional, a respeito deste jovem talentoso, que é a grande surpresa na equipa eleita. "Sermos campeões europeus não nos faz favoritos a vencer o Campeonato da Europa, ainda que sem público, mas seremos candidatos à conquista do título", afirmou Fernando Santos, com a fé que o caracteriza.

Antecipar é preciso

Se a pandemia poderia ter sido evitada, como alertaram ontem peritos mandatados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), imagine-se o que poderia ter sido acautelado na noite em que o Sporting se sagrou campeão! Vamos ao primeiro tema, a pandemia: segundo os entendidos e personalidades que compõem o Painel Independente, a convite da OMS, é urgente fazer vastas reformas dos sistemas de alerta e prevenção para evitar novas pandemias. Num relatório, o mesmo painel considera que a OMS demorou demasiado tempo a fazer soar o alerta e que teria sido possível evitar a catástrofe classificada como "Chernobyl do século XXI", que já custou a vida a pelo menos 3,3 milhões de pessoas e provocou uma crise económica mundial. "É claro que a combinação de más escolhas estratégicas, falta de vontade de atacar as desigualdades e um sistema mal coordenado criaram um cocktail tóxico que permitiu à pandemia transformar-se numa crise humana catastrófica", revela o mesmo relatório. Um ataque feroz às autoridades de saúde mundiais. Os peritos reforçam: "Muito tempo se passou" entre a notificação de um foco epidémico na China, na segunda quinzena de dezembro de 2019, e a declaração, a 30 de janeiro pela OMS, de uma emergência de saúde pública de âmbito internacional. Isto enquanto a China foi acusada de camuflar a epidemia.

A política e as suas consequências

A situação dos imigrantes em Odemira não é nova, mas revela bem como, por vezes, as autoridades têm a capacidade de fingir que não veem uma realidade à vista de todos. Foram precisas a pandemia e a requisição civil do Zmar para que o verniz estalasse. A imigração é um dossiê na alçada do ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita. Também a situação do imigrante morto às mãos do SEF, o ucraniano Ihor Homeniuk - caso que o DN denunciou e acompanhou detalhadamente -, foi e é um dossiê da Administração Interna, ministério que anunciou uma reestruturação daquele Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Aliás, ainda está por demonstrar que essa proclamada renovação seja suficiente para respeitar realmente os direitos humanos dos imigrantes que chegam ao nosso país. A inabilidade com que estes temas têm sido geridos é gritante e é, cada vez mais, um desconforto político para o governo socialista.

Cimeira Social e a Europa em marcha

A importância do Estado social foi reafirmada no Porto, na cimeira que ainda decorre durante o dia de hoje e que junta vários líderes europeus. A pandemia mostrou, e bem, como o papel do Estado pode ser importante em momentos críticos da civilização. Durante o último ano, podia ter sido melhor e mais ágil? Podia, claramente. Mas desinvestir do Estado social só nos deixaria mais frágeis e impreparados para enfrentar as próximas grandes crises e pandemias que, segundo os especialistas na área da saúde e do ambiente, deverão tornar-se mais vulgares.