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Climas de guerra

Numa recente reportagem com Helena Freitas, catedrática de Biodiversidade e Ecologia na Universidade de Coimbra, a atual diretora do Parque de Serralves, comentando o impacto das sanções a Moscovo por causa da guerra na Ucrânia, nomeadamente na substituição do gás russo por outros combustíveis fósseis mais poluentes, afirmava que "sobretudo o uso do carvão, é um risco e tudo dependerá do que vai acontecer nos próximos meses neste embate. As renováveis não conseguem, de momento, dar resposta. Mas podemos conseguir uma maior parcimónia na forma como usamos os recursos e ter investimento tecnológico maior. Há condições para isso, mas não é fácil, é preciso sintonia. De qualquer forma, penso que no final deste ano as emissões de carbono deverão ter aumentado. Só espero que esse retrocesso seja temporário".

"A montanha do Pico é o maior vulcão dos Açores e o 3.º do Atlântico Norte"

Depois de uma palestra no Centro de Interpretação dos Capelinhos, no Faial, organizada pela GlexSummit, em paralelo ao evento principal em São Miguel, o vulcanólogo João Carlos Nunes, diretor científico do INOVA e professor da Universidade dos Açores, conversou com o DN sobre as origens do arquipélago, todo ele nascido dos magmas que vieram de debaixo dos fundos oceânicos, há seis milhões de anos no caso de Santa Maria e 300 mil anos no do Pico, a mais jovem das nove ilhas.

No tempo de Mao e Chiang era tudo bem mais simples

Tudo era mais simples no Estreito de Taiwan quando Mao Tsé-tung esperava apenas pelo momento certo para enviar tropas para a ilha sob controlo do Kuomintang e terminar de vez com a guerra civil a favor da República Popular da China, enquanto no outro lado, Chiang Kai-shek acumulava armamento para um dia tentar a reconquista do continente aos comunistas e restabelecer o domínio da República da China, interrompido em 1949. Tanto Mao como Chiang acreditavam numa só China, queriam-na toda sua e, claro, impor nela a respetiva ideologia.

Mohammed VI, o feminista

O hino, ao tocar no estádio olímpico de Los Angeles, premiando a vitória de Nawal El Moutawakel nos 400 metros barreiras femininos, encheu de alegria os marroquinos, que viram a corrida na TV, a milhares de quilómetros de distância da América, mas sem tal parecer. Do povo a celebrar nas ruas de Casablanca ou de Rabat ao telefonema do rei Hassan II à atleta, Marrocos dava nesse já longínquo ano de 1984 um sinal claro de que no que diz respeito ao orgulho nacional as mulheres contavam tanto como os homens.

Banalização da guerra

Comecei como jornalista no ano em que se iniciou a guerra da Bósnia, 1992. Foi uma das várias guerras que provocaram a desintegração da Jugoslávia, mas, por causa da diversidade étnica da população e da mistura entre comunidades, ganhou dimensões especialmente trágicas, com envolvimento militar de vizinhos e de potências mais longínquas, num dado momento mesmo da NATO. Talvez a memória de a I Guerra Mundial ter começado com um assassínio em Sarajevo contribuísse para a enorme atração mediática que o cerco da capital bósnia causou naquele final de século XX, mobilizando repórteres a lá irem, mesmo com risco de serem alvo dos snipers. Um deles foi Carlos Santos Pereira. Também ao serviço do DN lá esteve Ana Glória Lucas. Em teoria, a guerra da Bósnia terminou em 1995, com os Acordos de Dayton, mas a unidade da antiga república jugoslava é mantida até hoje, a grande custo, pela comunidade internacional, e não faltam episódios de tensão entre os muçulmanos da Bósnia (ou os bosníacos, palavra tardiamente cunhada para designar os eslavos islamizados), os croatas da Bósnia e os sérvios da Bósnia, todos sentindo ter direito àquela terra, por isso esta minha repetição de palavras.

Oriente, Oriente

África, Brasil e Oriente. Sem dúvida que da era das Descobertas herdámos uma relação muito especial com estas partes do mundo, e certamente haverá portugueses que se identificam mais com uma do que com as outras. Pessoalmente, devo confessar que quando se trata da história de Portugal o meu fascínio é sobretudo pelos nossos contactos com o Oriente, no sentido não de Próximo ou de Médio, mas sim quase de Extremo, indo até ao Japão e começando na Índia ou até, se pensarmos bem, no golfo Pérsico, como ainda hoje testemunham as fortalezas no Irão, em Omã ou no Bahrein.

Biden em alerta

Se seguissem a metodologia europeia, os Estados Unidos estariam agora em recessão técnica, depois de dois trimestres consecutivos com crescimento negativo. Não estão, porém, por seguirem regras estatísticas diferentes, mas fica evidente que a ideia mil vezes repetida de que a economia americana será a única ganhadora da tensão mundial em torno da guerra na Ucrânia não é assim tão certa, mesmo que alguns setores do outro lado do Atlântico beneficiem do impacto das sanções à Rússia, sobretudo o do gás.

Teste à democracia tunisina

Ficou célebre a imagem de Habib Bourguiba na televisão a beber um sumo de laranja em pleno Ramadão e a explicar aos tunisinos que o Islão e a modernidade eram compatíveis. Mas o maior legado do pai da independência da Tunísia (até à década de 1950 um protetorado francês) foi a emancipação feminina, pioneira no mundo árabe, e que explica o papel das mulheres nos protestos que em 2011 fizeram cair o regime de Ben Ali (que se exilou), sucessor de Bourguiba desde 1987, mas claramente sem o carisma do primeiro presidente e muito prejudicado na imagem popular pelo crescente nepotismo. Foi assim na pequena Tunísia que começou a famosa Primavera Árabe, com consequências terríveis para os ditadores líbio, egípcio e iemenita, todos depostos, e no caso de Muammar Kadhafi até morto por uma multidão.

Um éden na cidade de Lisboa

O Le Monde não poupa elogios a Monsanto no artigo que dedica ao pulmão verde da capital portuguesa na sua edição de fim de semana, ao ponto de o título ser "À Lisbonne, un éden dans la ville". São mil hectares, sublinha a jornalista Anne-Lise Carlo, que permitem a Lisboa reclamar ter uma floresta dentro da cidade, um pouco como Berlim ou Seul também o fazem. Cerca de 10% do território urbano, acrescenta a francesa, num tom entusiasmado, mas sobretudo bem informado, até porque cita longamente Fernando Louro Alves, o engenheiro florestal que tem a responsabilidade de gerir Monsanto no âmbito da Câmara Municipal de Lisboa.

O esforço de Guterres 

É inegável o papel do presidente turco no acordo que vai permitir o reinício da exportação de cereais tanto ucranianos como russos, mostrando que, por razões várias, Recep Erdogan é dos poucos líderes mundiais com capacidade para levar os governos de Kiev e de Moscovo a entendimentos pontuais no meio de uma feroz guerra. Mas há sobretudo que realçar o novo protagonismo de António Guterres, o secretário-geral das Nações Unidas que foi extremamente duro com a Rússia num primeiro momento, após a Ucrânia ser invadida, a 24 de fevereiro. Mesmo tendo que lidar com as críticas de Moscovo por falta de imparcialidade, o português já conseguiu mediar uma primeira vez, em finais de abril, entre Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky a questão da rendição dos militares ucranianos cercados na fábrica Azovstal, em Mariupol, e agora obtém de novo luz verde dos líderes russo e ucraniano para resolver um impasse que afetava os dois beligerantes mas prejudicava muito também grande parte do mundo.