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Livreiro de Bissau à espera de Marcelo

Se tivesse de recomendar um lugar de Bissau para Marcelo Rebelo de Sousa visitar nos próximos dias seria a livraria que Miguel Nunes tem junto ao Hotel Coimbra, também propriedade da família, que há mais de 90 anos escolheu a Guiné para viver, apesar de as raízes estarem em Cadafaz, uma aldeia do concelho de Góis. São milhares e milhares de livros, na sua esmagadora maioria em português, que na verdade se espalham pelas próprias salas do hotel, desrespeitando eventuais fronteiras que Miguel alguma vez tivesse pensado por ali criar.

O tudo ou nada do Hamas

Numa das minhas reportagens em Israel e nos territórios palestinianos, em 2003, cheguei a Telavive dias depois de um duplo atentado junto à estação de autocarros. No local das explosões, um memorial com velas e algumas fotografias lembrava os 23 mortos. Fui depois até Belém, na Cisjordânia, cidade cujo acesso estava bloqueado exceto a jornalistas e poucos outros e por isso vazia dos turistas que alimentam a economia local, e a Praça da Manjedoura, com a Igreja da Natividade, era um deserto, com restaurantes e lojas de artesanato de portas fechadas. Ao contrário de outros momentos, não se viviam combates na cidade onde Jesus nasceu, mas o presidente da câmara, um cristão, contou-me do desemprego, da falta de perspetivas dos jovens, da frustração dos palestinianos que acreditaram que os Acordos de Oslo assinados pela OLP e Israel uma década antes trariam a paz. No regresso, junto a um check-point a caminho de Jerusalém, vieram vender-me um keffiah. Não me senti confortável com a atenção dos soldados israelitas de metralhadora, os mesmos que minutos depois olharam para o passaporte e me deixaram passar.

Ricos vs. pobres, pessoas e países

Há dois anos, numa visita a Portugal que coincidia com o centenário da organização que dirige, Guy Ryder lembrava: "Não se esqueçam de que antes de a OIT nascer, em 1919, os operários trabalhavam 65 horas por semana" (título de uma entrevista publicada no DN). Mas apesar do balanço muito positivo do progresso dos direitos dos trabalhadores, o britânico acrescentava continuar a haver no mundo tanto trabalho infantil como trabalhos forçados, e, portanto, um século de cooperação internacional e de legislação progressista não chegou para acabar com esses flagelos.

Lições do intocável que foi Presidente

Sabia que o homem que ia entrevistar naquela manhã de primavera de 1998 era o primeiro intocável a ser eleito Presidente da Índia e isso reforçava a minha convicção de que se tratava de alguém extraordinário. Apesar de ter já alguns anos de jornalismo, e de até ter estado meses antes em reportagem na Índia, o protocolo impôs que o diretor do DN me acompanhasse. Foi o melhor que me podia acontecer: ter ao lado Mário Bettencourt Resendes, enquanto cruzava sucessivas salas no Palácio de Queluz em direção ao Presidente indiano, fez desaparecer boa parte do nervosismo do jovem de 26 anos. "Você sabe disto", disse-me, para tranquilizar, o Mário, ele que já perdera a conta aos entrevistados de peso.

Uma língua que cresceu 27 vezes

Em meados do século XIX, um navio americano com um embaixador itinerante a bordo aportou ao reino do Sião, a atual Tailândia, e pediu para se estabelecer relações diplomáticas. O monarca siamês, depois de algumas peripécias negociais, lá aceitou assinar um tratado de paz e amizade, mas além de escrito em tailandês e inglês o documento teria também obrigatoriamente versões em duas línguas internacionais importantes, o mandarim e o português. O diplomata dos Estados Unidos aceitou sem hesitar. E seguiu depois viagem para outros destinos asiáticos, só não indo ao Japão falar com os xóguns, porque morreu doente em Macau antes dessa etapa.

Napoleão e o português que um dia o enganou

Napoleão ganhou 77 das 86 batalhas que travou, assinala o Le Monde. Um índice de sucesso de 90% com poucos paralelos na história, ainda por cima porque o imperador nascido na Córsega conseguiu num dado momento multiplicar por três o território de França. Génio militar, tanto por méritos do estudo como por ter percorrido todos os degraus da carreira das armas, morreu, porém, no exílio na remota ilha de Santa Helena, a 5 de maio de 1821, faz nesta quarta-feira 200 anos.

Corrida ao armamento

Que as despesas militares globais tenham crescido 2,6% em 2020, um ano em que a pandemia fez a economia do planeta contrair-se 4,4%, deve servir de alerta para todos aqueles que acham as grandes guerras um fenómeno do passado, não repetível. São muitos os pontos de tensão que se vão acumulando e, ao contrário do que aconteceu nas décadas logo a seguir ao fim da Guerra Fria, desta vez o risco de violência é mesmo entre Estados, e não entre guerrilhas ideológicas ou grupos separatistas e os governos centrais.