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Novas marés, melhores marinheiros

Pode fazer-se muitas interpretações das intenções de voto que os portugueses dizem ter para as legislativas que hão de acontecer daqui a dois anos - aceitando que este governo se mantém até ao final da legislatura, claro. Mas há leituras que são óbvias e inevitáveis. A primeira é que o PS de António Costa - que, no que um estudo do ICS identificou como "o melhor contexto possível", não conseguiu a maioria absoluta - não é capaz de descolar. O voto nos socialistas fica apenas um ponto percentual acima dos resultados obtidos em 2019, quando se inverteu o ciclo da austeridade.

Tudo isto que já nos cansa

A serenidade de Marcelo Rebelo de Sousa tem-lhe rendido pontos de refúgio nos últimos tempos, mas mesmo isso não chegou para evitar o cansaço que os portugueses demonstram sentir em relação aos seus líderes políticos. E se é verdade que o Presidente da República continua a ser querido pela maioria, o barómetro que se publica aqui é bem revelador do limite a que os portugueses estão a chegar. E que se traduz num claríssimo cartão vermelho a António Costa e ao seu governo - com destaque para um ministro da Administração Interna que, dia sim dia não, é notícia pelos mais inacreditáveis motivos, e para uma ministra da Saúde semidesaparecida em ano e meio de pandemia, que de quando em vez aparece em programas de entretenimento a anunciar as suas resoluções para a pasta. Mas há também um alerta bem presente à oposição, com Rui Rio à cabeça do infeliz cortejo, graças à surpreendente capacidade do líder social-democrata de sempre cavar mais fundo o buraco em que meteu o PSD.

Viver à espera de quinta-feira

Fecha-se Lisboa para conter a variante Delta, mas não se controla as fronteiras (nem coisa nenhuma, na verdade) e ela espalha-se pelo país em 15 dias. Impede-se o regresso ao escritório, mas permite-se ir almoçar e jantar fora, comprar em lojas e andar nos transportes públicos colado a desconhecidos. Determina-se o confinamento obrigatório, mas o presidente da Assembleia da República diz e repete que todos devem ir a Sevilha apoiar a Seleção de Futebol. Decreta-se o desconfinamento, mas recua-se com base numa matriz de risco que sobrevaloriza contágios e ignora vacinação, casos graves e mortes - e que até o bastonário dos médicos diz que já não vale. Reabre-se a economia a conta-gotas porque o risco de ficar no buraco é enorme, mas mantém-se áreas inteiras de atividade congeladas e a morrer. Ouve-se especialistas diariamente, mas ignora-se os que defendem que o pior já lá vai e é urgente voltar à vida; até o Presidente Marcelo deixou de ter voz desde que começou a defender que os tempos mudaram e as prioridades também. Diz-se que a vacina permitirá voltar à normalidade, mas o primeiro-ministro fica isolado meses depois de tomar as duas doses. Obriga-se a apresentar credenciais para entrar em espetáculos e também no restaurante e no hotel, mas só ao sábado e ao domingo - nas lojas, centros comerciais, cafés e pastelarias não é preciso. Nunca. E ainda nesta semana ouvimos Graça Freitas anunciar que o isolamento de Costa foi bem contestado por Marcelo, que há condições para o público voltar aos estádios - o que o governo se apressou a dizer que ainda não decidiu - e que poderemos retomar a vida em setembro, apesar de as ordens para as escolas serem de um arranque de ano letivo a manter todas as restrições do que termina.

António Fonseca: "Querem acabar com a raça dos bancários"

A banca enfrenta uma das maiores vagas de despedimentos dos últimos anos. Só no BCP, no Santander e no Montepio anunciam-se mais de 2000 saídas. O Mais Sindicato, que António Fonseca preside há um ano, tem 38 mil associados e apresenta-se como o maior do país, resultando da fusão de várias organizações do setor. O profissional, que trocou a Caixa Geral de Depósitos pela atividade sindical há quase duas décadas, lamenta o que a carreira se desvalorizou. E garante que, "se fosse hoje, não escolheria ser bancário".