Autores

Rogério Rodrigues. Jornalista

Escrevia bem - com aquela forma tersa do Afonso Praça. Talvez fosse necessário ter nascido transmontano e andado em seminário para aí chegar. Escrevia sobre bandidos desesperados ou sobre uma doida que dançava nua na cidade. Talvez porque a normalidade também cansa. Ou talvez porque a doida se fazia chamar Torga porque havia um poeta assim. Escrevia raramente sobre amigos. Talvez porque estes mereciam mais que se bebesse com eles e lhes dedicasse lealdade sempre e fidelidade nunca. Escrevia o que talvez não viesse a escrever quando falava com o José Cardoso Pires, o Fernando Assis Pacheco ou o Dinis Machado porque tinha amor, amor mesmo, pela escrita. Falava sempre com voz rugosa porque as letras, aprendeu-o no papel, são para arranhar. Foi o Rogério Rodrigues do Diário de Lisboa, o Rogério Rodrigues de O Jornal, o Rogério Rodrigues do Público, o Rogério Rodrigues sempre envolto numa coisa junta, porque o jornalismo é uma súmula, e nesta a parcela só conta se pensa no todo, aquela sinopse que a lê.

António Costa de mãos desatadas

Em dia eleitoral, o noticiário sobre a abstenção é pouco relevante. O dia é para contar os que se apresentaram, não com os que se ausentaram (Marcelo avisou, e bem). É verdade que, sendo muita ou escassa, a abstenção tem justificadas razões para ser citada por sociólogos, politólogos e moralistas sociais em geral: a saúde de uma democracia mede-se também por ela. Mas os números da abstenção têm sempre muito eco ao longo de um dia eleitoral porque, entretanto, não há outros números. Logo que esses outros aparecem, esquece-se a abstenção. É um mau hábito falar-se tanto de abstenção em dia destes. Tal como é péssimo fazer-se tão pouco sobre o assunto ao longo dos outros dias.

Como aprender com o obituário de um ente querido

Conhecem-se as saudades dos velhos soldados que fizeram as guerras. Como se raramente saíssem delas conscientes e amargos sobre os homens. Ou, se calhar, eles só têm saudades de terem sido jovens... No avançar da idade, também vou ficando com esse sentimento de perda atual, quando comparo com a memória. Ah, as personalidades de antanho! E quando uma me ressurge, geralmente para mal dela, em anúncio de óbito, lá me reaparecem as saudades. Na política internacional, é fácil. Esta semana morreu Jacques Chirac e saiu engrandecido. Pudera, se acordo com tweets de Donald Trump, com a cara de quem não percebeu de Jair Bolsononaro e com a brutalidade de Boris Johnson, como não ter saudades de Jacques Chirac?!

A falsa polémica sobre o Nosso Modo de Vida

A futura presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propôs novos nomes aos diversos pelouros do seu governo. Acabou em polémica. Em geral costumo gostar da imaginação ao serviço dos nomes. Se os nomes dos condomínios de luxo são quase sempre pretensiosos (Varandas das Buganvílias...), já os das operações da PJ costumam ser bem esgalhados: chamar Cartas Fora do Baralho a um vulgar desvio de correspondência deram ao caso um não sei quê de poético. O angolano José Vieira Mateus da Graça, quando virou escritor, rebatizou-se Luandino Vieira, o que fez de uma sua condição fundamental, ser luandino (luandense), também sua identidade pública e reconhecida. Para muitos, o nome é acaso, mas outros exigem-lhe mais, um real significado.

Sobre a falsidade do hemiciclo e do semiparlamentar

Governar de acordo com o povo governado - a tão famosa democracia - tem algumas especificidades que podem diferir de país para país. Nos Estados Unidos, por exemplo, quem governa é o presidente, e este até pode ter tido menos votos do que o outro candidato. Donald Trump foi eleito com menos votos do que a sua concorrente Hillary Clinton mas a América não passou os últimos quatro anos a negar-lhe a legitimidade que a legalidade eleitoral lhe trouxe. Outras legitimidades ele não tem, tão estúpido, má pessoa e ignorante é. Mas isso é outro assunto, que não o derivado da escolha do colégio eleitoral, representantes dos 50 estados americanos, que é quem elege o presidente, não os milhões que vão às urnas.

Viva o Jorge Fonseca! Viva a nova Lisboa! Viva nós!

Ontem, em Tóquio, uma senhora de cabelos brancos ergueu-se, livrou-se de uma écharpe que lhe embaraçava as palmas e desatou a ovacionar um campeão do mundo. Havia algo de seu naquela vitória, a senhora Sashiko era filha de Kiyoshi Kobayashi, o mestre. Este fora ensinado para piloto kamikaze durante a II Guerra Mundial, mas a mais radical das formas de combater não estava no seu destino. A mais delicada das artes marciais, sim: conduzir, com técnicas delicadas, o adversário à perda. Que forma nobre de lutar! Kobayashi emigrou para Lisboa em 1958 e inventou o judo português.

A América foi fundada também por angolanos

PremiumFaz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.

A América foi fundada também por angolanos

PremiumFaz amanhã, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.

"Corta!", dizem os Diáconos Remédios da vida

É muito irónico Plácido Domingo já não cantar a 6 de setembro na Ópera de São Francisco. Nove mulheres, todas adultas, todas livres, acusaram-no agora de assédios antigos, quando já elas eram todas maiores e livres. Não houve nenhuma acusação, nem judicial nem policial, só uma afirmação em tom de denúncia. O tenor lançou-lhes o seu maior charme, a voz, acrescida de ter acontecido quando ele era mais magro e ter menos cãs na barba - só isso, e que já é muito (e digo de longe, ouvido e visto da plateia) -, lançou, foi aceite por umas senhoras, recusado por outras, mas agora com todas a revelar ter havido em cada caso uma pressão por parte dele. O âmago do assunto é no fundo uma das constantes, a maior delas, daquilo que as óperas falam: o amor (em todas as suas vertentes).

À espera (só de visita) de Jair Bolsonaro

O Bloco de Esquerda não quer a visita de Jair Bolsonaro a Portugal. Não percebo porquê. Ele não é nosso Presidente, nem primeiro-ministro, nem presidente de junta de freguesia - aqui não manda nada. Aqui, ele não pode incitar antigos volframistas nazis à desflorestação dos bosques transmontanos, nem promover a ida para o Panteão do torcionário pide Casimiro Monteiro. Então, não o deixar entrar seria desperdiçarmos a oportunidade de analisar um "ao ponto a que a gente chegou!", mas distante, sem o risco de lhe sofrer as consequências. Mais, tipos assim são bons de nos cruzarmos com eles quando, para nós, ainda estão na fase "ao ponto a que a gente pode vir a chegar!". Bolsonaro, se impotente connosco, pode ser um bom caso de estudo.

Atenção, este kit contra incêndios não é para ser usado perto do fogo!

Em 1929, há exatos 90 anos, o surrealista belga René Magritte pintou um cachimbo e acrescentou uma frase à imagem: "Ceci n'est pas une pipe" ("Isto não é um cachimbo"). O pintor era belga, e também surrealista, palavra que, diga-se o que se disser, significa ser mais do que realista. Um português é outra coisa. Temos muitas coisas melhores do que os belgas - basta comparar as amêijoas à Bulhão Pato com o mexilhão deles. Mas sobre o respeito à realidade (já para não falar da surrealidade) ficamos a perder. Temos horror aos factos, pelamo-nos pelas leves ideias e campanhas folclóricas.