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A felicidade vai desabar sobre os homens, vai

Eu falava com um amigo brasileiro. Brincava com ele, um bocadinho com aquela mania de que é possível brincar com tudo... Eu brincava sobre um assunto, o presidente deles, convencido de que, sendo entre amigos, não havia acinte. E este, de facto, não me era cobrado pelo meu amigo. Mas vi-o triste. Percebi então o sentido daquela frase feita: não se fala de corda em casa de enforcado. Eu brincava sobre o calhau, aquele que não é só ególatra como Trump, mas burro, burro, como só ele, Jair Messias Bolsonaro.

Pois… "A Festa do Avante! é uma grande organização e de massas!"

A Igreja Católica, talvez pelo avanço que lhe leva de 1900 anos, deu em Fátima uma lição ao PCP sobre o uso do simbólico. A Igreja envelheceu melhor. Ela prescindiu das barracas de iconografia à volta do seu festival anual e dispensou a multidão. O que aconteceu foi que a Igreja Católica lembrou-se de que tem fôlego e pode apostar na estratégia: o que se perde hoje ganhar-se-á em amanhãs que cantam - bem visto para quem acredita na eternidade. Como diria um santo de outra paróquia, São Vladimir Lenine: "Um passo atrás, agora, para que haja a procissões amanhã..." E os católicos foram também coerentes na frente unida internacional a que pertencem. Com nome de santo de revolta campesina, Francisco, líder do, digamos, Komintern, dera há semanas na, digamos, Praça Vermelha do Vaticano, uma lição semelhante de solidão, simbolismo, beleza e bom senso.

Tudo o que é preciso saber sobre o 'jus soli'

Se é preciso latim para dizer um direito inalienável, seja esse belo jus soli. Direito ao solo de nascença. A terra é quem mais ordena. Como se dizia na minha terra, de uma honra, de uma glória ou de uma medalha: filho da terra. Descobri no velho cemitério de Luanda - o do Alto das Cruzes que olha a baía, a fortaleza de São Miguel e a ilha do Cabo - numa lápide com foto esmaltada de um mulato, que foi arcipreste da Sé da minha cidade: "Ao nosso patrício, homenagem dos filhos da terra."

Um homem na cidade. Lisboa

Antigamente, antes do covid-19, raramente alguém ousava ocupar a cadeira ao lado do poeta. E Fernando Pessoa, de bronze, na sua mesa da esplanada do café A Brasileira, lá estava, de perna traçada, braço pousado no tampo da mesa e com a outra cadeira vazia. De vez em quando, um turista, envergonhado pela ousadia, sentava-se nessa cadeira, fazia uma foto rápida, e até um selfie, e clicava com a consciência intranquila de alguém que sabia estar a incomodar o dono da mesa em conversa íntima com Álvaro de Campos.

A língua portuguesa, o Rui Tavares e o Nuno Melo

Então, a língua portuguesa. Mas o Dia Mundial da Língua Portuguesa foi ontem. Exatamente, o dia mundial da língua portuguesa foi ontem e há muito tempo: poucas línguas foram ontem, mundiais e há tanto tempo. Por isso falo hoje que ela tem amanhã. O português chegado a Malaca há meio milénio, com Afonso de Albuquerque, já foi dado como morto. E, se calhar, hoje já está mais para lá do que para cá, mesmo entre os cristangs, descendentes dos portugueses. Mas não se pode dizer morta uma língua que, porque já não tem amarras com o português fundador, olha para um avião e lhe inventa um nome: "barco que voa".

Voando sobre uma velha e hoje tão necessária "entrevista" 

Esta semana, o DN não publicou, republicou a entrevista dada por Adolfo Hitler a António Ferro, um nome grande deste jornal. O pretexto foi uma efeméride feliz, festejam-se os três quartos de século do suicídio de Hitler, e a entrevista foi feita há 90 anos. Repita-se, pois, a "Agitada e sensacional entrevista com Adolfo Hitler, chefe dos nacionais-socialistas", como dizia a manchete original do DN, num domingo de novembro de 1930 - e repita-se tantas vezes quanto, falte ou não como o pão para a boca, o bom jornalismo é sempre pão.

25 de Abril! Como se passou? Quem lá esteve? (Espero)

Porque raio havemos de celebrar o 25 de Abril no Parlamento? Pelo raio de luz que ele é. Por um instante apeteceu-me usar uma bela expressão da nossa língua, o "porque sim", que tão bem assenta no que é óbvio. Mas preferi não, por duas razões. Primeiro, o "porque sim" não é entendido pelos cágados e pelos telhudos, e, segundo, porque uma das grandezas do 25 de Abril é sentir-se obrigado a dar explicações mesmo à manha e à estupidez.

Os likes do juiz Registo, as leaks do Rui Pinto e o roubo da nossa alegria

Ao juiz Paulo Registo, do Tribunal Central Criminal de Lisboa, calhou por sorteio julgar o processo Rui Pinto/"Football Leaks", soube-se há dias. E soube-se antes que o mesmo juiz vai julgar também o processo e-Toupeira. Em ambos, de alguma forma o clube SL Benfica é parte interessada. Ora, 1) o juiz Registo é adepto benfiquista; 2) o juiz já publicou nas redes sociais acusações desbragadas contra o FC Porto; e 3) ele já publicou likes em tweets que chamavam "pirata" a Rui Pinto.

Tempos de saber do que somos capazes (e não anima)

Passei parte da vida irritado com o ator Michael Douglas por causa de uma mania dele. Em todos os seus filmes, quando se chegava (e chegava-se sempre) àquela manifestação humana tão agradável e deitada, ele e o par estavam de pé e contra uma parede. Não é preconceito, é porque me cansava. Mas eu acabava por desculpar o filho de Kirk Douglas. O pai Douglas, que morreu há poucas semanas e com 103 anos, além não ter nada contra as paredes, tem filmes enormes, incluindo um sobre a minha profissão e a falta de escrúpulos, O Grande Carnaval.

Já há testes para populações​​​​​​​ menos educadas? 

Foi uma conversa corrida por Portugal inteiro, fresquinha, desta semana. Uma televisão publicou uma reportagem sobre o norte do país ter mais casos de covid-19 e sobre as causas disso. Para anunciar a reportagem, juntou-se um título e uma imagem, o duo mais impactante desde que foi descoberto o dizer baixinho palavras doces ao ouvido de alguém. Mostrar uma imagem do Porto - único porque só o Porto tem Ribeira, ponte e rio - e juntar-lhe o título "População menos educada", esse duo, teve a mesma reação de palavras doces ao ouvido. Só que ao contrário.