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E no meio do vírus, surgem abençoados testes às palavras

Pouco a pouco vamo-nos dando conta, o mal não é o confinamento, é mesmo o covid-19. Os jornais e as redes sociais, também com lentidão, vão repercutindo essa perceção. Os lamentos espúrios (a palavra é essa, sinaliza o que não é legítimo nem deve ser perfilhado), os "ai, que incómodo!" - e o incómodo é o fim de semana sem Bairro Alto, é o perder o sol da primavera, são tretas... - estão a ser derrotados pela consciência paulatina da tragédia.

Milagre, Trump e Bolsonaro já acreditam no vírus!

Um dia, René Descartes, um tipo que pensava, muito e com método, escreveu: "O bom senso é a coisa mais bem partilhada do mundo." Para Descartes todos tinham bom senso, ou pelo menos parecia, pois "cada um pensa tê-lo em bastante quantidade." Eu que penso menos e com pior método, admito que quase todos temos bom senso. A prova é que nem a alguns malucos isso escapa: "Maluco, maluco, mas não põe o cu no fogão..." Eis um dito português que, como quase todos os provérbios, tem razoável bom senso.

A decência em tempos de vírus: o outro

Há imigrantes com pedidos pendentes para terem autorização de residência em Portugal. Já nós, mesmo os com dez gerações de portugueses às costas, mesmo os ricos, quanto mais os pobres, vivemos num país hoje mais difícil. Um Portugal que encolheu. O que era um país de lés a lés, para os portuenses não vai além da Circunvalação e para os lisboetas para ainda antes da Ponte 25 de Abril. O que era a cidade confina-se à nossa casa. E lá dentro, na nossa casa, temos medo. Uma tosse é um pavor. Isso, repito, nós, com o direito ao país bebendo em séculos.

Não estorvar quem nos salva

Numa das suas consequências maléficas, o vírus que causa a atual epidemia é chamado pelos imbecis da informação como "vírus da China". Nem em coisas simples, como um nome, eles acertam. Vá lá, eles chamam-lhe "vírus", que o é, mas cansados com a verdade na primeira de três palavrinhas, logo erram nas duas palavras seguintes: "da China". O vírus é de todo o mundo, como se confirmou nesta semana. Depois de dar volta ao mundo, chegou também a Portugal - e vai continuar pelo mundo. Em matéria tão grave, é prudente os leigos respeitarem os que sabem.

A mulher comum que combateu o vírus esquisito

Como já devem ter reparado, à História decidimos escondê-la: não há museu dos Descobrimentos nem caravela atracada no Tejo. Já foram intenções públicas, mas hoje receia-se que o museu e o barco, do passado glorioso e também menos glorioso, é melhor não falar. Intenso ativismo em jornais e redes sociais fez desse passado toda uma vergonha e uma exclusiva vergonha. Então, varre-se o passado para debaixo do tapete, apesar de as visitas, que hoje se chamam turistas, e ainda alguns locais continuarem curiosos daquilo que se passou. Mas não, Portugal inventou o pastel de nata, e só. O resto foi racismo, escravidão e espadeirada pelos matos dentro.

Portugal é coiso? Ou Portugal não é coiso?

Vamos lá saber: Portugal é racista ou Portugal não é racista? Então, já agora: Portugal é gatuno ou Portugal não é gatuno? Enfim, para dizer tudo e por atacado: Portugal é ou não é? Eis do que não vou falar nesta crónica. Não vou alimentar o exercício de jornais e redes sociais que preferem a certeza imprecisa do sim ou sopas. Própria do carimbo definitivo, só para açular a conversa. Quando a verdade é mais copulativa: sobre quase tudo, Portugal é e não é. Própria da vontade de encontrar soluções.

Marega no país que o merece

Sou do país em que, ainda há meses, uma varina, no Lavadouro da Afurada, frente à cidade do Porto, abanava as ancas e o avental, suspirava "ó o Marega...", e gritava: "Coisa mai linda não há!" E eu, sinceramente admirado: o Marega, lindo? A varina rapou do jornal O Jogo e beijou-o todo na fotografia da capa. Sou o miúdo que passeava com a mãe pela Avenida dos Aliados, 1958. Cruzou-se connosco um anjo negro vestido como um príncipe, reconheci-o. Empanquei, vidrado: Miguel Arcanjo, o defesa central do clube que nem era o meu, mas o do meu pai, o Porto. Ele pôs-me a mão na cabeça, a minha mãe sorriu-me e sorriu-lhe, eu continuava nas nuvens. Mas ainda disse: "Ele também é de Angola...", a minha mãe não lia o Ídolos do Desporto. E ficaram a falar da nossa terra, eles; eu guardando no cabelo o afago.

A morte não é para comícios

Os referendos têm um efeito perverso. Mais do que nos convencerem das boas ideias da nossa causa, confirmam-nos as más da outra. São comicieiros. Com os referendos, no fim da discussão, as convicções dos outros revelam-se sempre andar pelas ruas da amargura... Hoje, em Portugal, quando a discussão do referendo sobre a eutanásia ainda vai no adro, e ainda sem saber se haverá referendo, logo a discussão se encafuou na sacristia. Adro e sacristia, está certo, a petição pelo referendo tem sido dinamizada pela Igreja Católica.