Visita encenada nos 100 anos do museu Bordalo

Hoje é homenageado o fundador, Cruz Magalhães. Em setembro serão as grandes comemorações, dedicadas ao manguito

Ainda há escadotes, enceradoras e berbequins em azáfama pela moradia que o poeta e colecionador Cruz Magalhães mandou construir em 1914, no Campo Grande, em Lisboa. São os últimos retoques para a festa que hoje assinala os 100 anos da abertura ao público de três salas dessa moradia como Museu Bordalo Pinheiro. Na altura, como agora, o DN visitou aquele que foi o primeiro museu em Portugal dedicado à obra de um só artista e dava conta da importância do espólio ali reunido para usufruto de todos, como pretendia Cruz Magalhães.

"Da importância do Museu que, convém explicar, não é de cerâmica, e cujas salas [...] têm os nomes de Rafael, Columbano e D. Maria Augusta Bordallo Pinheiro, falam eloquentemente estes números: estão já expostos mais de dois mil trabalhos." Este será um dos vários textos que mais logo, a partir das 19.00, será lido por um ator durante uma visita encenada ao museu, que agora ocupa todo o edifício, o primeiro em Portugal a ser construído de raiz para receber uma coleção de arte.

"O que será explicado durante a visita", refere João Alpuim Botelho, coordenador do museu. No exterior, um pormenor denuncia esse uso específico: uma escada conduz a uma entrada ao nível térreo onde eram recebidas as visitas privadas; uma outra encaminha os visitantes para o espaço reservado na casa ao museu, no primeiro andar. Aí, na primeira sala, outra característica arquitetónica mostra o cuidado de Álvaro Machado ao delinear o espaço dedicado ao museu: sem janelas, garantindo mais espaço expositivo, e com iluminação vertical, para que a luz não incidisse nos desenhos.

Aí, também, a fotografia do anfitrião recebe logo os visitantes. O rosto sério e fechado não deixa adivinhar o amante que era da arte cheia de humor de Rafael Bordalo Pinheiro (1846--1905). Uma arte que começou a colecionar após a morte da primeira mulher, por sugestão dos amigos, para afastar a tristeza em que estava mergulhado. "Cruz Magalhães, quando abriu o museu dedicado a Bordalo, não tinha a ideia de que estava a fazer um enorme serviço público no sentido em que estava a deixar que não fosse esquecida uma personagem com esta riqueza, intemporalidade e genialidade", assinala Alpuim Botelho.

Tudo qualidades que os diferentes trabalhos expostos refletem, mostrando o lado de cronista/humorista do quotidiano da vida social, cultural e política do Portugal da segunda metade do século XIX. Exemplo máximo é o seu primeiro zé-povinho, publicado na Lanterna Mágica, um dos vários jornais de que foi proprietário: o menino que pede o tostãozinho é o ministro das Finanças de então, o Santo António é António Maria Fontes Pereira de Melo e o Menino é o rei D. Luís. A visita guiada de hoje serve sobretudo para homenagear o fundador do museu estando as grandes comemorações guardadas para setembro, aproveitando a rentrée cultural, altura em que os protagonistas serão Bordalo, o zé-povinho, o manguito, o humor e o desenho.

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