Umberto Eco e a verdadeira Idade das Luzes

Não, não foi a "idade das trevas" que tantas vezes se ouve no discurso público. A Idade Média inventou muitas coisas, renovou outras, criou escolas de pensamento e de arte, revolucionou técnicas e ciências

Renascimento? Iluminismo? Idade Moderna? Pós-Modernidade? Não. A verdadeira Idade das Luzes é a Idade Média. Dito assim, a afirmação parece uma provocação. Mas Umberto Eco deixou-nos, numa obra que pode ser lida como o seu testamento intelectual e académico, uma justificação de como a Idade Média tem sido vista por muitos estereótipos, que dizem (quase) tudo ao contrário do que ela foi ou não.

Organizada pelo grande pensador italiano, que juntou mais de 300 autores e colaboradores, a edição portuguesa dos quatro volumes de Idade Média (Publicações Dom Quixote) terminou há meio ano, e vale a pena agora revisitá-la com um olhar abrangente, depois da morte de Eco, a 19 de fevereiro.

Esta obra, arrumada como um grande ecrã em que podemos escolher o itinerário de leitura (ver texto ao lado), deveria ser de leitura obrigatória para todos quantos, no espaço público (políticos, jornalistas, comentadores...), usam expressões como "práticas medievais", "idade das trevas", "já não estamos na Idade Média" ou equivalentes, como sinónimo de barbárie, atraso ou obscurantismo.

É que, se também houve isso na Idade Média, ela não foi apenas isso. E foi, em muitos casos, o oposto disso. Desde há décadas que grandes medievalistas (Jacques le Goff, Georges Duby, Marc Bloch, Régine Pernoud, ou José Mattoso em Portugal, para citar apenas alguns) vêm mostrando a riqueza e pluralidade da Idade Média, mas esse saber tarda em passar para o espaço público (ou escolar).

Desde logo, ao ler este múltiplo poliedro, percebe-se que a Idade Média foi, ao longo dos seus onze séculos de duração, muita coisa e o seu contrário: afirmação da liberdade de pensamento e da perseguição violenta em nome de uma ortodoxia política ou religiosa; centralização do poder e afirmação de autonomias locais; degradação política e económica em simultâneo com a afirmação de grandes vultos no pensamento ou na criação...

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