Uma nova vida para os móveis Olaio

O Museu da Cerâmica de Sacavém mostra exemplares produzidos na antiga fábrica

"Lembro-me disto no hospital." "Havia disto na minha escola." A visita à exposição dos Móveis Olaio do Museu da Cerâmica de Sacavém é um mergulho nas memórias e nos cenários, de filme ou não, dos anos 1950 e uma viagem pela história do design português. Há peças assinadas por Leal da Câmara, o primeiro artista a colaborar com a fábrica, pelo arquiteto Raul Lino, José Espinho e o pintor João Chichorro.

O Museu da Cerâmica de Sacavém vive de proteger o património industrial, mas não tem uma só peça de mobiliário Olaio no acervo para mostrar. As que estão nesta exposição, patente até dezembro de 2016, resultam de empréstimos. Do museu da RTP, grande cliente da Fábrica de Móveis Olaio; da Assembleia da República, onde ainda estão a uso; de colecionadores privados e uma delas, uma cadeira, diretamente do quarto de José Pedro Olaio, filho e sobrinho dos donos e antigo funcionário.

"Não foi fácil encontrar as peças", explica Conceição Serôdio, conservadora do museu e da exposição, numa visita com o DN. "As cadeiras são as que as pessoas usam, as mesas são onde as pessoas comem, as estantes têm os livros. Não é fácil abdicar delas durante um ano e meio."

Falta em peças o que sobra em desenhos - exibem-se quase 300 dos quase 600 do arquivo - a carvão, rigorosos e detalhistas, assinados por Fernando, antigo funcionário do gabinete e loja na Rua da Atalaia, em Lisboa, e também por José Espinho, hoje nome nobre do design português, decorador na nomenclatura dos anos 1960.

Espinho, protagonista de exposição em nome próprio que se inaugura em dezembro no MUDE - Museu do Design e da Moda, em Lisboa, colaborou com a Olaio na época áurea, quando a construção e o turismo dispararam e a lista de clientes incluía o Ritz, a cervejaria Solmar (onde ainda há originais), teatros, cinemas, a pastelaria Mexicana, o já demolido Estoril-Sol (de que conseguiram resgatar uma cadeira para a exposição), e o Tivoli, de onde saíram algumas peças icónicas que "foram feitas para hotelaria mas depois também eram vendidas ao público".

Vendida em 1988 por Antero Olaio, fechou as portas definitivamente em 1998, pondo fim a um negócio que tinha começado nos anos 1920 com o pai e com o irmão, Tomaz, 14 anos mais velho.

Os esquissos dos desenhadores estão na mão de Rui Rocha, atual dono do antigo espaço da fábrica, hoje Parque Industrial Olaio. Foi ele que encontrou o arquivo. "Em vez de deitar fora, deixou aqui em depósito", explica Conceição Serôdio.

Todo o espólio cedido foi fotografado e digitalizado e foi a partir dele que nasceu a vontade de fazer a exposição. João Paulo Martins, investigador na área do design e das encomendas públicas do Estado português, colaborou.

Notando a relação estreita entre industriais e designers (mesmo quando não tinham esse nome), a primeira peça da exposição pertence a Tomás Leal da Câmara. É uma cadeira de madeira escura, com um coração vermelho. Ao lado, exibe-se o contrato celebrado entre Olaio e o pintor de origem goesa. O pagamento era receber um exemplar de cada um dos móveis que desenhasse, e foi cumprido. A peça provém da casa-museu do artista na Rinchoa, Sintra.

A Olaio instala-se em 1937 no concelho. Está lá a licença para construir a fábrica da Bobadela, deixando a oficina de marcenaria da Rua da Atalaia, em pleno Bairro Alto, onde passou apenas a funcionar a loja e o escritório. Nos anos 1940 e 50 começam a fornecer o Estado. O arquiteto Raul Lino é o autor do biombo que está na exposição e de uma mesa de reuniões, na antiga Assembleia Nacional, e ainda a uso.

Tomaz Olaio, industrial, é o nome que mais surge ao longo de toda a história dos móveis, ainda que tenha vendido a sua parte em 1960. O seu consulado coincide com o êxito da fábrica, viagens à Alemanha e à Escandinávia, com o sobrinho José Pedro Olaio, para estar nas melhores feiras, e a compra de uma inovadora máquina que implicou a vinda para Portugal de Robert Brehm, um engenheiro que nunca mais se foi embora e que ainda hoje, com mais de 80 anos, vive por cá. "Ele conseguia ir ver as fábricas e as máquinas a trabalhar e levava com ele os técnicos. À noite juntavam-se e apontavam tudo o que tinham visto", diz a coordenadora. As histórias foram contadas por antigos trabalhadores, foram gravadas em vídeo e fazem parte da exposição.

Modernizada nos anos 1960, a fábrica de móveis Olaio fornece para o Estado mobiliário feito a partir de lâminas, o prefa , de prefabricado. "Havia uma secretária destas em todas as repartições públicas", nota Conceição Serôdio. A que está na exposição foi cedida pelo Instituto Ricardo Jorge. E há um banco comprido que veio do Hospital de Santa Maria, onde, segundo um visitante, uns quantos resistiram à passagem do tempo. Agora são peça de museu.

O mobiliário de estilo americano fez parte de um primeiro período de grandes encomendas públicas. Em todas as peças a placa que as distinguia: Olaio.

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