Uma homenagem de Fonseca e Costa à sua Lisboa

O realizador rodava na capital, desde setembro, um filme a partir de um conto de Rubem Fonseca. "Axilas" estreia em 2016

Margarida Marinho, Pedro Lacerda, Paula Guedes, Rui Morrison, Cecília Guimarães, Luís Mascarenhas, Elisa Lisboa, Tónan Quito. Um elenco de atores experientes que foram convocados para entrar em Axilas, o filme que José Fonseca e Costa estava rodar quando há duas semanas a saúde lhe pregou uma partida. Produzido pela Leopardo Filmes, de Paulo Branco, o filme será concluído e estreia no próximo ano.

"É uma homenagem à Lisboa que ele conhecia e que está a desaparecer", diz Pedro Madeira, assistente de realização do cineasta nesta produção. A rodagem começou em setembro e passou por um palacete no Prior Velho, pela rua de S. José e pelo cemitério dos Prazeres. Um tributo a uma cidade que adotou aos 12 anos, quando veio de Huambo (então Nova Lisboa) para Portugal. "Conhecia Lisboa como ninguém", afirma Pedro Madeira sobre o cineasta, desaparecido no domingo, aos 82 anos, vítima de uma pneumonia, na sequência de uma pré-leucemia.

A história é uma "adaptação muito livre" do cineasta e do argumentista e humorista Mário Botequilha, a partir do conto "Axilas" de Rubem Fonseca, segundo Pedro Madeira.

No original do escritor brasileiro, editado em 2011 ( no livro "Axilas e Outras Histórias Indecorosas"), um homem apaixona-se por uma violinista apenas pelas suas axilas. Tenta aproximar-se dela, pede-lhe um autógrafo e convida-a para jantar. Mas ela recusa, e mantém uma certa frieza. Um dia ele consegue dar-lhe boleia para casa, e tenta dar-lhe um beijo no braço, perto da axila - ela sai a correr. Depois liga-lhe para casa e diz que tem uma prenda para ela, um quadro, e se o pode ir entregar. A atitude dela muda logo, e aceita. Quando chega, e dá-lhe uma pancada na cabeça, deixa-a desmaiada e fica a observar-lhe as axilas e depois beija-as. No final, atira-a pela janela e deixa uma carta de suicídio em cima da mesa. No funeral, conhece a irmã gémea dela e só deseja ver-lhe as axilas.

"É mais uma inspiração para uma parte do enredo", diz o assistente de realização. Uma comédia "em tons sombrios", resume ao DN o braço-direito de Fonseca e Costa na realização do filme. Como será concluído é assunto que fica nas mãos do produtor, Paulo Branco.

Mantém alguns traços característicos da obra do realizador, garante Luís Mascarenhas. "Éanti-clerical", diz sobre o filme. "Nota-se bem que está lá a mão do Zé", afirma. Motorista da avó (Elisa Lisboa) na ficção, amigo de Fonseca e Costa na realidade, o ator lembra um homem "corrosivo e muito divertido". "Determinado e resoluto, muito firme das suas convicções". É assim que Pedro Madeira se lembra de Fonseca e Costa atrás da câmara. Este foi o primeiro filme em assistiu o cineasta, autor de duas dezenas de obras, entre elas, outras "Kilas, o Mau da Fita" (1980), "A Balada da Praia dos Cães" (1987), "A Mulher do Próximo" (1988) ou "Cinco Dias, Cinco Noites" (1996).

O funeral do realizador realiza-se hoje às 15.00 no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa.

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