Uma Ester de três séculos

O Estúdio de Ópera da Escola Superior de Música de Lisboa (EO-ESML) leva hoje e amanhã à cena (sempre às 21.00), no Teatro São Luiz, a oratória sacra setecentista 'Ester', da autoria de António Leal Moreira (1758-1819) - o qual foi, recorde-se, o primeiro diretor do Teatro de São Carlos. Esta produção tem direção artística de Nicholas McNair, responsável pelo EO, a quem se deve também a edição das partes e a preparação musical.

São intérpretes o meio-soprano Carolina Figueiredo (Assuero, rei da Pérsia), o soprano Patrycja Gabriel (Ester, sua mulher), o tenor Pedro Cachado (Aman, primeiro-ministro - e o vilão), o contratenor Manuel Brás da Costa (Mordecai, tio de Ester), o soprano Rita Marques (Harbona, confidente de Assuero) e o tenor Pedro Matos (Ataq, eunuco de Ester). Participação adicional - e importante - do Coro do EO-ESML (14 elementos). Toca a Orquestra do EO-ESML (24 elementos), cabendo a direção musical a Jan Wierzba.

Ao nível técnico, a direção teatral e conceção do espaço cénico são de Luca Aprea e Stefano Riva, os figurinos são assinados por José António Tenente e o desenho de luz está a cargo de Miguel Cruz.

'Ester' é uma oratória sacra estreada a 19 de março de 1786, no Palácio da Ajuda, para celebrar a festa do onomástico do príncipe herdeiro D. José, primogénito de D. Maria I, então com 24 anos (ele morreria dois anos depois, vitimado pela varíola). À música de Leal Moreira, que era Mestre do Seminário da Patriarcal de Lisboa, junta-se o libreto de Gaetano Martinelli, então o poeta da corte portuguesa.

A ação passa-se no século V a.C., em Susa, capital do Império Persa, e baseia-se no livro bíblico de Ester.

A originalidade desta produção prende-se, porém, no facto de a 'Ester' original ter sido transformada numa obra compósita, ou num 'pasticcio', prática aliás bem comum durante a era barroca. As adições/incorporações à partitura, determinadas pelo propósito de dar maior destaque/presença à participação do coro, provêm, respetivamente, do século XVII e do século XXI. De Seiscentos, são as 'Lamentações de Quinta-Feira Santa', de Diogo Dias Melgás (1638-1700), último expoente da brilhante e mais que secular tradição de grandes polifonistas portugueses. Elas aparecem aqui em 11 secções intercaladas. Já do século XXI provêm os incisos chamados 'Alentos', da autoria da jovem (25 anos) compositora Sara Ross, micaelense de origem, que assim os descreve: "breves reflexos musicais inseridos na narrativa e concebidos como um gesto de amplificação dos estados de alma consequentes da ação", "abstrações sem tempo", "símbolos musicais recriados a partir da cantilação hebraica" e "espaços onde a narrativa entra em si própria". Algo, portanto, que não anda muito longe (exceto na duração, supõe-se) da função da ária na 'opera seria' e na oratória barrocas.

O espetáculo tem a duração de 1h40m, sem intervalo, e o texto italiano é legendado em português.

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