Um teatro orgânico para ver, ouvir e sentir o mundo em Taiwan

Considerado um novo marco neste campo, o National Taichung Theater não assenta em pilares ou traves. A sala principal tem dois mil lugares.

Um jovem casal aproxima-se da fachada espelhada do Teatro Nacional de Taichung. Cai a tarde e uma distante lua cheia concede uma claridade suplementar ao início da noite. Ela traz um vestido comprido vermelho, uma grinalda no cabelo e um ramo de rosas brancas, ele vem de calças escuras, casaco branco e laço vermelho. Com o casal está um fotógrafo e dois assistentes: um transporta um foco de luz, o segundo um painel branco. Vieram da cerimónia de casamento para uma sessão de fotografias junto daquela que é a mais recente referência arquitetónica em Taiwan. Como eles, todos os dias, centenas de pessoas deixam-se fotografar ou fazem selfies no exterior ou no vasto hall do edifício. Projeto do arquiteto japonês Toyo Ito, que recria, numa estrutura única, com as suas paredes curvas, uma enorme "gruta" de mais de 57 mil metros quadrados. Um testemunho e o reflexo da identidade da cidade - um dos principais centros urbanos e económicos de Taiwan - onde o convívio com as artes aspira a ser um estilo de vida.

Uma construção que deve assinalar igualmente um novo ciclo da vida cultural na República da China, designação oficial de Taiwan, integrando o triângulo de ouro das salas de espetáculos da ilha, sendo os restantes o Teatro Nacional de Taipé, inaugurado em 1987, e o Teatro de Kaohsiung para as Artes, no Sudeste, com abertura prevista para 2018.

Prémio Pritzker de 2013 pela "criação de obras intemporais", Toyo Ito criou um edifício, também designado como a Grande Ópera de Taichung, que é ele próprio um produto cultural e turístico que atrai, numa base diária, mais visitantes do que os previstos para as suas três salas: um anfiteatro de dois mil lugares, um teatro com capacidade para 800 pessoas e um espaço para trabalhos experimentais, o Black Box, de 200 lugares. E de acústica impecável.

Num total de seis andares, o edifício comporta espaços para exposições, conferências, cafetarias, um restaurante e uma Praça das Artes, com seis mil metros quadrados. Aqui vende-se de tudo um pouco: brinquedos de madeira, cartão e materiais tradicionais, livros e discos em segunda mão, objetos de design. O Teatro Nacional de Taichung é um espaço onde se cruzam diferentes atividades e se propicia o encontro de pessoas para se envolverem em tudo isto e não somente para assistirem a um espetáculo.

Com um custo equivalente a 122 milhões de euros e oficialmente inaugurado a 30 de setembro, uma semana antes de o DN ter tido oportunidade de o visitar, a programação pretende mostrar o que de melhor, inspirado e imaginativo se pratica no mundo das artes e espetáculos numa perspetiva contemporânea. Sem receio de surpreender ou desafiar padrões definidos, com uma aposta de 70% na produção de artistas e companhias de Taiwan e 30% internacionais, explicava ao Taipei Times, de 16 de agosto, a diretora artística e executiva Victoria Wang.

Os espetáculos da temporada inaugural testemunham isso, com um O Ouro do Reino produzido pelos catalães de La Fura del Baus ou a estreia mundial de La Mode, da nipo-holandesa Tomoko Mukaiyama, síntese de música ao vivo, dança, representação e técnicas de instalação, com a colaboração do próprio Toyo Ito e da designer Yoko Ando. Ou, no plano da música étnica, os concertos de Ara Kimbo com temas do folclore aborígene de Taiwan, que não desdenha incursões na folk americana. O encontro de culturas presente naquele que gosta de se definir como o "pai do blues aborígenes" é um bom exemplo do espírito que se pretende criar no verdadeiro prodígio de engenharia que é o edifício. O Teatro Nacional de Taichung é o primeiro exemplo de uma construção não assente em pilares e traves, podendo definir-se como uma estrutura sustentada no grau de curvatura catenoidal das suas 58 paredes. A especificidade da construção, terminada em 2014, obrigou a uma série de peritagens e obras suplementares para garantir a segurança dos visitantes.

O projeto demorou cinco anos a completar e foi considerado pela Reuters, na sua apresentação, como um edifício destinado a tornar-se um marco da arquitetura contemporânea. Constitui, com o extraordinário jardim que ocupa a maioria da área do telhado, um desenvolvimento incomparável daquela que foi a obra pioneira do género: o projeto de Le Corbusier para a residência nos Campos Elísios do milionário Charles de Beistegui, realizado em 1929, inspirado na linguagem surrealista, a que não faltam citações à obra de Salvador Dalí. Este é um dos sinais da identidade do projeto, a sua identificação com as correntes da arquitetura orgânica e da biofilia, que procuram o equilíbrio entre as áreas edificadas e a natureza, argumentando a importância da sua presença nas cidades, numa proporção equilibrada entre ambas. Hoje, jardins suspensos, plantas e arvoredo envolvendo edifícios e outras estruturas públicas são comuns - e indispensáveis para um novo conceito de cidade, como Taichung aspira a ser.

O DN viajou a convite do Centro Económico e Cultural de Taipé em Lisboa

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG