Um soldadinho com final feliz entre homens de lata e pierrots

A história de amor que vence todas as barreiras contada em forma de musical no Teatro Armando Cortez, numa adaptação de Fernando Gomes que deu um novo desfecho ao clássico

O palco é um gigante quarto de brinquedos e já está a postos para o ensaio de imprensa de O Soldadinho de Chumbo, a nova produção do Teatro Infantil de Lisboa, que estreou esta quarta-feira, no Teatro Armando Cortez, Casa do Artista. É aqui que desperta a história de amor do soldadinho de chumbo (que só tem uma perna e um grande coração) e a sua boneca bailarina. A história segue o livro original, mas aqui o desfecho tem final feliz. Há um homem de lata, uma boneca de trapos, há um pierrot - "que ainda não tem gola, estamos nos últimos preparativos", ouve-se entre os elementos da produção - e não podia faltar a caixa do génio mau com o vilão lá dentro que vai lançar um feitiço contra o protagonista.

O soldadinho vai desaparecer, cair duma janela, navegar num barco de papel, passar pelo esgoto e seguir em direção ao mar onde é comido por um peixe que o leva de volta ao encontro da sua amada.

Escrito por Hans Christian Andersen e publicado pela primeira vez em 1836, O Soldadinho de Chumbo retrata a atração dos contrastes entre um homem melancólico e tímido sem uma perna, e por isso diferente, e a rapariga etérea que vive num castelo de sonho e o ama, apesar de todas as contingências e contrariedades.

Fernando Gomes é o autor da adaptação livre deste O Soldadinho de Chumbo, em exibição até junho de 2018, em mais uma colaboração com o Teatro Infantil de Lisboa, onde já dirigiu peças como Cinderela, Pinóquio, Ali-Babá e os 40 Ladrões desde os anos 90.

Regressa agora com um resgate à infância, no embalo do "colo da avó" que tantas noites lhe contou a história do herói só com uma perna. "É claro que acabava por adormecer e adorava a parte de já acordar na minha cama de manhã", revela ao DN, enquanto o elenco se prepara para a cena das ratazanas.

Há que colocar orelhas e bigodes e caudas, trocar o quarto dos brinquedos pelo esgoto. "Tenho muito prazer em reinventar as histórias e partilhá-las com os atores e o público", conta, adiantando que nos tempos de hoje, há sempre lugar no palco para as histórias de encantar. Para o encenador que se assume como "muito intuitivo", é igual fazer teatro para crianças ou adultos desde que lhe garanta o mais importante: "Divertir-me e criar laços com os atores e a equipa técnica", diz o encenador da peça.

No que toca à mensagem da peça, o par de protagonistas concorda que o encenador é exímio em "transformar emoções em palavras" numa das raras histórias para crianças em que o personagem principal retrata o herói da história como uma pessoa com deficiência.

Temporada acessível para todos

Maria João Vieira, à frente da comunicação do Teatro Infantil de Lisboa, fundado em 1976, com produções que deram a conhecer aos mais novos autores nacionais e estrangeiros, adaptando clássicos literários, óperas e bailados, explica, no final do ensaio, que esta peça inicia um projeto com uma missão de igualdade de oportunidades. "Queremos quebrar as barreiras físicas, sociais e intelectuais e, por isso, teremos sessões periódicas, recorrendo à audiodescrição e linguagem gestual para que todos, sem exceção, possam usufruir do mesmo espetáculo. Neste momento, já temos uma equipa de técnicos preparados para avançar mas falta-nos um patrocínio para tudo ser possível", esclarece. A ideia é conseguir agora a ajuda necessária para que a história de amor do soldadinho de chumbo e da bailarina seja recordada por todos os heróis miúdos e graúdos.


O Soldadinho de Chumbo

Teatro Armando Cortez

Estrada da Pontinha, 7, Lisboa

Sessões família: sábados, domingos e feriados às 15.00 (até maio 18)

Sessões escolares: durante a semana às 11.00 e às 14.30

Bilhetes: 11 euros

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