Um James Bond revitalizado pelos mortos

"Spectre", que amanhã estreia, convoca o passado do agente mais conhecido do mundo em fórmula de síntese

No novo James Bond há uma máxima bem importante de reter: os mortos estão vivos. Quer isto dizer que na nova história imaginada por John Logan, Neal Purvis e Robert Wade há personagens que morreram nos anteriores filmes da era Daniel Craig que regressam ou, pelo menos, os seus rostos. 007 é aqui confrontado com o seu passado, há fantasmas que atormentam. Fantasmas dos que ele amou, fantasmas daqueles que ele matou. Síntese perfeita da psicologia do espião que o mundo cada vez ama mais: "bom homem", como alguém diz, ou "assassino" (ele próprio descreve a sua ocupação como alguém que mata homens).

O curioso no argumento que também é assinado pelo dramaturgo Jez Butterworth é a forma como neste filme se condensam todas as pontas de uma história que começou em Casino Royale (2006), a tal ponto que os anteriores vilões são revistos e recuperados. Tudo para que se perceba que nesta nova fase a intriga é só uma: a ameaça da rede Spectre e o seu confronto com as forças secretas britânicas e, mais particularmente, com James Bond.

De uma certa forma, este é um filme de fim de ciclo e aqui a estrutura funciona como uma súmula e síntese de todo um percurso. Le Chiffre, o primeiro vilão também está ligado a Dominic Greene, que por sua vez é também colega de um outro vilão chamado Silva. Eles são convocados para atormentar Bond por alguém que sempre observou tudo mas que estava omitido, alguém com um nome secreto e que, afinal, era a cabeça desta organização de crime mundial, a Spectre. Referir isto não é nenhum spoiler, percebe-se logo no começo. Seja como for, o filme tem os chamados twists da ordem e muita reviravolta narrativa acontece nestes 148 minutos.

Há também uma personagem secundária dos outros filmes queé recuperada, Mr. White, interpretada pelo grande ator nórdico Jesper Christensen, que já anteriormente tinha cruzado caminhos com Bond. A sua função aqui é fundamental para o agente de Sua Majestade perceber melhor a maneira como pode penetrar no seio da Spectre.

Reencontro com o passado

Também a anterior M surge com uma surpresa, lá está, os mortos aqui não são o que parecem. Bond é constantemente assaltado pelo seu passado, de tal forma que descobrimos dados da sua infância, algo bem inovador no universo da série. A sua orfandade tem explicação.

Ora, este efeito de revisitação encerra em si mesmo um efeito e carga mais próximos da tragédia. Sam Mendes quis com essa cambiante oferecer à psicologia da personagem uma justificação de uma tristeza constante. Afinal de contas, ele continua magoado com a perda de Vesper Lynd, a mulher que terá mesmo amado, e sob luto com a morte mais recente de M, figura muito maternal. Um Bond trágico? Já o era, mas essa capa negra e gélida fica agora mais visível.

O que é notável neste quarto filme do recomeço da saga James Bond é a forma sincera como se faz o reboot das origens da personagem, pegando nas linhas gerais e personagens de Ian Fleming e dando-lhe uma nova vida. Claro que muito disto já estava nos primeiros filmes de Bond, mas esta reimaginação em formato de síntese do universo de Fleming tem uma liberdade suficiente para provocar os fãs e surpreender novos públicos. Não é à toa que comercialmente a franchise esteja mais saudável do que nunca. Estas espécies de remakes de Bond com sinais de reconhecimento prévio chegam a todas as gerações, não são demasiado clássicas nem demasiado deslocadas daquilo que se entende por carácter bondiano.

Daniel Craig conseguiu criar uma personagem renovada mas incapaz de perder a sua face Ian Flemming. Em Spectre chega ao ponto de rebuçado. A partir de agora, advinha-se um Bond mais seguro, menos raivoso e atormentado. Deduzimos que terá ganho caule, aprendido com as tragédias. Um James Bond revitalizado pelos mortos.

Insinua-se que o caminho está trilhado para as próximas aventuras do agente secreto continuarem a ter um percurso à Ian Fleming mas com liberdade para outros desvios.

Classificação: Muito bom

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