Um gigante no jardim de Tondela para celebrar os 40 anos do Acert

O Trigo Limpo - Teatro Acert estreia hoje "O Pequeno Grande Polegar".

Há um boneco enorme, feito de cortiça, sentado ao sol no Parque Urbano de Tondela. Uma marioneta gigante, com os fios caídos, as mãos colocadas sobre as pernas e os olhos fechados, mas que vai ganhar vida logo à noite quando se estrear O Pequeno Grande Polegar, o novo espetáculo do Trigo Limpo - Teatro Acert. Então, com a ajuda de um motor, uma grua e a força de doze jovens atores, o boneco irá erguer-se até ficar com sete metros de altura, moverá braços, pernas e cabeça e até dará alguns passos. Quase parecerá sorrir. Só lhe falta falar.

O Polegar - tão pequeno mas, afinal, tão grande - é a personagem principal desta história e metáfora também para este grupo de teatro instalado entre montes e vales, na Serra do Caramulo, a muito mais de duas horas de distância de Lisboa (é preciso abrandar ali nas curvas apertadas do IP3) e que este ano comemora os seus 40 anos. José Rui Martins conta como tudo começou com um grupo de jovens que achou que tinha de fazer alguma coisa para fazer com que "os ventos de mudança chegassem a Tondela, que era uma zona muito conservadora". "Juntámo-nos cerca de 30 pessoas para fazer militância cultural. A arte era importante mas queríamos mais do que isso, isto foi a nossa maneira de fazer o 25 de abril."

O trabalho em coletivo, a itinerância, ainda que no início só nas localidades daquela região, e a responsabilidade social estão na origem do projeto. "Escrevemos o nosso primeiro texto, intitulado 'O povo acordou', e o objetivo era fazer os espetáculos nos sítios, alertando as pessoas para o período que estavam a viver e ao mesmo tempo ajudar as populações com coisas muito práticas, que faziam falta nas localidades." Também por isso logo se sentiu que mais do que um grupo de teatro fazia sentido ter uma associação cultural, que tivesse um trabalho mais abrangente. "Isto não é uma associação que tem um grupo de teatro, foi o contrário", explica Zé Rui, sentado por uns minutos no bar da Acert, numa pausa entre ensaios, decisões, chamadas telefónicas e toda a correria que antecede a estreia (uma correria ainda maior desta vez, já que "perderam" uma noite de ensaios esta semana para "ganhar" um campeonato de futebol).

Um "produto da terra"

Começaram num barracão alugado, com oito por cinco metros, um percurso que nem sempre foi fácil. Havia muitos anti-corpos. "Se num período inicial houve uma dificuldade de alguns sectores que não aceitavam tão bem um trabalho deste género, o que mudou efetivamente ao longo destes 40 anos é que a Acert passou a ser reconhecida como um dos produtos desta terra", explica Pompeu José, que se juntou ao grupo em 1993. Do barracão passaram para o antigo hospital em ruínas, nos anos 80, e na década seguinte, já com o apoio da câmara, construíram o seu espaço na antiga escola preparatória: um espaço feito à medida, com um auditório com 276 lugares - e, um achado, um palco que se abre também para a rua e para a plateia ao ar livre, com 470 lugares - um outro auditório, mais pequeno, com 116 lugares, salas de ensaio, escritórios, bar e um quintal onde se estacionam as grandes máquinas de cena que se foram tornando, nas últimas duas décadas, uma das imagens de marca da companhia.

É aí que está o elefante de vime de A Viagem do Elefante, o espetáculo megalómano, feito há três nos como "tudo ou nada" num momento de grande aperto financeiro da companhia, a partir do texto de José Saramago, e que se tornou um dos grandes sucessos do Acert. O elefante continua em viagem, convocando as pessoas de cada localidade a juntarem-se ao espetáculo: "Chegamos na terça-feira, juntamos os voluntários, ensaiamos e apresentamo-nos no sábado." Durante toda a semana, o elefante vai ganhando o coração das pessoas da terra, que param para tirar fotografias e fazer-lhe festinhas. Um pouco como se espera que venha a acontece com o Polegar.

"O que se manteve nestes 40 anos, e que é a ancora do projeto, é a relação de grande partilha e cumplicidade com a comunidade em que estamos instalados", justifica Pompeu José. Cada criação é uma oportunidade para juntar pessoas muito diferentes. Seja a Queima do Judas, que acontece na Páscoa, seja este Polegar em que, além do núcleo de atores da companhia, participam mais de 70 pessoas, na sua maioria voluntárias, e ainda o grupo de estagiários da Escola de Artes da Jobra, de Albergaria, três jovens cantores do conservatório de música de Santa Comba Dão, e elementos do Tribal, um grupo circense de Viseu. Isto sem contar com o envolvimento de várias empresas e pessoas de Tondela, nas várias fases da produção - da construção do Polegar até ao alojamento e alimentação de todos os que, nestes dias do festival, se associam à Acert. "Trabalhar no interior não é nenhuma fatalidade, temos noção de que estamos muito melhor aqui do que se estivéssemos em Lisboa ou no Porto. A relação de proximidade traz enormes vantagens", explica José Rui.

"Estes trabalhos que envolvem mais as pessoas da comunidade obrigam-nos a um exercício de humildade. É uma ação de descoberta mútua", diz Pompeu José, sublinhando que existe aqui "uma maneira de estar e de criar o produto artístico sem essas urgências dos grandes centros. É mais tranquilo. Temos uma estrutura de organização que é muito mais orgânica do que burocrática. Todos fazemos o que temos que fazer, em cada projeto." Ou como explica Zé Rui: "Já tivemos 19 pessoas na equipa, agora somos 13 para fazer tudo. É a tal utopia, nós ainda acreditamos na responsabilização e na não especialização das pessoas. Quando venho para o trabalho venho montar a luz, carregar os cenários, fazer tudo. É esta polivalência que é matriz do nosso trabalho".

Trabalhar no interior não é mesmo uma fatalidade. "Temos os grupos que vêm cá fazer residências artísticas e por outro lado somos uma companhia marcada pela itinerância, dá-nos a sensação que estamos sempre muito acompanhados mesmo quando o poder nos desacompanha e está um bocadito alheio a todo este esforço. Nunca nos faltou o público nem nos faltaram os outros companheiros de trabalho", diz José Rui.

Dar vida ao Polegar

Dois dias antes da estreia, enquanto os manipuladores ensaiam com o Polegar no jardim, os atores ocupam o palco principal - aquele que abre para a rua. Numa sala do primeiro andar, com as janelas abertas, Cláudia Ribeiro e as suas costureiras apressam-se a construir os figurinos. Tratando-se de um espetáculo de rua, os fatos foram pensados para ter volume e impacto, mesmo que vistos à distância. Da roupa branca de Estrelícia, com uma corcunda que se há de transformar em barriga, passando pelos chapéus coloridos das gentes do circo ou pela capa de Ti Tristessa, feita com vários chapéus costurados, todas as roupas são trabalhos de minúcia e imaginação. Cláudia Ribeiro - que tem a experiência de muitos anos de trabalho no Teatro Nacional de São João e que no próximo ano se vai estrear nas marchas de Lisboa a fazer os figurinos do Alto do Pina - explica que vê as suas peças de roupa como esculturas.

No auditório mais pequeno, ensaiam os cantores e os músicos. Gustavo Dinis, de 29 anos, é um músico de Tondela que colabora com a companhia desde 2005: "Era um miúdo, não sabia tocar nada..." Foi com a Acert e nomeadamente com as várias edições do Tom de Festa que foi ganhando o gosto pela música e descobrindo músicos que, de outra forma, nunca teria visto. José Rui recorda que pelo festival passaram já nomes como Compay Segundo (antes ainda do êxito do Buena Vista) ou Milton Nascimento, entre tantos outros. Gustavo dá aulas de guitarra e tem os seus projetos musicais mas admite que se não fosse a possibilidade de colaborar regularmente com a Acert provavelmente já teria deixado Tondela: "Há um lado muito estimulante neste trabalho com o teatro, permite-nos criar e trabalhar com outras pessoas, é sempre um desafio muito bom."

No Polegar, os músicos de Tondela, mais ligados ao jazz e à música experimental, trabalham com Tiago Pereira (dos Roncos do Diabo e do grupo de percussão de Valhelhas) que veio da Guarda trazendo consigo um som mais tradicional. O resultado é uma banda sonora onde se ouvem guitarras elétricas e adubes, um baixo e vários chocalhos, e até se podem pressentir uns ritmos africanos. Enquanto isso, Guga, de 11 anos e olhar reguila, senta-se na última fila a tentar decorar a sua fala.

O som dos tambores espalha-se por todo o edifício. Ao final do dia, o bar, decorado com fotografias de espetáculos anteriores, começa a encher-se de gente ligada ao Acert mas não só. Este é um ponto de encontro em Tondela. Foi ali, entre cervejas, que gritaram a vitória de Portugal. Vai ser ali, no pátio, que vão acontecer os concertos do Tom de Festa esta semana - Sérgio Godinho (amanhã) La Dame Blanche e Ezza (sexta), Cheikh Lô e Spin Te Kú (sábado).

No ensaio à noite, no jardim, juntaram-se pela primeira vez todos com o gigante Polegar - mais uma escultura do catalão Nico Nubiola, habitual colaborador do grupo. "É como montar um puzzle", diz José Rui. Vêm os malabaristas, vêm os manipuladores, os músicos, os voluntários, os atores. E, apesar do frio e da aparente confusão de fios, o boneco ganha vida. O espetáculo junta a história tradicional de Polegar com os velhos retirados dos contos de Mia Couto, para contar a história de um casal que queria muito ter um filho, de uma aldeia, como tantas por aqui, que está em vias de desaparecer porque só tem velhos e de como o nascimento de uma criança, mesmo que seja uma criança minúscula - o "pequenote", aquele que dorme num sapato, tapado por um guardanapo, alimentando-se de migalhas - pode trazer tanta felicidade.

O Pequeno Grande Polegar será apresentado hoje, às 22.00. À noite já está mais fresco e aconselha-se o uso de casacos e mantinhas. Depois, o grande Polegar, vai passar o verão a brincar ao Viriato em Viseu e só no próximo ano voltará à estrada.

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