Um Boss triunfal promete concerto histórico em Lisboa

65 mil pessoas encheram Camp Nou, no sábado, para a primeira data europeia de Springsteen, que atua no Rock in Rio na quinta-feira

Existe uma verdade na música de Bruce Springsteen que ganha uma dimensão real quando o vemos ao vivo. O desencanto dos trabalhadores e a euforia dos romances adolescentes amplificados em canções de estádio em que o rock"n'roll é redenção. O humanismo de Springsteen, alheio a vedetismos e às máscaras calculadas do mundo mediático, é palpável no seu rosto e na família que o rodeia, composta pela poderosa E Street Band e, no sábado à noite, por 65 mil fãs que encheram o Camp Nou, em Barcelona, naquela que foi a primeira data europeia da digressão que nesta quinta-feira chegará a Portugal, ao Rock in Rio Lisboa, onde o músico atuará pela segunda vez em quatro anos.

No sábado, o concerto do Boss, que obrigou o FC Barcelona a adiar as suas comemorações como vencedor da liga espanhol, prolongou-se por três horas e meia, sem grandes pausas para descanso pelo meio. Os milhares de fãs que acorreram ao estádio do Barcelona, vindos não só de toda a Espanha mas de vários pontos do globo, e que durante horas e dias resistiram até que as portas para esta celebração se lhes abrissem, assim o exigiam. E, quando chega a um palco, Bruce está ali para as pessoas, funcionando como veículo em grande escala para esta congregação que é um concerto rock'n'roll.

Olhando para este primeiro concerto europeu da The River Tour (até chegar ao Parque da Bela Vista o músico ainda vai passar amanhã pelo Estádio de Anoeta, em San Sebastián), os fãs que na próxima quinta-feira se deslocarem ao Rock in Rio Lisboa podem esperar um concerto um pouco diferente do que o músico apresentou nos Estados Unidos ao longo dos primeiros quatro meses do ano. Esta digressão, como o nome indica, é uma celebração de The River, o álbum duplo que Springsteen lançou há 35 anos e que em dezembro do ano passado reeditou numa versão de luxo, o que nos permitiu conhecer os contornos internos pelos quais passou esta obra que nasceu sob os efeitos da recessão norte-americana do início da década de 1980.

Novo alinhamento para a Europa

Mas, se pelos palcos norte-americanos o músico interpretava na íntegra esse quinto álbum do seu percurso, o mesmo não aconteceu no sábado à noite em Barcelona, mesmo que o disco se tenha mantido como a espinha dorsal do alinhamento (foram tocadas 12 canções desse disco duplo).

Esta mudança de estratégia para os palcos europeus (dominados pelos grandes estádios, o que nem sempre aconteceu nas datas norte-americanas) não parece ter surtido efeitos negativos na maioria dos admiradores que neste fim de semana estiveram em Barcelona. Num só dia enfrentaram o sol e a chuva torrencial que se abateu sobre a cidade catalã precisamente na hora em que se abriram as portas do estádio.

Mas, quando passavam 15 minutos das 21.00 e Bruce Springsteen apareceu de guitarra em punho, era evidente que todas as agruras até aí vividas tinham sido rapidamente ultrapassadas.

Só a sua presença física em cima de um palco evidencia um carisma ao qual é difícil ficar indiferente. O músico tem um sentido lúdico apurado, sabendo incitar as massas no tom certo, o que não se confunde com qualquer vontade de ludibriar as suas intenções ou de manipular os desejos de quem tem à sua frente.

Como cronista de histórias populares (com todo o desencanto e inocência que elas carregam em si), Springsteen mostra que em palco dá tudo o que tem às pessoas que ele canta nos seus temas, movido pela vontade de corresponder às esperanças daqueles que o têm apoiado durante décadas.

O músico não espera, por isso, por um final apoteótico e em glória para descer até às grades e comunicar de perto com os fãs das primeiras filas. Foi logo assim durante Bandlands, a canção de Darkness on the Edge of Town (1978) que serviu de arranque para esta digressão europeia. Passou ainda por No Surrender, de Born in the U.S.A. (1984, o segundo álbum mais interpretado da noite), e My Love Will Not Let You Down (inédito revelado em 1999 na coletânea Tracks), seguindo-se a verdadeira viagem por The River, com o icónico The Ties That Bind (que há 35 anos era para ter sido o título desse álbum que motivou toda esta onda de celebração).

Os 66 anos, boa parte deles na estrada, não parecem pesar sobre Bruce Springsteen, imparável desde o primeiro minuto. O mesmo se pode dizer para descrever a E Street Band, máquina rock"n"roll poderosa que carrega em si toda uma herança ligada à história da música popular norte-americana.

Max Weinberg mantém-se um baterista preciso nas suas batidas serpenteantes, enquanto a cumplicidade entre o Boss e o guitarrista Steven Van Zant é contagiante. Jake Clemons, sobrinho do saxofonista Clarence Clemons, esteve à altura do tio, falecido em 2011 e que foi homenageado no concerto, juntamente com Danny Federici, teclista da E Street Band que morreu em 2008. Esta digressão volta ainda a contar com a guitarrista Patti Scialfa, também mulher de Springsteen, que há quatro anos tinha "ficado a tomar conta dos meninos", disse na altura o músico, em Lisboa.

Hungry Heart proporcionou um dos primeiros momentos de congregação absoluta no Camp Nou, interpretada ao longo do corredor que atravessava a plateia. Mas não só de euforia rock"n"roll viveu o concerto de Bruce Springsteen em Barcelona. The River, a canção, Point Blank e Atlantic City (única ingressão da noite por essa obra-prima que é o álbum Nebraska, de 1982) são canções implacáveis sobre a desolação social e ao vivo ganham uma dimensão ainda mais realista, porque, se elas foram compostas sob os efeitos das dificuldades que os Estados Unidos atravessaram no início dos anos 1980, hoje as suas histórias continuam a falar bem diretamente a grandes camadas da população. Seja em Espanha seja em Portugal. E essa perceção é visível até num estádio.

Clássicos depois de The River

O espírito de missão que o músico tem em palco não passa só por esse olhar sobre o lado duro da realidade, mas também pelo divertimento e celebração do momento. E, de facto, deixou-se levar pela alegria que se vivia quando, após Darlington County, recolheu uma série de cartazes com pedidos dos fãs. Bruce foi dando a escolher às pessoas que música queriam ouvir: Growing Up venceu Glory Days. Seguiu-se I Wanna Be with You, outro pedido, para de seguida encerrar o capítulo The River com Ramrod (recriando, com a E Street Band, aquele manejar de anca que ficou imortalizado na capa de Born in the USA), The Price You Pay e Drive All Night (com uma referência a Dream Baby Dream, dos Suicide, que gravou no seu último álbum de estúdio, High Hopes, de 2014).

Findo o trajeto pelas águas de The River iniciou-se uma sucessão de clássicos. Ouviu-se essa ode à emancipação e ao romance que é Because the Night, que Bruce compôs para Patti Smith em 1978, mas também esse renascer das cinzas do 11 de Setembro que é The Rising, ou os clássicos Thunder Road, Born to Run, Born in the U.S.A. e Dancing in the Dark, durante a qual duas fãs puderam, por momentos, ser a Courteney Cox de Bruce e dar uns passos de dança ao seu lado.

Tal como fez nas últimas datas nos EUA, também em Barcelona homenageou Prince, com uma versão de Purple Rain, durante a qual todo o palco e estádio se iluminaram em tons de púrpura. Não foi a única versão da noite, tendo ainda interpretado Shout, dos Isley Brothers, e Twist & Shout, dos Top Notes e celebrizada pelos Beatles.

Quando, momentos antes, Bruce Springsteen cantava "I"m a man and I believe in a promised land", em coro com as 65 mil almas que enchiam o Camp Nou, percebíamos que um concerto do Boss é isso mesmo, uma travessia, nem sempre pacífica, até essa terra prometida, até esse lugar de esperança. Há décadas que essa é a sua missão e ainda hoje a cumpre com uma força imensurável.

Por isso, a julgar pelo que se viveu nesta primeira data europeia da The River Tour, o concerto que na quinta-feira Bruce Springsteen & The E Street Band vão levar ao Rock in Rio Lisboa tem tudo para ser um momento histórico no festival.

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