Três milhões veem telenovelas em português. A culpa é do Nico

Pai da ficção portuguesa, produtor, professor. Das telenovelas ao humor e à apresentação, o grande ator nada deixou por fazer. Morreu ontem aos 75 anos

Hoje à noite, quem ligar a televisão na SIC, na RTP1 ou na TVI, verá uma novela em cada um dos canais. Tramas faladas em português, que ocupam os lugares cimeiros das tabelas de audiências. Isso deve-se a Nicolau Breyner. Foi ele que, no início da década de 1980, ajudou a criar Vila Faia, a primeira novela made in Portugal. "Nós fomos os pioneiros do falar português, os heróis que pusemos um projeto nacional de telenovela a funcionar." Estávamos em 1983. Eram as palavras de Nicolau ao Expresso.

Seriam precisos quase 20 anos para que as tramas nacionais destronassem a ficção da Globo mas a paternidade, essa, ninguém a tirará a Nicolau. "Fizemos muita coisa juntos, como a primeira novela portuguesa, a Vila Faia, na qual o Nico fez um trabalho notável. Foram momentos épicos, agora é mais fácil. Na altura não havia meios, tivemos de inventar tudo, lidando com muita desconfiança. Ninguém acreditava que se pudesse fazer uma novela em Portugal, mas a partir daí isto nunca mais acabou", recorda Francisco Nicholson, guionista da trama onde Nico era João Godunha.

50 anos no pequeno ecrã. 24 novelas. Os portugueses viram Nico na televisão pela última vez em outubro do ano passado, com a exibição do último episódio da novela da TVI Jardins Proibidos (em que interpretou o patriarca Manuel Maria Vasconcelos de Alcântara, homem de negócios em busca do perdão da filha). E era na estação de Queluz de Baixo que estava a gravar A Impostora, em que vestia a pele de Edmundo Gaspar. Consternado com a perda daquele que apelida de "o pai da ficção", Luís Cunha Velho, diretor-geral da TVI, ainda não sabe o que vai acontecer à personagem de Nico. "Não faço a mínima ideia do que vai acontecer. Vamos ver o que está gravado e vermos o que fazer, na medida do possível", adianta o responsável da estação.

Na TV, entrou ainda em duas dezenas de séries de humor, drama e ficção histórica e ainda uma mão cheia de talk shows e concursos (quem não se lembra de Jogo de Cartas?).

Nicolau trabalhou para a RTP. E para a SIC. E para a TVI. Foi produtor, fundou a NBP, a primeira produtora portuguesa de audiovisual (que, em 2007, é adquirida pela Media Capital, resultando na Plural Entertainment)."Irei sempre recordá--lo com muita saudade, dos felizes momentos de trabalho e dos muitos e bons de lazer. Das gargalhadas e das jantaradas. De como parecia leve a vida, através do olhar do Nico", recorda Fernando Serrano, que fez par romântico com o ator em Louco Amor, em 2012. Nicolau, o eterno Senhor Contente da rábula com Herman José (Senhor Feliz), no programa de humor que animava um Portugal saído das amarras da ditadura, em 1975, Nicolau no País das Maravilhas. Eu Show Nico, Euronico, Nico d"Obra, as sitcoms dos anos 90. Quem viu não esquece.

A influência de Nicolau Breyner na TV colocam-no na posição de pai fundador daquilo que é o entretenimento à portuguesa. "O Nico fez uma diferença enorme nos seus colegas e no meio, tanto na televisão como no cinema e no teatro, para pessoas de várias gerações", recorda Teresa Guilherme. Primeiro na ACT - Escola de Atores, que ajudou a criar em 2001 e depois na NBA (Nicolau Breyner Academia), fundada em 2014, o ator fez questão de passar o seu conhecimento aos mais novos. Ensinar era-lhe natural. O legado está, assim, assegurado.

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