Tremor: a música que se descobre atrás das paredes

Festival com 50 concertos, alguns em locais improváveis, invade Ponta Delgada.

Este é um Tremor que pode ser previsto em tempo útil. Chega na terça-feira e prolonga-se até às primeiras horas de domingo. São 50 concertos que ocupam dezenas de espaços, essencialmente em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, Açores. Na terceira edição, o festival vai andar entre uma casa privada, uma galeria de arte, uma taberna e a sala de espetáculos por excelência da cidade, o Coliseu Micaelense. E muito mais.
"O que é bonito neste festival é abrir as portas, mostrar o que existe atrás das paredes", conta António Pedro Lopes, codiretor artístico do Tremor. Todos os anos a equipa procura novos locais onde levar a música, de modo a preservar a ideia inicial de dinamizar a cidade (e neste ano já chegaram a outros locais da ilha, como o Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas, na Ribeira Grande).
"Ponta Delgada é um lugar diferente do que um dia foi em 2014, em que estava largada à falência do comércio tradicional, era um lugar fantasma." Entretanto aterraram as low-cost (decorria a edição do ano passado quando chegou o primeiro avião) e a cidade mexeu. "Surgiram novos alojamentos locais, cafés, hostels, novos espaços de encontro e o Louvre Michaelense [antiga loja de chapéus e tecidos, atual loja de artesanato local, casa de chá, mercearia e ponto de encontro]é um bom exemplo disso. Nota-se que há uma movida atrás das portas, coisas em obras, que estão a preparar-se", aponta.
O cenário está (sumariamente) apresentado - faltam ainda muitos locais, como a (nova) casa de fados Lisboa Menina e Moça, a (nova) livraria Galeria Miolo, a clássica Londrina, loja de fatos e gravatas. Vamos à música.

Estrangeiros a caminho

Há nomes fortes que estão a trazer público ao Tremor. Apesar de a promoção do festival ter andado neste ano fora de portas, Lisboa, Porto, Londres, Faial, com showcases dos músicos açorianos Sara Cruz e King John, António Pedro espanta-se com os contactos que chegam de Suécia, Inglaterra, Irlanda, França, Holanda, Itália, Alemanha.
"Eu não sei como chegaram a este festival! Imagino que através dos nomes que têm uma dimensão internacional. O Dan Deacon tem um calendário muito limitado na sua tour europeia. O Bonnie Prince Billy faz o Tremor e três datas em Londres que estão esgotadas", refere. São eles alguns dos nomes fortes a que se juntam os portugueses Capitão Fausto, Paus e Filho da Mãe. Também com passagem marcada para o meio do oceano estão Julianna Barwick, Clinic, Black Mountain, Suuns, entre outros. Neste ano a programação contempla ainda o hip hop açoriano, que tem ganho expressão na internet e encontra no Tremor um palco. No ano passado mais de 5000 pessoas passaram pelos concertos do festival, neste ano o número deverá aumentar.

Concertos a cada 15 minutos

No dia grande, sábado 19, a música começa às 10.00 com o Mini-Tremor, começa a mexer depois de almoço no 3/4 Hostel e só se cala perto das cinco da manhã do dia seguinte, numa sequência de espetáculos que obrigam a passar de espaço em espaço, pelas ruas de Ponta Delgada. "Há concertos a cada 15 minutos. Decidimos manter a veia identitária do Tremor que é o princípio de circulação no centro da cidade e com múltipla escolha. Há 50 concertos, é impossível vê-los a todos. Mas é importante fazer escolhas e é importante ter o que escolher", diz o porta-voz deste festival, organizado em parceria com a YUZIN Agenda Cultural e a editora Lovers & Lollypops.

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