Trabalhar a sério sem se levar muito a sério

Ricardo Neves-Neves: ator, dramaturgo, encenador, produtor. Tem 32 anos e é um dos fundadores do Teatro do Elétrico, nascido em 2008

Há um momento, ali uma semana antes da estreia, em que Ricardo Neves-Neves tem vontade de cancelar o espetáculo. Acha que está tudo mal. "Depois acontece uma magia qualquer que me faz acreditar um bocadinho", conta. O encenador e dramaturgo tem uma relação difícil com o seu trabalho: "Não há nenhum momento na minha vida em que eu pensasse "sou fantástico" ou um espetáculo que eu dissesse "isto é mesmo bom"." Não se trata de ser exigente, mas realista: "Nunca me levei muito a sério." Já o trabalho é para ser levado a sério.

Ricardo Neves-Neves cresceu numa quinta perto de Vilamoura, entre laranjeiras e galinhas. Com o pai, aprendeu a tocar piano e aos 15 anos começou a fazer teatro no Teatro Amador de Quarteira, com José Matos Maia e António Alvarinho. Foi aí que tudo começou. Nessa altura, andou a fazer uns workshops de teatro em Lisboa: vinha de camioneta, às seis da manhã de sábado, ficava hospedado numa pensão na Rua Braamcamp, passava os dias nos ateliês e voltava a apanhar a camioneta à uma da manhã de domingo. Era um rapaz bem comportado e os pais sempre o apoiaram nestas suas pequenas loucuras. "Era bom aluno, acabei o secundário com a média de 19,3 e fui logo escolher um curso onde a média não interessava para nada", recorda.

Entrou para o Conservatório: "Era muito inculto, ainda hoje sou. Mas lido bem com isso porque aprender não é difícil, se a gente quiser. Ao contrário de outras pessoas, nunca senti que estivesse a perder tempo nas aulas." E em Lisboa descobriu-se espectador compulsivo. Podia começar às 11 da manhã num cinema, ver três sessões seguidas e depois ir para o teatro. "Sou um bocadinho obsessivo", admite. Mas "foram momentos de felicidade incríveis". Uma felicidade assim como foi a primeira vez que foi ao Festival de Teatro de Almada ou a primeira vez em Avignon onde, de uma assentada, viu 40 espetáculos: "No teatro, a única coisa que gosto mais do que encenar é ver espetáculos."

Ainda a estudar, estreou-se a encenar em Quarteira. "Tinha 19 anos, não tinha experiência absolutamente nenhuma mas tinha ideias e gostava de as pôr em prática." Depois, trabalhou com os Primeiros Sintomas e, em 2008, fundou com a atriz Rita Cruz e um grupo de amigos o Teatro do Elétrico. Escreve, encena, produz, faz de tudo e cada vez representa menos. O que lhe parece um caminho lógico, uma vez que se considera "um canastrão".

"Começámos de forma muito ingénua. Encontrávamo-nos, decidíamos fazer uma coisa e fazíamos. Depois para concorrermos aos subsídios tivemos de começar a fazer planos. Agora, já tenho datas de estreia para daqui a dois anos. Mas eu sei lá o que me vai apetecer fazer daqui a dois anos?"No ano passado, o Elétrico estreou Dona Luciana no Teatro da Politécnica, este ano apresentou Encontrar o Sol no São Luiz e Karl Valentin Kabarett no Trindade, para o ano já tem planos para a Culturgest e os dois teatros nacionais, de Lisboa e Porto (com uma adaptação de Alice no País das Maravilhas). Entre outras coisas. As produções sucedem-se e Ricardo Neves-Neves tem consciência dos perigos: "Se por um lado o reconhecimento é um impulso para continuar a trabalhar também é um bocadinho paralisante, porque o excesso de responsabilidade é o oposto da sensação de liberdade que um artista deve ter", diz. "Não é fácil lidar com isto. Eu levei isto assim de chapão, e também pode acontecer dar a volta ao contrário. É tudo tão provisório."

Neste momento está em Taiwan a trabalhar em mais um projeto irrecusável mas nos seus planos tem umas férias. Um dia. Algures. "Estou com vontade de ter tempo para refletir. Sinto necessidade de uma renovação mas não sei para que lado, preciso de tempo para pensar, para fazer leituras. Parar."

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