Tom Hanks: uma estrela para as grandes ocasiões

2016 é o novo ano de sonho do ator, que chega esta semana às salas com Inferno, de Ron Howard, a partir da saga de Dan Brown

O mais clássico dos atores americanos contemporâneos. Tom Hanks, com o tempo, ganhou esse peso. Não é coisa má, nem por sombras. No seu caso, aos 60 anos, parece estar cada vez mais sóbrio e com o porte de uma certa fleuma imperial americana, um pouco como se amasse a retidão do "bom americano". Uma estrela para as grandes ocasiões.

2016 está a ser um ano de abundância para o ator. Esta semana chega aos nossos ecrãs com Inferno, de Ron Howard, a terceira aventura de Robert Langdon, o herói de Dan Brown, ao mesmo tempo que continua a ser visto em O Milagre do Rio Hudson, de Clint Eastwood. No começo do ano foi ainda o protagonista de Um Negócio das Arábias, de Tom Tykwer.

Hanks é capaz de tudo, já se sabia. Nos filmes de adaptação ao universo de Dan Brown, quer O Código Da Vinci, quer Anjos e Demónios, parece menos confortável a dar vida a Robert Landgon, um professor universitário que investiga mistérios religiosos e tem uma apetência para sarilhos. Nas versões de Ron Howard, a personagem parece galgar terrenos de Indiana Jones e nunca ganha uma verdadeira respeitabilidade. Os filmes têm sido algo mal tratados pela crítica e Hanks faz o que pode com material de action hero. Quase que apetece dizer que é bom demais para aquilo.

Em O Código Da Vinci, o pior filme até agora, a personagem tinha uma falta de credibilidade que começava num penteado que esticava o cabelo do ator e que fez confusão a muita gente. De certa maneira, parecia que o herói de bestseller de Brown se tinha transformado numa figura da cultura pop para se troçar. O cabelo foi corrigido nos filmes seguintes, inclusive este novo Inferno, que semana chega primeiro a uma série de países e só mais tarde às salas americanas.

Desta vez, Landgon acorda com amnésia num hospital italiano e subitamente vê-se envolvido numa intriga que aponta para uma ameaça global que sinistramente está relacionada com a obra de Dante, e onde um homem perturbado poderá ser capaz de lançar um vírus que matará imediatamente cerca de metade da população mundial. Um Landgon amnésico mas com pedalada para muita perseguição e pancadaria nos mais variados locais turísticos da Europa. A receita não deverá mudar em relação aos filmes anteriores e Hanks supostamente também não altera o registo anterior.

O seu grande papel deste ano - e um dos melhores da sua carreira - é como Sully, o herói de O Milagre do Rio Hudson, a sua primeira colaboração com Clint Eastwood. A sua interpretação é de uma elevação moral e de uma contenção absolutamente notáveis, capaz de nos fazer crer que estamos a ver o verdadeiro capitão do avião que aterrou sem vítimas no rio Hudson depois de um acidente com aves. O sucesso e a aclamação do filme estão a colocá-lo na órbita da temporada dos prémios para melhor ator. Recorde-se que este duplo oscarizado já não é nomeado pela Academia há 16 anos, desde Cast Way - O Náufrago, mesmo depois de interpretações fortíssimas em A Ponte dos Espiões, no ano passado, e Capitão Phillips, em 2013.

A torcer por La La Land

Conhecido também pelo seu altruísmo e esmagadora simpatia, Hanks, em plena conferência de imprensa de O Milagre de Rio Hudson, no Festival de Telluride, fez questão de elogiar com todo o entusiasmo do mundo La La Land, de Damien Chazelle, musical que desde então tem ganho a dianteira na corrida para os próximos Óscares. O ator ficou tocado pelas grandes emoções românticas do filme "concorrente". Pouca gente em Hollywood era capaz disso...

Mas Tom Hanks tem esse dom de imprevisibilidade. O Mr. Nice Guy que todos os americanos queriam como vizinho porreiro, faz também escolhas improváveis, como o papel de homem de negócios derrotado em Negócio das Arábias, uma produção germânica de Tom Tykwer, que se estreou em Portugal em maio passado sem grande reconhecimento. Uma comédia dramática onde era um vendedor de hologramas a tentar ficar com a conta do Rei da Arábia Saudita. Nada a dizer da sua interpretação mas faltava mais sal e arrojo ao filme. Hanks terá aceite ser a estrela mesmo com um orçamento mais reduzido e uma rodagem complicada no Médio Oriente.

A sua omnipresença neste ano consubstanciou-se ainda mais quando se descobriu que foi um dos poucos apostadores a ganhar muito dinheiro com a vitória do Leicester no campeonato inglês. O seu gosto pelo futebol levou-o a gastar 127 euros na aposta que, depois, rendeu-lhe muito dinheiro, cerca de 637 mil euros. Isto para alguém que cobra sempre alguns dos cachets de topo...

O futuro passa também pela produção (lembre-se que o seu olho para projetos alheios é sempre eficaz: Viram-se Gregos para Casar é um dos maiores êxitos de sempre do cinema americano feito fora das majors e foi financiado por si...). As suas últimas apostas chamam-se Felt, de Peter Landesman, com Liam Neeson e sobre o caso Watergate, e The Circle, de James Ponsoldt, com Hanks e Emma Watson.

O mesmo Tom Hanks que muito recentemente fez furor nas redes sociais quando em pleno jogging, no Central Park, se aproximou de um casal de noivos que tirava fotografias do seu casamento e posou numa selfie com os mesmo depois de se apresentar: "Olá! Sou o Tom Hanks". Além de ser uma estrela que sabe brincar com o seu estatuto de celebridade, é também um inolvidável fura-casamentos. Há qualquer coisa ainda que ficou do Tom Hanks dos anos 80, onde era jovialmente insano em filmes como Solteiros e Tarados e Voluntários à Força. A amnésia que trás de Inferno não contaminará toda uma geração que o viu a ganhar o tal peso do ator solenemente respeitável. A verdade é que podemos sempre contar com Tom Hanks...

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG