Todo o virtuosismo nos dedos, todo um país no coração

Pianista Simon Trpceski toca esta terça-feira, no CCB, o Concerto n.º 1 de Chopin com Sinfónica Portuguesa

Tem 36 anos e é o artista clássico mais famoso da Macedónia. Chama-se Simon Trpceski e está por estes dias em Lisboa: no sábado, fez um recital-Chopin no Salão Nobre do São Carlos; esta terça-feira, às 21.00, apresenta-se no Grande Auditório do CCB, sendo solista no Concerto para piano e orquestra n.º 1, em mi m, op. 11, de Fryderyk Chopin, ao lado da Sinfónica Portuguesa, dirigida por Joana Carneiro.

"Esta é já a minha terceira visita a Lisboa, mas é a primeira vez que tenho a minha família comigo [mulher e uma filha de quase seis anos]". A ocasião anterior foi um recital na Gulbenkian, em 2008 e a primeira vez "tinha 17 anos, vim participar num concurso europeu para jovens músicos, que decorreu aqui mesmo, no CCB [onde ele estava, quando falámos], pelo que rever estes espaços trouxe de volta muitas memórias desses tempos juvenis!..."

Além de Lisboa, Simon já visitou por várias vezes o Porto (Casa da Música) e, por uma vez, Espinho (edição 2010 do Festival local).

A sua impressão é familiar: "há uma grande semelhança de mentalidades entre o meu país e Portugal: pessoas simples, abertas, calorosas, que me fazem sentir livre e feliz, quase como se estivesse em casa. É a mentalidade mediterrânica comum a ambos!"

Mas numa coisa há estreia: "é a primeira vez que vou atuar com a Joana Carneiro. Já a conheço há vários anos, mas até agora nunca se havia proporcionado um concerto juntos, pelo que isso me deixa muito entusiasmado".

Sendo Simon o pianista que é, surpreende quando nos diz que, "na verdade, não toco o Concerto n.º 1 de Chopin tantas vezes quanto desejaria", e mais ainda quando confessa: "aprendi este Concerto [isto é, pô-lo pronto para o apresentar em concerto] para um concerto com a City of Birmingham Symphony Orchestra e o maestro Andris Nelsons em janeiro de 2013, mas na verdade, a primeira vez que o toquei em público foi com a Sinfónica do Porto-Casa da Música, duas semanas antes de ir a Birmingham!" E esta chegada tardia ao seu repertório vale também para o Concerto n.º 2: "durante muitos anos, só tocava as suas obras para piano solo".

Mas parece que o conhecimento valeu a pena: "esta obra é uma viagem maravilhosa, para mim: Chopin é tão sofisticado, tão delicado!", mas, talvez por isso mesmo, "exige que se alcance o caminho mais simples de chegar ao coração do público", porque, "o gosto, o bom-gosto, é decisivo", nomeadamente para "trazer à tona aquela visão refinada, as diversas dimensões, os diferentes estados de espírito" e "uma pequena porção de sentimentalidade e melancolia".

Depois, há uma afinidade inesperada entre ele e esta obra: "quando li sobre este Concerto, descobri que a primeira vez que a obra foi tocada, numa das leituras que antecederam a estreia, foi a 18 de setembro [de 1830]. Ora, 18 de setembro é o meu dia de anos: daí que ambos tenhamos visto a luz no mesmo dia!", diz, entre risos.

Simon diferencia bem cada um dos andamentos: "o 1.º andamento mostra-nos uma face da sua personalidade, mais dramática e intensa, onde percebemos a fogosidade que ele só ocasionalmente mostrava; o 2.º é totalmente diferente: é de amor puro que se fala ali, e aí encontramos o lado mais íntimo, aí reconhecemos a alma de Chopin; por fim, o 3.º mostra-nos o seu lado mais radioso e alegre". De fio a pavio, há "a exigência de grande destreza do intérprete", embora Simon considere útil "uma abordagem muito no espírito mozartiano a este Concerto".

Em termos de coordenação com a orquestra, "o andamento central requer um elevado grau de atenção, porque o pianista precisa de ter liberdade para devanear, e a orquestra, embora não toque muito, precisa de em cada intervenção acrescentar apenas o estritamente necessário para que aquele ambiente, sendo mantido, fique ainda mais rico".

Para o pianista, o segredo em Chopin está em "saber equilibrar - com o tal bom-gosto - três fatores: a ornamentação, o rubato e o pedal". O primeiro "tem sempre um significado, um propósito", que é "intensificar a emoção, prolongando o que nos está a ser contado e levando-o a outras paragens". Já quanto ao segundo, o princípio é: "deixar fluir a melodia e manter uma respiração reconhecível". Mas sempre sem esquecer que "a harmonia também é parte importante da expressão".

Vida na Macedónia

Pese a carreira e o reconhecimento que tem, "sempre vivi na Macedónia, em Skopje", revela-nos. Sobre estar longe dos grandes centros musicais, defende-se: "vivo a 15 minutos do aeroporto, posso chegar lá meia-hora antes - tenho quase um estatuto de empregado do aeroporto [risos] - por isso, quando 'dão por mim', já eu venho a meio caminho". Estar ali, diz, "preenche-me a alma e esse estado de espírito acaba por transparecer positivamente em palco, porque a música que fazes reflete a pessoa que és, a maneira como te sentes, se estás feliz ou não com a tua vida". Viver "entre aeroportos" não é para ele: "se se tornasse algo de febril, desistia logo. Prefiro ter tempo para ser feliz do que estar sempre em concertos, sem tempo para fazer mais nada". E logo se lembra dos últimos tempos: "em duas semanas e meia, toquei quatro diferentes concertos para piano em quatro cidades diferentes, mais um recital...", para logo rematar que "é indispensável haver um equilíbrio".

Uma faceta que Simon traz sempre consigo da Macedónia é "a própria" Macedónia: "muitas pessoas não sabem nada sobre a Macedónia. Apesar de sermos uma nação dos tempos bíblicos, com muita história, hoje somos só um pequeno país de 2 milhões de habitantes e que, também por isso, ainda não conquistou o seu lugar no concerto das nações". Mesmo reconhecendo que "isso começa a alterar-se e hoje muitos estão mais informados sobre a Macedónia e os macedónios", vê ainda "como minha missão, enquanto artista muito conhecido, fazer esse esforço por promover o meu país e fico feliz por fazê-lo".

Sobre o seu país diz-nos que "houve muitas melhorias, mas ainda há muito por fazer", admitindo que "as melhoras, o progresso devia ter acontecido mais rapidamente". Razões para assim não ter acontecido, ainda, as "rivalidades exageradas. Há uma aprendizagem da convivência pelo bem comum que ainda falta fazer". Em termos culturais, diz que "há imenso talento, lá, e não apenas na música!" O próprio Simon o testemunha, porque "faço muitos concertos de beneficência e ações culturais na província: toco com talentos locais, ou, enquanto dei aulas na Universidade [fê-lo durante 11 anos], levava alunos meus para recitais conjuntos. Mas o meu propósito é sempre o mesmo: o desejo de que as pessoas vivenciem algo de novo quando vão ouvir-me". E, mais amplo, ainda, o de "ajudar a mudar as mentalidades na minha pátria", porque "a música é algo da própria vida e pode ensinar-nos a sentir e a comportarmo-nos diferentemente, e, por aí, criar ideias diferentes".

Na atividade cultural, orgulha-se do "Festival do Lago Ohrid, muito antigo, com um historial de grandes artistas lá", mas também "o Festival de Verão de Skopje, ou as 'Noites de Ópera de Maio'". Uma relação particular liga-o à Orquestra Filarmónica da Macedónia: "está a ser construída uma sala nova para a Orquestra, e ela própria tem evoluído muito em termos de repertório e nos programas para novos públicos".

Simon tocou com essa Orquestra "pela primeira vez, quando tinha 15 anos", mas a única vez fora da Macedónia foi na vizinha Sérvia, "em Belgrado e Novi Sad, em 2005". Daí que o seu sonho confesso seja "ir em digressão internacional com a Filarmónica da Macedónia!"

Por enquanto, fora da Macedónia, Simon tem que tocar com orquestras estrangeiras. Em concerto e em gravações. Neste campo, "vai ser editado em janeiro um CD com a gravação de um recital ao vivo no Wigmore Hall [no selo próprio da sala londrina], com obras de Brahms, Ravel e Poulenc. E depois, lá para fevereiro, vou gravar os Concertos n.º 1 e n.º 3 de Prokófiev com a Royal Liverpool Philharmonic e o seu maestro-titular Vassily Petrenko, com os quais já gravei os concertos de Rakhmaninov".

Sobre a sua associação aos grandes compositores-pianistas virtuosos, declara: "nunca me atraiu o virtuosismo por si só, mas antes o propósito de descobrir o objetivo musical que cumpre: sempre a alma, nunca os fogachos".

E "alma" não falta certamente a Chopin.

Ficha do concerto:

CCB-Grande Auditório, 10 novembro, 21.00

Simon Trpceski, Orquestra Sinfónica Portuguesa/Joana Carneiro

obras de Beethoven, Chopin e Janácek

bilhetes dos 5 aos 18 euros

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