Uma 'Bela Adormecida' com rugas e uma vida para contar

Companhia Maior, composta por 16 actores com mais de 60 anos, estreia-se esta quinta-feira no Centro Cultural de Belém

Na primeira sessão do workshop com Clara Andermatt, a coreógrafa perguntou-lhes: "Conseguem sentar-se no chão?" Eles riram-se e foram buscar cadeiras. "Eu sentar até me sento, mas depois não me consigo levantar", advertiu Celeste Melo, pouco menos de 80 anos, a mais velha do grupo. No final da formação, já todos se sentavam e levantavam. "Até já nos rebolávamos", ri-se Carlos Nery. "Foi como um milagre", acrescenta Celeste. "Aprendi a maneira certa de me levantar do chão e já ensinei todas as minhas amigas."

Tem sido assim a caminhada da Companhia Maior. Feita de conquistas. A maior das quais acontecerá esta quinta-feira, quando estrear no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, o espectáculo A Bela Adormecida.
A companhia surgiu de uma ideia de Luísa Taveira, antiga programadora de dança do CCB (actualmente na Companhia Nacional de Bailado). Juntaram-se em Março para um primeiro workshop de representação com o encenador Tiago Rodrigues, continuaram com o dramaturgo Jacinto Lucas Pires, com o músico Luís Lucas e, por fim, com Clara Andermatt.

Dos 16 inscritos no primeiro workshop, só houve duas desistências, por motivos de saúde e por compromissos profissionais. Todos os outros, aceitaram o desafio de constituir a primeira companhia profissional de teatro sénior. Têm contrato, recebem ordenado, cumprem os horários dos ensaios à risca e até fazem horas extraordinárias. A poucos dias da estreia, ninguém se queixa do cansaço. "O meu maior problema é a memória", confessa Vítor Lopes, que teve uma carreira ligada ao teatro mas sobretudo na área dos cenários e figurinos, e aqui será o Mestre de Cerimónias.

Vêm de áreas distintas, mas quase todos tiveram alguma experiência artística - como Kimberley Ribeiro, bailarina e ensaiadora na CNB, que faz aqui a sua quarta Bela Adormecida (a segunda como Aurora); ou como o acordeonista Michel; ou como Carlos Nery, que foi actor na primeira encenação de um texto de Pinter em Portugal, com Jacinto Ramos. Fazia teatro ao mesmo tempo que trabalhava num banco: "Aos 55 anos mandaram-me para casa, consideravam-me uma relíquia. Ainda fui a alguns teatros mas não havia lugar para mim." Há mais de 30 anos que não pisava um palco e agora é um "rei". "Quando estamos no palco não nos lembramos de que temos mais de 60 anos", diz Carlos Nery.

Todo o texto e a encenação partiram do trabalho com os actores e das suas memórias (o primeiro baile, o enamoramento, a juventude e o envelhecer). "Não encarámos a memória como uma coisa que já se perdeu, mas antes como algo que nos pertence e que podemos usar", explica o encenador. "Claro que existem limitações intelectuais e físicas", diz Tiago Rodrigues, "mas a partir do momento em que se assumem essas limitações e deixamos de procurar o intérprete virtuoso podemos aproveitar o que estas pessoas têm, que é autenticidade, experiência, comprometimento e uma capacidade de risco que me surpreendeu: não têm nada a provar a ninguém, não têm nada a perder e por isso aceitam todos os desafios. Isso vem com a idade." 

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