O encontro de Monica Calle e Dulce Maria Cardoso

Monica Calle pegou no romance 'Os Meus Sentimentos' de Dulce Maria Cardoso e transformou-o num espetáculo de cinco horas. De hoje a sábado, na Culturgest, em Lisboa

"A Violeta sou eu." Monica Calle diz isto e ao dizê-lo não está a ser metafórica, não está a falar do seu trabalho como atriz, não está a referir-se sequer ao facto de se ter identificado com a narradora de Os Meus Sentimentos, o livro de Dulce Maria Cardoso. Monica Calle diz "a Violeta sou eu" e repete-o com a convicção profunda de que ao escrever este livro a autora estava a falar de si. "Ela não me conhecia, ela não sabia que estava a escrever este livro para mim. Mas estava. A Violeta sou mesmo eu, neste momento da minha vida."

Sentadas na plateia montada sobre o palco do Grande Auditório da Culturgest, em Lisboa, numa pausa do ensaio, Monica Calle e Dulce Maria Cardoso lembram o momento em que se conheceram e como de repente parecia que se já se conheciam há muito tempo e como de uma conversa surgiu a vontade de fazer um espetáculo. Para Monica, atriz e encenadora, tornou-se imediatamente claro que as palavras e o universo de Dulce, autora do elogiado O Retorno (2011), estava na origem de uma nova criação. Tinha essa certeza antes mesmo de começar a ler, um por um, os textos de que ela lhe tinha falado: "Eu sabia que ia encontrar na escrita da Dulce aquilo que procurava, sabia que com as palavras delas ia conseguir falar daquilo que precisava."

E encontrou. Em Os Meus Sentimentos, segundo romance de Dulce Maria Cardoso, publicado em 2005 e galardoado com o Prémio PEN de ficção e com o Prémio da União Europeia para a Literatura. Aí Mónica encontrou Violeta. Encontrou-se.

Este é, como explica a autora, um livro sobre a memória. Tudo começa com um acidente de carro. "Inesperadamente". Violeta, "de cabeça para baixo, suspensa pelo cinto de segurança", recorda a sua vida. "A memória é feita de morte, porque só nos recordamos do que já passou. A memória é feita de fragmentos. E a memória também é imaginação, nós recriamos o nosso passado, nada o que nos lembramos aconteceu exatamente assim." Por isso, para Dulce Maria Cardoso, este livro, que não tem futuros nem condicionais, só podia ter sido escrito assim, em fragmentos, com histórias entrecruzadas, com uma mulher gorda que sabe que tem de fazer o que te fazer, ainda que depois se envergonhe, uma mulher que só conhece "o amor de ouvir falar" mas que conhece bem os homens e que seduz camionistas desconhecidos nas estações de serviço ("onde andas com o corpo, Violeta, onde andas com a cabeça"). Ou, como diz Monica Calle, um livro que fala dos três grandes tabus que resistem na sociedade ocidental (a morte, a maternidade e a sexualidade feminina) de uma maneira que nunca antes tinha visto.

Violeta. Na Culturgest, entre hoje e sábado, Mónica Calle é Violeta. Sozinha no palco, só com a luz e as sombras criadas por José Álvaro Correia, num espetáculo que se prolonga por quase cinco horas, com quatro intervalos, Violeta irá contar-nos a sua história. Os seus sentimentos. "Não há nada que o silêncio não mate", diz ela.

Dulce Maria Cardoso acompanhou todo o processo de criação sem nunca interferir. "Nunca falamos da Violeta, a Mónica nunca perguntou o que é que eu quis dizer com alguma frase, falamos muito mas de outras coisas", diz. No entanto, assegura: "A Monica diz o texto exatamente como eu o ouço na minha cabeça." E admite, quem sabe, talvez aquela seja mesmo a verdadeira Violeta.

Encontros assim são raros e estas duas mulheres têm consciência disso. Assumem a felicidade. "Somos muito diferentes", explica a escritora. A atriz é mais emotiva e intuitiva, a escritora é mais pragmática e mais reservada. "Mas temos uma coisa em comum: acreditamos que devemos correr riscos, que nunca se deve ter medo do que os outros vão pensar." Seja na escrita seja no palco. Tal como Violeta. Fazer o que tem ser feito. Sem temer os sentimentos.

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