'O Campeão do Mundo Ocidental' no D. Maria II

Artistas Unidos apresentam até 9 de junho, no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, uma peça do irlandês John Millinton Synge

Um jovem entra pela porta do bar. Foge da polícia. Foge do passado. Foge de si mesmo. O forasteiro é Christy Mahon e tem uma história incrível para contar sobre o modo como, com uma machadada, matou o pai. A sua coragem é elogiada pelas mulheres e invejada pelos rapazes. Pepgeen, a rapariga ruiva que está ao balcão, não esconde o seu fascínio.

Podia ser uma história de amor mas é algo mais do que isso. O Campeão do Mundo Ocidental, do dramaturgo irlandês John Millington Synge (1871-1909), é nas palavras do encenador Jorge Silva Melo um texto "sarcástico, sardónico e iconoclasta", um daqueles textos que, apesar de escrito em 1907, ainda hoje está cheio de enigmas: "Não se percebe se é uma comédia se é uma tragédia". No seu trabalho, enquanto preparava a estreia do espetáculo, ontem, no palco principal do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, Silva Melo foi encontrando ligações com este campeão. Viu aqui a semente dos filmes de Ford, como O Homem Tranquilo ou o Quem Matou Liberty Valence (onde a mentira aparece como a única verdade que vale a pena). Encontrou aqui a rudeza de Artaud e a selvajaria de A Sagração da Primavera, de Stravinsky. E encontrou aqui Chaplin - o "aldrabão simpático", que se recusa a crescer e insiste em viver no seu sonho. Uma aldrabice infantil e, até certo ponto, inocente.

Naquela taberna na aldeia perdida de County Mayo, onde a moral católica é quem mais ordena, há uma rapariga triste que é invadida por "um desejo sexual irreprimível" e que está disposta a quebrar todas as regras para ficar com aquele rapaz ,destemido e forte, campeão dos jogos florais, que teve a coragem de matar o pai (e o que Freud diria sobre isso). E que ainda por cima tem nome de Cristo. Um texto que é como um novelo com muitos fios por onde puxar, admite Silva Melo. Da ascensão da burguesia

Elmano Sancho e Maria João Pinho lideram o elenco em que estão Américo Silva, Maria João Falcão, Rúben Gomes, João Vaz, António Simão e outros. O espetáculo fica em cena até 9 de junho.

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