Vida de Cândida Branca Flor no palco do Teatro Aberto

A peça que o Teatro Aberto estreia na quarta-feira mistura factos reais e ficção para contar a história da vida da cantora portuguesa Cândida Branca Flor, popular nos anos 1980, que acabou por morrer na solidão.

"O objetivo era tentar perceber como é que um artista que está preso a um sistema vive, o que tem que fazer para entrar, continuar e não sair. É um espetáculo sobre ela, mas sobre todas as Cândidas", disse à Lusa o autor do texto e um dos encenadores de "Cândida - Uma história portuguesa", André Murraças.

O convite para que André Murraças concebesse um espetáculo à volta da figura de Cândida Branca Flor partiu da produtora Cassefaz, que "tem feito uma série de reflexões sobre figuras icónicas de Portugal, como António Variações, Snu Abecassis ou a governanta de Salazar".

O espetáculo parte de um momento "muito especifico", as horas que antecederam a participação da cantora no Festival RTP da Canção, em 1982, com a música "Trocas e Baldrocas".

A peça desenrola-se no camarim, durante as horas antes de Cândida Branca Flor entrar em palco.

"É uma oportunidade de entrarmos no camarim e percebermos como é que ela se preparava, o que fazia, quais eram as expectativas. Ao mesmo tempo serve para percebermos a intimidade daquela artista, como ela era nos bastidores, o que havia além daquela máscara que nós conhecíamos", contou André Murraças lembrando que é "preciso perceber que tudo se passa em 1982 e que a música vivia muito daquele festival".

Durante o espetáculo, composto em "80 por cento por um monólogo da atriz Sílvia Filipe", consegue falar-se de tudo, "desde a preparação para aquele momento específico, a previsões, sensações, expetativas", fazendo "uma passagem transversal sobre a vida dela".

A relação com o marido, que era também agente, assistente pessoal e motorista da cantora, também é focada, até para se perceber "como é que esta mulher que acaba depois por se divorciar, consegue ter espaço para ela, espaço para pensar, espaço para viver".

"Será que consegue? Se calhar não, e se calhar por isso teve o final que teve", afirmou.

André Murraças juntou o máximo de informação histórica que conseguiu, "com alguma dificuldade, já que há muita coisa que não se sabe sobre ela", e a partir daí ficcionou.

"Há um grande ambiente histórico durante a peça, mas as pessoas devem saber que vão ver uma coisa ficcionada também, que parte da vida dela para falar sobre o mundo do espetáculo e da canção, não é uma reconstrução histórica", salientou.

A peça, com encenação conjunta de André Murraças e Paulo Ferreira, tem ainda uma participação especial do ator Guilherme Filipe, "com uma surpresa" que André Murraças se escusou a revelar.

"Cândida -- Uma história portuguesa", produzida pelo Grupo Cassefaz em co-produção com o Novo Grupo Teatro Aberto, estreia-se na quarta-feira e está em cena até 14 de outubro.

Cândida Branca Flor foi encontrada morta a 11 de julho de 2001 em sua casa, em Massamá, onde vivia sozinha. Comprimidos e álcool encontrados na casa levantaram a desconfiança de suicídio. A única família que tinha era a mãe, que residia num lar no Alentejo.

A cantora estreou-se na televisão em 1976, ao lado de Júlio Isidro e José Barata Moura na apresentação do programa "Fungagá da Bicharada", o mesmo ano em que integrou a Banda do Casaco, de António Pinho e Nuno Rodrigues, para a gravação do álbum "Coisas do Arco da Velha".

Em 1978, Branca Flor participou pela primeira vez no Festival RTP da Canção, com "A Nossa História de Amor", regressando em 1982, ao lado de Carlos Paião, com "Trocas e Baldrocas" e, em 1983, com "Vinho do Porto".

Ídolo das crianças no final da década de 70 e inícios de 80, Cândida Branca Flor editou oito discos entre 1978 e 1993.

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