Nuno Lopes regressa ao teatro como Caliban

'A Tempestade' em Lisboa. Voltar à Cornucópia, onde começou a carreira, é como "voltar a casa"

Quase irreconhecível. Curvado sobre si mesmo, um manto de serapilheira a cobrir-lhe a cabeça, o corpo esborratado, os gestos como os de um macaco, Nuno Lopes transforma-se em Caliban, o homem-monstro da peça A Tempestade, de Shakespeare, que se estreia amanhã, no Teatro da Cornucópia em Lisboa. Nada de trejeitos cómicos.

O actor que todos se habituaram a ver em Os Contemporâneos (RTP1) regressa à Cornucópia como quem regressa a casa. Foi naquele palco que se estreou, em 1997, como Gustiuz Gonçalves de Os Sete Infantes, tinha então 19 anos. Ali, no Teatro do Bairro Alto, ao lado de Luís Miguel Cintra, de Márcia Breia, de Luís Lima Barreto, de Rita Durão, de Ricardo Aibéo, de José Manuel Mendes ou de Sofia Marques, sente-se em família. "Foi aqui que eu comecei a trabalhar, sinto-me muito à vontade neste sítio e com estas pessoas. É como um filho, que cresce, sai de casa, mas volta sempre à casa dos pais", conta o actor.

Tem um "prazer enorme" em voltar ao teatro. Já tinha longa carreira no palco e alguma experiência em cinema (por exemplo, Peixe--Lua e Quaresma, ambos de José Álvaro Morais) quando, em 2005, se tornou conhecido do grande público pela sua interpretação em Alice, filme de Marco Martins, onde desempenhava o papel de um pai que procura a filha desaparecida pelas ruas de Lisboa. Ao reconhecimento de crítica e público, juntaram-se os prémios do Shooting Star do Festival de Cinema de Berlim, o de Melhor Actor no Festival de Cinema Luso-Brasileiro, e ainda o Globo de Ouro (da SIC).

O passo seguinte foi dado na televisão, com a equipa de Herman e de Maria Rueff, onde pôde experimentar a sua faceta cómica e rapidamente deu nas vistas pela capacidade para construir "bonecos". Mas foi no ano passado, com Os Contemporâneos, que aconteceu o grande boom de popularidade. Nuno Lopes tornou-se O Chato - aquela personagem rezingona que aparece por todo o lado a dizer "vai trabalhar".

O actor não lida bem com este fenómeno. "É bom saber que as pessoas vêem e gostam do meu trabalho", diz. Mas, por outro lado, não é lá muito divertido andar na rua e estar sempre a ouvir alguém a mandá-lo trabalhar (no Carnaval, parece que uma das máscaras mais populares era a do Chato!). Mas a popularidade da personagem é incontornável e Nuno Lopes aceitou até fazer "uma espécie de cameo do Chato" no álbum Ruídos Reais, do novo grupo Macacos do Chinês.

Em Abril, Os Contemporâneos voltam à televisão. Até lá, Nuno Lopes estará na Cornucópia, transfigurado em monstro-peixe nojento, abominável, ululante, burro mas valente - tudo isto e muito é Caliban, uma das personagens mais difíceis que já interpretou, confessa.

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