A resistência possível num "cabaret" do Bairro Alto

Maria Rueff e Sofia Portugal protagonizam Cabaret Alemão, um espetáculo de café-teatro, que estará em cena a partir de amanhã no Teatro do Bairro, em Lisboa.

Imagine-se uma "situação absurda": Portugal foi invadido por uma potência estrangeira; Lisboa é uma cidade ocupada pelos alemães; o País perde a sua autonomia. E nesta cidade ocupada, um grupo de gente subversiva reúne-se num cabaret escuro, em pleno Bairro Alto, para discutir o que fazer. Entre as notas de um piano e umas canções. Foi assim que nasceu o Cabaret Alemão.

O encenador António Pires e a atriz Maria Rueff estavam a trabalhar juntos na comédia Lar Doce Lar quando começaram a ter ideias para este espetáculo. A eles rapidamente se juntou a atriz Sofia Portugal. Antes de mais, "surgiu a vontade de fazer um espetáculo político", conta o encenador. "A agressão que nós enquanto artistas sentimos, pois somos maltratados e ignorados, o que às vezes ainda é pior, e a nossa falta de jeito para fazermos manifestações e nos organizarmos com sindicatos, como classe, faz que utilizemos o que temos à mão, que é fazer espetáculos, para dizer o que nos vai na alma." Foi assim que surgiu esta ideia da ocupação e do medo. "Uma pura ficção", diz, entre risos, António Pires.

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João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

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Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.