Teatro. Nasceu uma nova companhia, sem regras nem amarras

Maria e Levi juntaram-se, mudaram de vida e criaram a Mascarenhas-Martins. Uma história para conhecer no Dia Mundial do Teatro

O sol entra pela janela. Estamos no Montijo. Há uma estante com Peter Brook, Luiz Francisco Rebelo, Shakespeare e muitos outros livros de teatro e cinema, muitos discos e dvd. Há um cartaz emoldurado do primeiro espetáculo que fizeram juntos. Aqui é a casa de Levi e Maria. Mas é também o escritório da companhia Mascarenhas-Martins. E a sala de reuniões. E a sala de ensaios. Ali, entre a sala, a cozinha e o escritório, fazem-se leituras em voz alta, rabiscam-se cenários, nascem espetáculos. "Por agora, vai ter que ser assim."

Levi Martins e Maria Mascarenhas conheceram-se na Escola Superior de Teatro e Cinema. Ele, vindo de Setúbal, estudava cinema. Ela, vinda de Carnaxide, estudava teatro. Conversaram muito, descobriram que tinham as mesmas ideias sobre a escola e sobre a criação artística. Pelo meio, também se apaixonaram. Levaria ainda algum tempo até terem oportunidade de trabalhar juntos.

Maria, que é atriz, trabalhava com a Companhia de Atores e recorda como um momento importante a experiência como assistente de encenação de John Mowat. "Fez-me pensar muito na importância do espectador. Na escola, o que nos dizem é que o espectador não interessa nada, nós somos os criadores e temos que fazer a nossa arte sem pensar no público."

Levi começou por trabalhar em cinema e por muito no documentário. A interrupção dos subsídios deixou-o sem emprego. "Fizemos um retirada estratégica. Passámos um ano numa casa em Setúbal, só a pensar, a ler, a conversar. A conversa e a reflexão animam muito este nosso projeto", conta Levi, que se foi deixando conquistar pelo teatro. Fez um mestrado em Estudos de Teatro e aproveitou a oportunidade de fazer um estágio-emprego de nove meses no Cinema-Teatro Joaquim D'Almeida, no Montijo. "Fiz um bocadinho de tudo ali, aprendi muito e foi muito bom", conta. E foi também ali que conheceu algumas das pessoas que se tornaram parceiros de criação. Foi por causa desta experiência que decidiram mudar-se para o Montijo.

O espectador é parte da equação

"Começámos a trabalhar juntos, em pequenos projetos, em 2014. Mas depois achámos que se queríamos continuar a fazer isto, de forma séria e continuada, seria melhor criar uma estrutura, por isso fundámos uma associação cultural sem fins lucrativos." Foi assim que, no ano passado, nasceu a Companhia Mascarenhas-Martins. Para fazer um teatro onde se quer muito mais do que entretenimento mas onde, apesar disso, o espectador é importante, "Queremos manter um diálogo. O espectador não é o mais importante mas é uma parte da equação", explica Levi. Para fazer um teatro sem regras e sem amarras - onde tanto se podem fazer textos clássicos como arriscar escrever textos, onde tudo se pode resumir aos atores mas onde também pode haver muita tecnologia implicada, vídeos, cenários inovadores.

As palavras de Maria resumem o espírito da companhia: "Na verdade, não temos uma linha. Queremos fazer o que nos apetecer". Com a maior liberdade possível - o que significa também que precisam dos apoios oficiais e de patrocínios mas não estão dispostos a abdicar da sua visão artística.

O primeiro espetáculo, com texto de ambos, encenação dele e interpretação dela e de João Jacinto, um jovem ator do Montijo, estreou no início do mês: Toda a Gente e Ninguém esteve durante três noites no Cinema-Teatro Joaquim D'Almeida e teve 398 espectadores. "É bom. Eu acho que é bom. Estamos no Montijo e esta era uma proposta um bocadinho diferente, não é teatro de revista", considera Levi. Entre o grupo inicial e mais ou menos fixo da companhia estão ainda Adelino Lourenço (cenografia, luz e figurinos), André Reis (música), Susana Bordeira (produção), Duarte Crispim (design).

Daqui para a frente, há de haver digressões, encontros, documentários, espetáculos com a comunidade. O primeiro desafio é sobreviver. Maria tem 27 anos e dá aulas de teatro no Conservatório do Montijo, Levi tem 31 anos e despediu-se da Companhia de Teatro de Almada, onde era assessor de comunicação, para se dedicar por completo ao novo projeto. O risco é assumido. "É claro que é uma loucura criar uma estrutura neste momento, mas, por outro lado, nós não temos nada a perder", garante Maria. "É uma aposta e um investimento pessoal. Acredito na possibilidade de fazermos coisas interessantes se continuarmos a trabalhar", afirma Levi. "Também é um projeto político, de contraponto a esta ideia de que tudo tem de ser eficaz e rentável. Não acredito em não fazer porque não há dinheiro. Nós acreditamos na importância de criar, de oferecer arte e cultura às pessoas. E por isso vamos lutar pelo valor imaterial e incalculável das coisas. Alguém tem de o fazer, seremos nós."

Hoje vão fazer uma leitura encenada da mensagem do Dia Mundial do Teatro, da autoria de Anatoli Vassiliev. "Tomámos esta decisão por nos parecer importante que, na nossa cidade - Montijo - se marcasse este dia de alguma forma. Vamos juntar-nos na Praça da República, às 16.00. Em seguida, teremos todo o gosto em ficar a conversar com quem aparecer. Estou convencido que o Mundo andaria melhor se houvesse mais oportunidades para conversarmos sem intermediários, ao vivo, olhos nos olhos. No teatro também não há intermediários. Talvez por isso seja, para muitos, a mais bela das artes." Fica o desafio.

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