Spielberg celebra o jornalismo e a exigência da verdade

Com Meryl Streep e Tom Hanks, The Post é um filme de Steven Spielberg sobre um momento dramático do jornalismo nos EUA

Um dos cartazes americanos do novo filme de Steven Spielberg, The Post (estreia na quinta-feira), utiliza uma velha frase coloquial: "Truth be told." À letra: "Verdade seja dita." É uma expressão que, regra geral, serve para reforçar o carácter verdadeiro de algo que está mais ou menos implícito no que já foi afirmado. Por exemplo, se dizemos "hoje está muito frio", podemos acrescentar "verdade seja dita, os dias têm estado muito frios".

Trata-se, como é óbvio, de contar uma história que tem que ver com a vontade e, mais do que isso, o empenho em dizer a verdade sobre determinados factos. The Post narra a odisseia dos jornalistas de The Washington Post que, na sua edição de 18 de junho de 1971, começaram a divulgar os chamados Pentagon Papers. Através das informações contidas nesse documento secreto, tornou-se claro para o público americano que a administração do presidente Richard Nixon tinha a clara noção de que, apesar do reforço do investimento militar no Vietname (com crescentes perdas de vidas humanas), não era possível ganhar a guerra.

Acontece que, no atual contexto cinematográfico e político, truth be told adquire outras ressonâncias, veementes e incontornáveis. Isto porque The Post surge numa América marcada pelo conflito de Donald Trump com muitos setores da atividade jornalística. O presidente vai acusando os mais diversos órgãos de informação de produzirem notícias falsas (fake news) sobre a sua administração, ao mesmo tempo que diversos jornais e televisões, de The New York Times à CNN, passando por The Washington Post, vão desenvolvendo um trabalho pedagógico de desmontagem das mentiras e manipulações de factos por parte de Trump.

Não se trata, portanto, de aplicar o efeito mais ou menos retórico condensado na expressão "verdade seja dita". O que está em jogo é a importância e, mais do que isso, a urgência de dizer a verdade. Nesta perspetiva, The Post é um filme que consegue a proeza de ser um esclarecedor fresco histórico sobre a sociedade americana de há quase meio século, ao mesmo tempo que possui o fulgor de um gesto simbólico capaz de ecoar no presente em que o descobrimos.

Política e jornalismo

A revelação dos Pentagon Papers abalou profundamente a vida americana, reforçando as argumentações políticas e as manifestações populares contra a continuação da guerra (que terminaria com a queda de Saigão, em abril de 1975, e o triunfo do Vietname do Norte, anexando o Vietname do Sul).

Na origem do documento está a criação de uma equipa de investigadores da história do Vietname no século XX, analisando, em particular, a presença dos EUA naquela região asiática. Reunidos por Robert McNamara, secretário da Defesa dos presidentes John F. Kennedy e Lyndon B. Johnson (de 1961 a 1968), tais investigadores produziram um documento de sete mil páginas cujo impacto pode condensar-se em dois vetores fundamentais: primeiro, a inventariação das muitas formas de envolvimento dos EUA na Indochina desde as décadas de 1940-50, no tempo do presidente Harry S. Truman; depois, o reconhecimento da impossibilidade de uma vitória militar no conflito em que os EUA se tinham empenhado de modo especialmente intenso desde o começo dos anos 1960.

O filme de Spielberg aborda esse processo a partir de um momento de peculiar dramatismo, pouco depois de uma primeira divulgação de alguns elementos dos Pentagon Papers nas páginas de The New York Times, a 13 de junho de 1971. E o mínimo que pode dizer-se da sua invulgar energia emocional é que, apesar de sabermos ou podermos saber o que aconteceu, nada disso retira a The Post um suspense tão elaborado quanto contagiante.

Mais do que um confronto de discursos políticos, Spielberg narra uma saga de pessoas envolvidas num complexo labirinto profissional e moral. Quando The Washington Post tem acesso aos Pentagon Papers, surge também uma questão de concorrência jornalística: era a oportunidade de um jornal ainda de escassa projeção nacional desafiar o mítico The New York Times. Mas o problema de fundo afigurava-se bem diferente: tendo em conta que a administração Nixon acionara os mecanismos legais para impedir qualquer nova publicação de extratos do documento, The Washington Post estava forçado a ponderar a equação resultante das tensões entre segredos de Estado e interesse público. Como diz o editor Ben Bradlee (Tom Hanks) a Katharine Graham (Meryl Streep), proprietária do jornal, podiam ser todos presos.

Até ao Watergate

Para além da atualidade da reflexão sobre os modos de convivência, porventura de conflito, entre imprensa e poder político, The Post é mais um filme que desmente, ponto por ponto, a noção simplista (com grande cobertura mediática) segundo a qual a produção cinematográfica americana se esgota numa coleção de aventuras de super-heróis e efeitos especiais.

Aliás, The Post pertence a uma galeria de grandes filmes políticos que os EUA produziram nos últimos anos, incluindo A Ponte dos Espiões, também de Spielberg, sobre um episódio da Guerra Fria, Detroit, de Kathryn Bigelow, evocando os motins de 1967 naquela cidade, ou Derradeira Viagem, de Richard Linklater, centrado num veterano da guerra do Vietname cujo filho, cerca de quatro décadas mais tarde, morre em combate no Iraque.

Nada disso implica qualquer negação do star system de Hollywood. Bem pelo contrário: ao entregar os papéis de Bradlee e Graham a Tom Hanks e Meryl Streep, respetivamente, Spielberg joga com o seu prestígio popular para nos envolver na teia de ideias e afetos decorrentes da sua prática profissional. Em particular no caso de Streep, a sua admirável composição de uma mulher com importantes poderes num mundo dominado por valores masculinos faz mais pela exaltação do fator feminino do que a histeria de muitos discursos panfletários, indiferentes à multiplicidade de fatores de cada conjuntura histórica.

Estamos perante um brilhante relançamento do mais genuíno cinema liberal de Hollywood. Entenda-se: liberal não envolve, neste contexto, qualquer sentido partidário, decorrendo do empenho em discutir o lugar da verdade no interior das dinâmicas, eventualmente das contradições, de uma sociedade democrática. The Post é mesmo um filme cujos valores narrativos nos remetem para momentos emblemáticos da produção dos anos 1960/70 como Sete Dias em Maio (1964), de John Frankenheimer, Três Dias do Condor (1975), de Sydney Pollack, ou Os Homens do Presidente (1976), de Alan J. Pakula. Vale a pena recordar que este filme de Pakula narra o trabalho de Carl Bernstein e Bob Woodward, também jornalistas de The Washington Post, sobre o escândalo Watergate e a subsequente queda de Nixon, em 1974 - dir-se-ia que, com quatro décadas de antecipação, Pakula realizou a sequela do filme de Spielberg.

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