Slow J entra pela porta grande do Super Bock Super Rock

O cantor, músico e produtor setubalense é a mais recente confirmação para o festival. Aos 24 anos, é um dos nomes do momento

Ainda não passaram duas semanas, mas os gritos da multidão a repetir o seu nome, no final do concerto de apresentação do álbum de estreia, ainda ecoam na cabeça de Slow J, um dos nomes mais falados (e ouvidos) dos últimos tempos na música portuguesa que, sabe-se hoje, é a mais recente confirmação para o festival Super Bock Super Rock, onde atua a 14 de julho. Já lá tinha estado o ano passado, mas regressa agora com um outro estatuto, "tanto em termos de palco como de cachet", como o próprio faz questão de sublinhar, com humor.

Compreende-se, até porque não são todos os artistas que se podem gabar de esgotar por completo, com um dia antecedência, uma sala de com lotação para mil espectadores, tocar do princípio ao fim um disco que ninguém conhecia e sair do palco em total apoteose. "Ainda estou um bocado a aprender a lidar com isso, o que tem sido mais engraçado é o contraste. O concerto teve uma energia fantástica, estava completamente esgotado, fartei-me de dar autógrafos no final, mas no dia seguinte, ao chegar a casa, tive de ir aspirar o chão e fazer o almoço", ironiza.

Foi em 2013, quando regressou de Londres, onde estudou engenharia de som, que João Batista Coelho se deu a conhecer como Slow J, como o EP The Free Food Tape. Um conjunto de sete temas apenas, que foi o suficiente para iniciar um fenómeno de culto como há muito não se via na música portuguesa. Logo ali deu para ver que Slow J era muito mais que um simples rapper - sim, o hip-hop serviu de ponto de partida, mas seus os horizontes são muitos mais amplos. Como demonstrava em Cristalina, o tema entretanto tornado viral com que terminava o disco, no qual parecia juntar James Blake com Manel Cruz sem nunca deixar de soar a algo novo, que apetece ouvir mais e mais - não é a isto que se convencionou chamar de pop?

"É um pouco estranho, isso dos rótulos. O disco que fiz tanto podia estar numa prateleira de hip-hop, como numa de música portuguesa, de pop ou até de world music. Gosto de fazer o que me apetece, não há outra forma de explicar a minha música. Sou assim em tudo na vida", explica. Coloque-se então a questão de outra forma: músico, cantor, produtor, rapper? "Prefiro ser apresentado como João (risos). Já nos meus tempos de escola me dava tanto com a malta do metal como com a do hip-hop. Se calhar é algo que herdei da minha família, o meu pai é angolano e a minha mãe portuguesa. Tenho primos de todas as cores. Nunca gostei de catálogos a tentar definir quem sou. Sou um ser humano que faz música".

Quero ser um produtor de nível mundial, para poder trabalhar com os melhores. E para o conseguir tenho de criar uma sonoridade única, só minha

Em The Art of Slowing Down tanto canta, como rima ou toca, ao longo de 14 temas "totalmente esquizofrénicos" (palavras do próprio), feitos de hip-hop e eletrónica, mas também de semba, de fado e até de rock. Tudo sem preconceitos e até com uma certa dose de ingenuidade. "Gosto de muita coisa e estou sempre a tentar encontrar algo novo. Identifico-me muito mais com os músicos que definiram como a música iria ser e não tanto com os seguidores. É isso que eu também tento fazer", confessa. Com tempo e sem pressas, apesar de todo o repentino reconhecimento, que, assegura, não lhe vai subir à cabeça. "Não sinto que tenha explodido nada, porque foi tudo muito gradual, baseado em trabalho consistente e em subir degrau a degrau".

O objetivo está bem definido e, quanto a isso, Slow J não faz a coisa por menos: "Quero ser um produtor de nível mundial, para poder trabalhar com os melhores. E para o conseguir tenho de criar uma sonoridade única, só minha. A mistura é que ainda não está assim tão apurada, ainda se notam muito as peças, mas isso faz parte do processo de crescimento".O estúdio é o laboratório onde procura incansavelmente esta fórmula perfeita, mas o palco revelou-se também um território com muito por explorar.

Ao vivo, Slow J é acompanhado por Fred Ferreira, na bateria, e por Francis Dale nas teclas e guitarra. Serão também eles que estarão no dia 14 de julho, naquele que se espera ser mais um concerto de consagração para Slow J. "Estamos a magicar algo especial, mas ainda não sabemos o quê", adianta. Uma das pessoas que gostaria de ver presente é o trompetista que faz o solo no tema Biza, que conheceu por acaso, na estação do Cais do Sodré. "Estava a ouvir a música e sentia que faltava qualquer coisa, quando ouvi aquele trompete. Era um engenheiro aeronáutico grego que vivia em Paris e havia desistido de tudo para viver o sonho de ser músico", recorda. No dia seguinte ia embarcar para Cuba, mas antes ainda foi ao estúdio, gravar o tal solo, em troca de uma garrafa de vinho e de uma travessa de bacalhau feito pela mãe de Slow J, porque a boa música também é feita destes encontros furtuitos. E de muita generosidade...

Exclusivos