Serpa chora a morte de um dos mais ilustres filhos da terra

Apesar de ter saído de Serpa aos 10 anos, Nicolau Breyner manteve sempre a ligação à terra que ainda está em choque

O Monte da Promessa, a poucos quilómetros de Serpa na estrada que conduz ao Pulo do Lobo, era o refúgio de Nicolau Breyner quando se deslocava à terra onde nasceu a 30 de julho de 1940. Era ali que gostava de montar a cavalo, andar de trator... cuidar da terra.

Quando Nicolau comprou o monte, "seguramente há mais de 20 anos", conforme conta um amigo, a propriedade tinha outro nome. "Chamava-se Acossa Lobos e era uma taberna onde iam os trabalhadores das propriedades em volta." Decidiu mudar-lhe o nome em homenagem à mãe, numa espécie de promessa de um dia voltar a residir no Alentejo, terra "onde estavam as suas raízes e onde se sentia bem", desabafa João Pereira, primo e compadre.

Na noite de domingo, João Pereira tentou falar com o amigo. Ligou-lhe para o telemóvel mas ninguém atendeu. Estranhou não ter obtido resposta. E ficou em choque quando, horas depois, soube que o ator tinha morrido quando se encontrava, sozinho, em casa.

"Estamos tristes por demais. Não se estava à espera de uma coisa destas pois parecia que vendia saúde, estava sempre bem-disposto e sempre alegre", recorda o compadre.

Quando se encontrava em Serpa, Nicolau Breyner era presença habitual no Alentejano, um dos restaurantes com mais tradição na cidade, situado na Praça da República, a dois passos da autarquia. "Era um homem de petiscos, gostava de uma sopa de cação, de um gaspacho... às vezes quando vinha a caminho pedia-me que preparasse um gaspacho para levar para o monte", diz Arlindo Reis, proprietário do restaurante e presidente da Casa do Benfica de Serpa, da qual Nicolau era o presidente da assembleia geral. "Perdi um bom amigo, um dos mais ilustres da terra."

Arlindo Reis revela que o ator gostava de passar uns dias no Alentejo mas só no tempo do calor, "quando as temperaturas estavam nos 30 e muitos ou 40 graus". "Não gostava do frio", garante.

Quando levava amigos ao Alentejano, era frequente ver Nicolau Breyner atravessar a praça e dirigir-se ao Museu do Relógio, fundado por Tavares de Almeida, seu amigo de longa data. O filho do fundador do museu, Eugénio Tavares de Almeida, também conviveu de perto com o ator, cuja morte considera ser uma "perda irreparável" para a cidade: "O João Nicolau, como muitos o conhecíamos aqui em Serpa, era um grande embaixador da região do Alentejo em todo o país e no mundo."

Apesar de ter saído de Serpa ainda na infância, Nicolau Breyner manteve a ligação à terra e às suas gentes. Na década de 90, a convite de Manuel Monteiro, chegou a candidatar-se à presidência da autarquia tendo conseguido eleger dois vereadores em sete, o melhor resultado de sempre do CDS no Alentejo, num concelho onde o PCP é, desde 74, força dominante.

Do outro lado da barricada encontrava-se João Rocha, um dos "dinossauros" da CDU, que ganhou não só as eleições como um bom amigo. "O Nicolau vai fazer--me muita falta. Conversávamos muito sobre a vida e partilhávamos muitos sonhos. Era um bom sonhador, ensinou-me muito", diz João Rocha, atualmente a presidir à Câmara de Beja.

Segundo João Rocha, um dos sonhos "mais intensos" de Nicolau Breyner estava em vias de se concretizar. "Ele dizia sempre que gostava de um dia voltar à região e agora estava numa fase da vida em que poderia concretizar esse sonho." Entre os projetos do ator e realizador estava o lançamento da Sulvisão, o primeiro canal de televisão por cabo emitido a partir do Alentejo num investimento de 5 milhões de euros a concretizar ao longo dos próximos dois anos.

Também a Câmara de Serpa se associou ao "momento de profundo pesar pelo falecimento" do ator. "Embaixador de Serpa e do Alentejo, homem das artes e da cultura, Nicolau Breyner permanecerá ligado a Serpa, relação que a câmara pretende enaltecer propondo atribuir o seu nome ao cineteatro municipal, após obras de requalificação", diz fonte da autarquia, cujo presidente, Tomé Pires, disse estar "em choque" com a morte de um dos mais ilustres filhos da terra. "É um sentimento de perda que temos aqui no concelho, em primeiro lugar pela pessoa e, depois, por todo o seu trabalho", concluiu o autarca.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG