"Sei que estas coisas são efémeras, e ainda bem", diz Salvador

À chegada. Uma multidão esperou horas no aeroporto de Lisboa, gritava por Portugal e por Salvador. O salvador da Eurovisão?

Centenas de pessoas esperavam Salvador Sobral ontem à tarde no aeroporto de Lisboa vindo de Kiev, onde conquistou o primeiro lugar no Festival Eurovisão da Canção, um feito inédito para Portugal. Entre elas, Maria Patriarca, 62 anos, vinda de Fátima. "Vim por me ter lembrado da emoção que foi para a Simone quando ela chegou de comboio a Santa Apolónia. Imagino que ele não goste destas coisas, mas quis vir", afirma.

Salvador e a irmã, Luísa, autora da vitoriosa Amar pelos Dois, foram surpreendidos pela multidão quando desceram as escadas rolantes do aeroporto, rodeados de polícias, de gritos de "Portugal, Portugal" ou "Salvador, Salvador". A emoção, essa palavra que tanto se lhes ouviu nos dias que passaram em Kiev, estava agora nos seus rostos, captados pelas câmaras e pelos muitos telemóveis que procuravam também captar o momento. E, claro, cantou-se: "Meu bem, ouve as minhas preces/ Peço que regresses, que me voltes a querer/ Eu sei que não se ama sozinho/ Talvez devagarinho possas voltar a aprender".

Antes, durante a conferência de imprensa, Salvador Sobral, 27 anos, quis deixar claro que cantar e "tocar por aí" é o que quer fazer. "Sei que estas coisas são efémeras, e ainda bem. O que tenho de fazer é a minha música e tocar por aí", disse, confessando o que sente quanto às "armas tecnológicas" que as pessoas têm à sua disposição e são usadas quando ele come ou até quando dorme. "São superstressantes." "Eu gosto quando as pessoas me dizem que gostam da canção, mas as fotos, os telemóveis, é uma coisa que me deixa supertriste e que invade o meu espaço."

E foi, enfim, Amar pelos Dois, que trouxe Maria a Lisboa. "Não é por ter ganho, é por reconhecer a qualidade. É emocionante." Estaria no aeroporto mesmo que Salvador não tivesse ganho, disse ao DN. Tal como a professora de Educação Física Joana Maurício, 38 anos e fanática pelo Benfica, que soube no Marquês de Pombal, entre festejos, que Amar pelos Dois tinha vencido a Eurovisão. "Foi uma emoção ouvir lá a música." Diz que não é "propriamente fã do festival", mas deixou-se conquistar devagarinho e até já tem bilhete para o concerto de Salvador Sobral no Centro Cultural de Belém, a 2 de junho. "Às vezes é a diferença que conquista as pessoas", argumenta.

Racionalizando a vitória de Portugal, por 758 pontos (e a quase 150 do segundo classificado, a Bulgária), Salvador considerou que "o idioma aqui, mais do que a língua, foi a música". "As pessoas na Europa não perceberam uma única palavra. Eu podia estar ali a dizer "vão-se lixar, a Europa não serve para nada, queremos sair, eles não percebiam nada", mas, claro, que a língua portuguesa estava ali muito bem representada", referiu, confessando o seu cansaço. Eram 16.30 quando falou, ao lado da irmã, aos jornalistas. " Mensagem tem de lá estar, qualquer que seja a língua, e nós temos de perceber o que se está a cantar, qualquer que seja a língua, porque tem de sentir", acrescentou a compositora. Ambos foram surpreendidos com a presença da avó no aeroporto.

Luísa Sobral fez questão de agradecer à equipa da RTP o facto de nunca terem exigido mudar ou adaptar nada. "Funcionou porque ninguém o tentou mudar", disse, sobre o trabalho com o irmão. Salvador reconheceu que houve momentos difíceis. "Termos ganho com uma canção assim pode significar mudança. Tive momentos de dúvida em que sentia que me prostituía, porque não tenho nada a ver com aquilo", afirmou.

A canção portuguesa recebeu os prémios Marcel Bezençon de interpretação e composição, ganhou com 758 pontos, tendo recebido a pontuação máxima, 12 pontos, por parte de 18 países e do televoto. A escritora J.K. Rowling anunciou que Amar pelos Dois era a sua preferida, Caetano Veloso apelou ao voto em Salvador Sobral. Nuno Galopim, jornalista e crítico de música, uma das pessoas que estiveram nos bastidores da organização do Festival da Canção, defende que "uma grande canção não tem de ser fabricada para a Eurovisão". E o concurso é "uma plataforma internacional incrível para os músicos portugueses". Na noite de sábado, o Festival da Eurovisão foi transmitido para a Austrália, a China, o Japão. "Tem um tremendo impacto para a lusofonia", diz. O programa é visto por mais de 200 milhões de pessoas pelo mundo. Em Portugal, foram 1,2 milhões, segundo os números da RTP.

E qual o impacto na carreira de Salvador Sobral? "Ainda não sei como vou lidar com isto, acabou de acontecer. Espero continuar a fazer as coisas com tranquilidade", explicou, e, fazendo rir a sala, acrescentou: "Se calhar temos de cobrar um bocadinho mais pelos concertos."

O troféu vai para casa dos pais, outro, mais pequenino, foi entregue à RTP. "Fomos obrigados." Afinal, o próximo Festival Eurovisão da Canção é em Portugal.

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