Secretária e máquina de escrever seriam de Pessoa?

Os herdeiros do antigo proprietário da Sociedade Africana de Explosivos (SAE) negam que a secretária e máquina de escrever rematadas em leilão, no dia 22, tenham sido utilizadas por Fernando Pessoa, enquanto a leiloeira garante que foram.

Os quatro netos de Francisco Fernandes Camello, que em 1922 adquiriu a SAE, afirmam que a informação veiculada pela leiloeira World Legend-Leiria & Nascimento, segundo a qual aquelas peças tinham sido utilizadas por Fernando Pessoa, enquanto empregado de escritório, "não corresponde à verdade", afirmam num comunicado enviado à agência Lusa.

Os herdeiros sustentam que "o escritório, sito no Largo do Corpo Santo, nº28-1º, onde se encontravam as referidas máquina de escrever e secretária, sempre pertenceu à Sociedade Africana de Pólvora e não à Sociedade Portuguesa de Explosivos", conforme informação da leiloeira.

No comunicado, os herdeiros acrescentam que "Fernando Pessoa nunca teve qualquer vínculo laboral com a Sociedade Africana de Pólvora", apesar de Francisco Fernandes Camello ter conhecido o poeta que lhe ofereceu um exemplar de "A Mensagem", com uma dedicatória assinada.

Os autores do comunicado, que contestam que Fernando Pessoa tenha utilizado quer a secretária quer a máquina de escrever, invocam os testemunhos orais familiares, segundo os quais "Francisco Fernandes Camello conhecia Fernando Pessoa e que este trabalhava num escritório perto do dele".

"Nunca o pai dos signatários [Manuel Camello que a partir de 1966 passou a gerir a SAE], ou qualquer das suas irmãs, referiu existir qualquer mobiliário, ou máquina de escrever que Fernando Pessoa tenha utilizado", afirmam os autores do documento.

Contactada por telefone pela agência Lusa, a leiloeira respondeu num comunicado no qual contesta as declarações dos herdeiros de Francisco Fernandes Camello, afirmando que "está pesquisado por várias fontes, e documentado, que na realidade Fernando Pessoa trabalhou para o Sr. Francisco Camello, acionista de ambas as entidades, tendo executado trabalhos tanto para a Sociedade Portuguesa de Explosivos como para a Sociedade Africana de Pólvora".

"Embora seja possível afirmar que as peças façam parte da Sociedade Africana de Pólvora (nos escritórios partilhados com a Sociedade Portuguesa de Explosivos), já não é possível dizer que não foram usadas por Fernando Pessoa", argumenta a leiloeira.

"A Sociedade Portuguesa de Explosivos e a Sociedade Africana de Pólvora são duas empresas que à época tinham sede no mesmo escritório, sendo propriedade dos mesmos acionistas, e usando equipamentos comuns", atesta a World Legend-Leiria & Nascimento.

A secretária em mogno, com tampo de esteira, quatro gavetas de cada um dos lados, o interior forrado a pele verde e com diversos compartimentos, e a máquina de escrever, da marca Royal, foram rematadas pelo diplomata brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho, autor de "Fernando Pessoa - Uma quase autobiografia", por um valor global de 94.751 mil euros, no passado dia 22.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG