"Se disser que Gungunhana reapareceu os africanos acreditam"

Escritor moçambicano apresentou em Óbidos primeiro volume da trilogia Mulheres de Cinza

É errado dizer que este livro tem um registo diferentes dos anteriores?

Está certo. Interessou-me mais a própria história do que a escrita. Nos outros livros dividia-me entre o objeto ser a própria escrita e contar uma história, que é o que quero mesmo desta vez. A linguagem está mais colocada ao serviço do chão desta história e a preocupação de criar palavras esteva afastada, mesmo que o lado poético continue sempre presente.

Foi complicado conjugar na investigação o lado do colonialista e o do colonizado?

É complicado mas foi uma complicação boa, até porque foi um desafio já que a História que nos contaram de um lado e de outro, as que Moçambique e Portugal fabricaram, foi empobrecedora por esquecer outras histórias. Mesmo nas fontes que parecem ser mais rigorosas porque são escritas existem versões muito divergentes. Há um trabalho notável, que até custa elogiar, que é o de Marcelo Caetano, ao juntar toda aquela correspondência e interpretá-la de um modo singelo que mostrava as linhas de fratura e de conflito entre militares e políticos porque havia uma linha que propunha uma negociação entre o Estado de Gaza [de Gungunhana]e as terras da Coroa. As releituras desse passado, no entanto, facilitam a reconciliação dos povos.

O Estado de Gaza é território inesperado para os leitores portugueses?

Provavelmente desconhecem o que é e onde fica e só sabem que existia alguém chamado Gungunhana. À volta dele foi criada uma grande ficção, até porque era preciso desligá-lo da sua própria história de luta com as múltiplas alianças com o exército português, do qual foi coronel. Não esquecer que durante períodos longos teve a bandeira portuguesa hasteada à porta de casa.

A figura de Mouzinho de Albuquerque também é controversa?

Ele próprio é uma figura literária, trágica e em conflito consigo mesmo e o mundo. Que antes de se suicidar, praticou na captura de Gungunhana uma ousadia de quem não se importava de morrer, pois o que ele fez com a informação que tinha, nada lhe dava a indicação de que aquele império já estava desmoronado. Quando ele assalta a corte de Gungunhana não teve resistência mas desconhecia essa situação que o esperava e sabia que era uma cruzada suicida. Há uma grandeza emprestada ao ato da captura porque o regime precisava de mostrar aos europeus com quem estava em conflito que fizera uma grande façanha.

A palavra morte não aparece mais frequentemente?

Nos outros também aparece, porque a morte é um momento muito presente por causa da guerra. Também porque tem um sentido diferente para os africanos, para quem a morte existe doutra maneira: os mortos nunca morrem. Eles estão presentes e se eu disser a alguém que o Gungunhana reapareceu e está a cometer uma ação em algum sítio os africanos acreditam.

Ao relatar a transladação de Gungunhana dos Açores diz que em vez dos restos mortais seguiu areia. É uma metáfora?

Sim, é uma metáfora, porque há leituras diversas e sem unanimidade dessa situação. Não faço a defesa do que realmente veio dentro da urna, parece que seriam ossadas de outra pessoa, porque o valor disso é só simbólico. Para mim, o importante é o lado metafórico de que o que volta já não é senão a própria terra.

Aliás, a terra aparece em vários momentos deste livro.

É como se a terra fosse uma personagem e, num certo cenário, a terra é tão importante como qualquer outra daquela história.

Porquê Gungunhana?

A intenção não é contar a sua história mas a de um tempo e de um conflito que até em Moçambique está até agora mal resolvido. Estou a escrever uma história para dentro, principalmente para o meu país, só depois é para os leitores de fora. Quanto a ele, é muito rico do ponto de vista literário porque é resultado de conflitos que do ponto de vista humano são riquíssimos. Até se pode dizer que Gungunhana e Mouzinho são personagens shakespearianas.

Teve uma preocupação histórica ou é a ficção que comanda?

Fiz a reconstituição do que é verosímil e tem fundamento histórico, mas é preciso não esquecer que a História solene também é uma construção e tem o seu lado de ficção.

Decidiu-se por uma trilogia logo de início?

Foi só ao continuar a escrita. À medida que fui percebendo a riqueza das contribuições das fontes portuguesas e moçambicanas percebi que precisava de fazer um livro muito maior.

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