"São nove telas de Beethoven em exposição no Terreiro do Paço"

A Orquestra Metropolitana de Lisboa apresenta, entre hoje e sábado, sempre às 21.30, a integral de todas as sinfonias de Beethoven. Falámos com o maestro, Pedro Amaral, na grande praça lisboeta

Esta apresentação integral das sinfonias de Beethoven em quatro dias consecutivos ao ar livre em Lisboa foi um desafio da Metropolitana à EGEAC. Porquê?

Nós estamos a viver um momento muito especial na Europa em que há um desinvestimento nas grandes estruturas que são as orquestras. Se há muito pouco tempo cidades na Alemanha quase contíguas tinham cada uma a sua orquestra, de há dez anos para cá há a tendência para as orquestras se aglutinarem e das duas ficar apenas uma que serve as grandes cidades. Isso ainda não chegou cá a Portugal, mas vai chegar, é um espírito do tempo e eu penso que hoje em dia para que as orquestras possam sobreviver como estruturas que são devem reforçar o seu laço de ligação com o público e é nisso que estou profundamente apostado. Temos de ter projetos absolutamente emblemáticos. Este é um deles. Poder assistir em quatro dias consecutivos a um quarto de século da história da música é qualquer coisa de especial.

Como é que se prepara para quatro concertos destes?

Eu não paro de me preparar. Eu já dirigi estas obras todas e todos os dias me levanto cedo e começo a estudar como se fosse a primeira vez. Passei as minhas férias com Beethoven [risos] e todos os dias pratico. Antes de adormecer ainda interpreto na minha cabeça pelo menos uma das sinfonias. Ao longo destes dias estão sempre a voltar a mim algumas delas, de memória, e a qualquer momento me surge uma forma de fazer, procuro um gesto novo.

Tem alguma sinfonia preferida?

Todas... todas. É espantoso. Não digo isto para ser politicamente correto mas de facto não consigo escolher. Cada uma delas é um mundo. Mesmo as primeiras sinfonias são já modelos extraordinários. Há uma coisa muito interessante em Beethoven. Enquanto em Mozart nos não sentimos o trabalho do homem, é como se aquilo tudo fosse uma inspiração divina (que não é, é inspiração dele), Mozart falava uma língua de tal modo escorreita que nós não sentíamos o árduo trabalho. Em Haydn pelo contrário há uma experimentação constante. Ele tinha a sua própria orquestra no palácio dos Eszterházy, e eu penso que ele em cada sinfonia experimentava uma coisa, é um livro de laboratório cada uma daquelas partituras. E Beethoven herda de Haydn e há uma experimentação constante. Sente-se o trabalho de compositor, mas há uma experimentação inesgotável. Isso faz parte da frescura da obra.

O Terreiro do Paço foi primeira escolha para o espetáculo?

Nós fazemos sempre um concerto ao ar livre. Temos imenso gosto em participar nesta extraordinária aventura que a EGEAC promove todos os anos [Lisboa na Rua], fizemos muitos anos no Largo de São Carlos e temos feito na Praça do Município. Neste ano alargámos o público à Praça do Comércio. Devo dizer que não sou um fã, como músico, de concertos ao ar livre. Como público gosto muito, como músico é terrível.

Porquê?

Há uma razão mais prosaica, que é quando há vento estar com uma partitura à frente sobretudo para os músicos que têm mesmo de estar, não tocam de cor, é um sufoco, tem de estar presa por elásticos, passar as folhas é um tormento.

E o ruído da cidade?

Quando estamos lá no meio envolvidos naquilo não é por aí. A grande dificuldade é acústica. Nós normalmente preparamo-nos dentro de uma sala, não fazemos ensaios ao ar livre. Dentro de uma sala ouve-se tudo, portanto nós polimos como uma joia cada uma das cordas, cada acorde. E para isso temos de nos ouvir uns aos outros. E quando chegamos ao ar livre não há acústica. Para já não temos controlo direto sobre o que sai, nós agimos mas não reagimos, ao passo que dentro de uma sala de concerto nós agimos e reagimos, ou seja, ou agimos em conformidade ou contrariamos. Ao ar livre não dá. Por isso, do ponto de vista da perfeição interpretativa, fazer concertos ao ar livre é uma coisa que me desagrada muito. Por outro lado tem esta coisa de ser maravilhoso contactar com o público que está super entusiasta numa praça lindíssima como esta, aberta ao imenso Tejo.

E qual é o público que virá aqui? São aquelas pessoas que vão à sala, mais puristas, ou vai captar um público diferente, mais descontraído, ocasional, turistas?

É uma bela pergunta, eu acho que será sobretudo o segundo público. O primeiro é o público que nos vai ouvir a Sintra, ao Centro Cultural Olga Cadaval [13 a 16 de outubro] porque é uma sala de concertos.

E tem expectativa de ir buscar novo público para os concertos em sala?

É possível, não sei. Temos feito crescer muito o nosso público. A Metropolitana praticamente triplicou o público em três anos, o que é muito impressionante.

O que é que traz ao público a apresentação integral de uma obra? Porque as sinfonias de Beethoven não são as únicas integrais da temporada, vão ter também os concertos para violino de Mozart...

Da mesma forma que abrimos a temporada com a integral de Beethoven fechamos com a integral dos concertos para piano de Liszt, com o maestro Adrian Leaper e Artur Pizarro ao piano. Pelo meio temos uma integral dos cinco concertos para violino de Mozart. Eu diria que para o público é interessante porque ouve a obra não só como uma obra individual mas tendo uma noção completa do conjunto, do princípio, meio e fim daquilo que aquele compositor fez naquele domínio. Não há em música esta ideia mas eu gosto muito dela, é como quando nós vamos ver por exemplo em Madrid a integral do Bosch - não é integral mas uma grande retrospetiva. No Beethoven estamos a fazer a integral das sinfonias, não do Beethoven. São aquelas nove telas. As cinco telas dos concertos para violino de Mozart ou os dois magistrais frescos de Liszt para piano e orquestra. Dão ao público a possibilidade de ver, como numa exposição especificamente dedicada ao autor, o pensamento daquele autor sobre aquele tema.

É isso que vamos ter no Terreiro do Paço, uma exposição?

É isso mesmo. E é uma coisa que me fascina muito, é um quarto de século de história daquele compositor que carregou às costas, com uma força hercúlea, a história da música.

As pessoas vivem na era das redes sociais em que absorvem a informação de forma instantânea e fragmentada. Isto que está aqui a propor, uma integral, é de certa forma uma provocação ou haverá uma procura por esta informação mais completa e demorada?

É contraciclo, é verdade. Não tinha pensado nisso. Isso de que fala é quase uma marca do tecido social e a cultura não é isso. E essa marca contemporânea do tecido social, essa fragmentação da informação, talvez aguce o apetite das pessoas para outra coisa, e é a cultura que preserva essa outra coisa, seja a cultura do romance seja literária, da música e da pintura. Temos outros projetos desse género. A integral das sinfonias é irrepetível mas temos outros projetos para os próximos anos, não de integral mas de mostrar uma fatia de história e da obra de um grande músico ao público que não posso já revelar.

De certeza que vai ter aqui pessoas a filmar com o telemóvel. A pôr nas redes sociais uns bocadinhos, umas fotos, e isso seria estranho à obra de Beethoven e à forma como ele gostaria de ser escutado...

Sim. Não me choca que possam captar o fragmento da sua experiência e partilhá-lo, mas uma coisa não substitui a outra. De facto são duas dimensões diferentes.

Há algum truque para acompanharmos melhor os concertos?

Ver de frente e estar o mais central possível porque as colunas vão estar equidistantes em relação ao epicentro do palco, e quanto mais ao centro estivermos mais o equilíbrio estereofónico é feito. E aconselho que as pessoas venham com agasalhos porque geralmente o Terreiro do Paço à noite é fresquinho.

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