Robert Wilson contou a história da sua "pura dança"

O encenador e dramaturgo norte-americano inaugurou este domingo o Fórum do Futuro, no Porto, com uma conferência-performance centrada no seu percurso artístico e processo criativo.

Foi anunciado como preferem que o tratem, não Robert, mas Bob Wilson. Logo após entrar no palco sob os aplausos da sala quase cheia, ficou de pé, imóvel, vários minutos sem proferir uma palavra. Só muito mais à frente o ouviríamos falar acerca da importância de saber estar imóvel em palco.

O encenador e dramaturgo norte-americano inaugurava assim, com a conferência-performance 1. Have you ever been here before.2. No this is the first time, o Fórum do Futuro que começou este domingo e até dia 30 traz ao Porto especialistas de diversas áreas - da arquitetura à neurociência ou à literatura - para debater o amanhã.

Assim que se dirigiu à plateia do teatro do Rivoli afirmou: "A razão pela qual trabalho como artista é para pôr perguntas. É para perguntar 'o que é', não para o dizer." Wilson começou por contar as reações à vida cultural de Nova Iorque dos anos 60 de um rapaz vindo da pequena cidade Waco no estado norte-americano do Texas. "Fui à Broadway, não gostei, ainda não gosto da maior parte. Fui à ópera e não gostei, ainda não gosto da maior parte. Fui ver [o coreógrafo russo] George Balanchine e o New York Ballet e gostei muito, ainda gosto."

A dança, que o encenador considera ainda hoje a sua "inspiração", terá sido o primeiro traço do desenho de uma carreira já reconhecida, por exemplo, com um Leão de Ouro na Bienal de Veneza, um prémio da fundação Rockefeller e dois da fundação Guggenheim.

Outra dos traços desta história, contava ainda perante um Rivoli quase cheio, é a entrada de Raymond Andrews na sua vida. O encenador tinha então 27 anos quando um rapaz surdo afro-americano de 13 anos está prestes a ser espancado por um polícia cujo braço é agarrado por Wilson, que acabou por adotá-lo.

Da necessidade de comunicação inicialmente estritamente visual entre os dois vieram os desenhos de Raymond, que acabaram por inspirar as primeiras peças do encenador. Assim nascia Deafman Glance em 1970, uma peça inteiramente em silêncio com a duração de sete horas. A longa duração tornou-se, aliás, cunho do trabalho do encenador, que conta, por exemplo, com The Life and Times of Joseph Staline, de 12 horas, e KAMOUNTAIN AND GUARDenia TERRACE, uma performance de sete dias nas montanhas do Irão.

Entre teoria estética e pequenas histórias, Bob Wilson, foi desenhando o seu percurso artístico, que passa ainda por um nome determinante: Christopher Knowles. Um rapaz que surpreendeu o encenador com a capacidade de conceber estruturas "visual e matematicamente perfeitas" e de "perceber grandes padrões rapidamente".

Terá sido em parte devido a Knowles e àquela que considera a "melhor aula que teve na vida" que Wilson apura o seu método de trabalho. O encenador contou como uma professora de Arquitetura pediu aos alunos que desenhassem uma cidade em três minutos. O desenho de Wilson, projetado durante a conferência, mostrava uma maçã com um cubo de cristal dentro. "O cubo de cristal pode refletir o universo, o mundo."

Do seu método, que foi deslindando este domingo com exemplos da sua obra, disse que "cria uma estrutura" que quem com ele trabalha "depois começa a preencher". O mais importante, dizia aquele para quem o seu teatro é "pura dança", é a interseção entre tempo - "uma linha vertical que vai do centro da terra até ao céu" - e espaço, "que é horizontal".

As perguntas feitas pelo público no final da conferência trouxeram histórias do seu trabalho com artistas como Lady Gaga ou Tom Waits, que se juntam na carreira do encenador a uma longa lista que inclui Philip Glass, Marina Abramovic ou Lou Reed.

Questionado acerca da repetição ao longo da sua obra, Wilson responde prontamente: "Sim, é assim que se aprende. Oiçam: esta sequência de sons [que passou], nunca mais vai ser a mesma. Não tenham medo de repetir."

Veja aqui o retrato de Lady Gaga:

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