Ricardo Mealha pôs Portugal a gostar do seu passado

Autor da imagem do Luz e de A Vida Portuguesa morreu no domingo, aos 47 anos.

Ricardo Mealha, designer português ligado à imagem de bancos, instituições públicas, culturais e a muitas marcas nacionais, morreu ontem, aos 47 anos, vítima de um tumor cerebral que lhe foi diagnosticado há mais de um ano.

Nascido em Lisboa a 22 de outubro de 1968, estudou na Academia de Música Santa Cecília e no Colégio S. João de Brito. Fundou o atelier RMAC em 2001, vendido seis anos depois à BBDO. Era atualmente sócio e diretor criativo da Brand Gallery. Recebeu mais de 80 prémios de design ao longo da sua carreira e trabalhou para instituições públicas e empresas privadas, entre elas A Vida Portuguesa de Catarina Portas.

"Além de incrivelmente talentoso, ele era generoso como poucos - foi o Ricardo que me ajudou a criar a imagem de A Vida Portuguesa. E depois dos Quiosques. E ainda mais tarde, dos xaropes do Quiosque de Refresco. Quando eu não tinha dinheiro para lhe pagar, o Ricardo passava noites comigo a paginar livrinhos sobre marcas antigas com igual empenho, levava-me à tipografia antiga onde descobríamos as andorinhas que haveriam de esvoaçar sobre o nosso logotipo", contou a empresária, ontem, na sua página do Facebook, lembrando que se conheciam há 20 anos. "Era o nosso designer-residente, a conceber a sinalética e a trazer garrafas de champanhe no dia da abertura. Sempre amigo, sempre cúmplice, sempre entusiasmado, sempre resistente. Vai ser muito difícil continuar sem ti, meu adorado amigo Ricardo."

"Trabalhou muito na área da cultura e criou sempre valor acrescentado, criatividade e legibilidade", afirma Bárbara Coutinho, sobre o designer, autor do logótipo da instituição que dirige, o MUDE - Museu do Design e da Moda. "A escolha pareceu óbvia, pelo percurso e por estar associado à cultura", contextualiza.

Ricardo Mealha foi o responsável pelo logótipo do ministério da Cultura e de outros 12 serviços culturais e também deixou a sua marca no Palácio Nacional da Ajuda, no Museu da Presidência da República, na Casa das Histórias Paula Rego, na ModaLisboa, na cadeia de restaurantes H3, nos hotéis Tivoli, na Atlantis Crystal, nas lojas Area, na Fundação EDP e nas discotecas Frágil e, mais tarde, Lux.

Foi nesta discoteca que celebrou o casamento com namorado em dezembro de 2009. Aconteceu antes da lei ser aprovada. "O casamento tem de ser um direito para todos os cidadãos", disse numa entrevista ao Público dia antes desse acontecimento, amplamente coberto pelos meios de comunicação. Não fazia parte de qualquer associação ligada à defesa dos direitos de homossexuais. "Meço, obviamente, os meus atos e as minhas palavras, mas levo a minha vida à minha maneira. Considero-me acima de tudo uma pessoa livre em termos de pensamento e opinião e tudo o que faço tem de ter uma base muito confortável e muito independente".

Entre 1987 e 1991 foi missionário de uma religião new age nos EUA e depois no Brasil, um país para onde se mudou em 2009. Em São Paulo editou um livro sobre a cidade, mostrando a faceta de fotógrafo. Atualmente estava a realizar um documentário sobre as Irmandades do Espírito Santo, na Ilha Terceira, Açores.

"Quando, em 2014, soube que tinha um cancro no cérebro, no qual 50% das pessoas morre no prazo de um ano, pensei que tinha de escolher o que fazer, e que isso tinha de incluir (...) revelar esta evidência", escreveu em agosto. Fala sobre o sistema que considerava ser uma democracia total. "Um contributo de Portugal para o mundo pode vir das irmandades, este espírito de união, este livre assumir da espiritualidade, esta forma de distribuir o poder, esta ausência de intermediários, a possibilidade de todos serem tudo..." Além de registar em filme, escrevia num blogue intitulado Não é Utopia.

Estava a fazer um documentário sobre as Irmandades do Espírito Santo, na Ilha Terceira

Cruzou-se com esta tradição em 2008 num livro da socióloga açoriana Maria Antonieta Mendes da Costa. "Logo de seguida contratou-me - contratou-me, entre aspas - para ir à empresa dele dar um workshop e mentalizar as pessoas para esta gestão horizontal", conta a autora ao DN. Resultou? "Não creio que as pessoas estivem tão preparadas quanto ele. Tinham metas muito diferentes", diz, ao telefone, esperando que outros possam terminar o trabalho começado por Ricardo Mealha.

O velório do designer realiza-se a partir de terça-feira à tarde na Igreja de São João de Deus, em Lisboa. O funeral será na quarta-feira, em hora e local ainda por determinar.

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