Questionar o colonialismo nos nossos álbuns de família

A nova criação de Joana Craveiro leva a memória colonial para o centro do FITEI, em estreia absoluta. "Filhos do Retorno" põe em cena atores implicados com a sua própria história.

O que é que sabemos sobre nós? Quantos segredos guardamos dentro das famílias, caixas fechadas como os álbuns de fotografia de que muitas vezes só conhecemos as poses? Em Portugal há filhos de colonos e de soldados que cresceram com as "histórias de África" a selarem pactos de silêncio e de ficção, e o Teatro do Vestido quis levá-las para a zona iluminada do palco. Em Filhos do Retorno, há cinco atores que sabem do sabor do feijão frito em óleo de palma, do cheiro do amendoim cru, do balanço da morna a fixar cada domingo de festa da infância, do altar da avó a juntar Buda, a Senhora de Fátima e elefantes de tromba levantada (para dar sorte), cinco atores com uma história ligada ao habitar das ex-colónias portuguesas que Joana Craveiro quis desencadear e transformar em matéria dramatúrgica, continuando o trabalho de Um Museu Vivo de Memórias Pequenas e Esquecidas e a dramaturgia da pós-memória dos descendentes de Retornos, Exílios e Alguns Que Ficaram.

"Queria perceber como as gerações que não viveram estas histórias as recebem. O tipo de história que mais me interessa é a história oral - essa que é habitualmente depreciada. Eu não sou historiadora, sou dramaturga, interessa-me trazer este particular para o que é nacional, mesmo que seja com incorreções. A memória é volátil." A memória ficciona, sabemo-lo e às vezes é preciso fazer sangue. "Procuramos pessoas capazes de questionar a herança que tinham recebido, porque sabia que íamos meter as mãos na porcaria", diz. "Questionar o colonialismo português era confrontar as histórias das suas família, a sua própria história."

Das memórias goesas de Cláudia Andrade às fotografias do avô cabo--verdiano que Lavínia Moreira guarda no seu baú-espólio, das seis gerações de angolanos na família de Rafael Rodrigues à viagem a Luanda de Daniel Moutinho, junto com a história outra de Marina Albuquerque - "A minha memória", diz ela, "é diferente da vossa" -, desenha-se um mapa que passa pelos anos em que eles nasceram - 68, 79, 92 - e volta atrás, a 1933, quando Salazar faz cair a noite escura sobre a nação e as suas colónias, enquanto se ouve Samora Machel e se lê Amílcar Cabral, e se confrontam as arestas mais dolorosas dos álbuns de família.

"É um processo duro e tinha de ser possível a cada um encontrar a objetividade perante a sua própria história", diz Joana Craveiro, que entrevistou membros das famílias de cada um e, enquanto construía a dramaturgia, ia confrontando cada um. "Disse aos atores: "Isto é um processo transformador, vocês têm de estar dispostos a transformar-se." O espetáculo é muito transparente no seu processo. É um teatro de pesquisa, de investigação, e isso também é verdade do ponto de vista do trabalho de ator. Cada um deles contou-me a sua história, que eu transformei em teatro. Nada disto é fácil. Há sempre uma qualidade de verdade profunda."

Os espectadores fazem parte da história, estão incluídos no círculo de secretárias e estantes onde cabem Franz Fanon e Dulce Maria Cardoso, José Mário Branco e Amílcar Cabral, Isabella Figueiredo e o Padre Hastings. Além dos atores e das histórias que nos contam e que lhes contaram, existe Paula, primeira professora de História de Moçambique, Maria José, a última locutora portuguesa na Rádio Moçambicana, e Carlos Fernandes, outro homem da rádio. Aquele disco que toca E depois do Adeus no gira-discos de Os Filhos do Retorno é mesmo aquele que foi usado para senha do 25 de Abril.

O fim, aberto, é, para a dramaturga e encenadora, o único possível: "As famílias estão cheias de segredos e partilham dos grandes segredos nacionais", seja o silêncio dos ex-combatentes ou dos ex-colonos. "Recusamo-nos a continuar a avançar sem conhecer o antes", diz-se em Filhos do Retorno. Fica dito.

Arte e política na celebração dos 40 anos do FITEI

E aos 40 anos o Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica dá mais luta do que nunca, inscrito que está na história das artes do país, e do Porto, pela mostra consistente da criação estimulante a nível nacional e ibero-americano, e pelas muitas tormentas que venceu - como sublinha Gonçalo Amorim no manifesto do festival.

"Quisemos ir à procura dos artistas de referência que se têm ocupado no teatro contemporâneo dos temas da memória e da pós-memória. Queríamos celebrar estes 40 anos olhando para a história contemporânea, articulando arte com política", escreve o diretor do FITEI. Além da nova criação de Joana Craveiro e da apresentação de Campo Minado, da argentina Lola Arias - espetáculo que dá voz e palco a seis ex-combatentes da Guerra das Malvinas, de ambos os lados da batalha, num trabalho de dramaturgia que resulta numa obra profundamente humana, tão tocante quanto vital, e que ressoa muito depois dos aplausos -, há outros pontos fortes desta linha na programação: Daniel Faria, criação de Pablo Fidalgo Lareo que nomeia e interroga a figura e obra do poeta e religioso português, que morreu cedo, deixando-nos um trabalho fulgurante e vertiginoso; Todo lo Que Está a Mi Lado, de Fernando Rubio, um solo íntimo que partilha a cama com o espectador para acordar algo latente durante 25 anos; António e Cleópatra e By Heart, duas criações de Tiago Rodrigues muito diferentes entre si e igualmente poderosas na encenação do mágico poder da palavra, da enunciação e da memória; Pasta e Basta, Um Mambo Italiano, de Giacomo Scalisi, que põe poeticamente as mãos na massa para "comer o mundo, comer histórias"; e os combates de Inferno, de João Brites/O Bando, que se atira ao tratado de Dante sobre a natureza humana, na Divina Comédia, como a coreógrafa Marlene Monteiro Freitas à tragédia de Eurípedes em Bacantes - Prelúdio para Uma Purga, Casco Azul, de Antonio Altamirano, ou o que opõe duas pugilistas em Floyd Anxiety vs. Manny Felicity, de Marta Freitas/Balleteatro, ou o campo e a cidade em E-nxada, de Erva Daninha.

Veja aqui toda a programação

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG