Quem são os jovens que dançam com Roger Waters?

Doze miúdos do Bairro da Flamenga vão dançar o tema Another Brick in the Wall no palco do Altice Arena

Eliana tem 14 anos e nunca tinha ouvido falar de Roger Waters nem dos Pink Floyd até há uns dois meses, quando a monitora Mena pôs a tocar o tema Another Brick in the Wall numa das aulas de dança do Centro Social Comunitário da Flamenga. Daniel, de 13 anos, também nunca tinha ouvido esta música, nem sequer perdida no rádio do carro dos pais. E, tal como eles, também Carolina, de 11 anos, Jessica, de 15 anos, Rita, de 14, e todos os outros jovens que frequentam o Centro foram surpreendidos com aquele grito de revolta lançado em 1979: "We don"t need no education, We don"t need no thought control".

Foi a monitora Filomena Gomes, a Mena, como todos a tratam, que lhes falou dos Pink Floyd e lhes explicou todas as palavras da letra em inglês. "Eu tinha 14 anos quando esta música estava a bombar. E eles ficaram muito surpreendidos por perceberem que no meu tempo os jovens também se revoltavam e não concordavam com tudo o que era ensinado na escola", conta. Essa explicação era necessária para que eles percebessem o significado da canção antes de subirem ao palco do Altice Arena, ao lado de Roger Waters, nos concertos de domingo e segunda-feira em Lisboa.

Há vários anos que, por onde passa, o músico faz questão de ter um grupo de miúdos locais a dançarem no palco. O contacto com o Centro Comunitário Social da Flamenga foi feito através do pai de um dos jovens que frequenta o Centro e que trabalha na produção de espetáculos. "Achei logo a proposta muito interessante porque acho que temos que abrir horizontes aos nossos jovens e dar-lhes muitas oportunidades", diz a monitora.

Esta instituição da Santa Casa da Misericórdia existe há 19 anos na Flamenga, bairro da Bela Vista. Tem vários serviços de apoio à comunidade, incluindo um centro de dia, uma creche e uma série de atividades para os jovens, que vão do futsal e da natação até ao teatro, música e dança. Uma das atividades mais concorridas é a a Latomania, uma orquestra de percursão só com materiais recicláveis. No próximo dia 24 vão apresentar-se na feira "Nós Reciclamos", na Fundação Champalimaud, e não escondem o seu entusiasmo pelo facto de o Presidente da República estar na plateia. "Vamos fazer muito barulho", garante Mena. E vão mesmo. Com bidons de plástico e baquetas feitas com paus de vassoura, esta orquestra vai arrasar.

Muitos dos miúdos da Latomania vão também dançar com Roger Waters. "Ele foi muito específico. Só queria 12 jovens com idades entre os 11 e os 15 anos, tivemos que fazer uma seleção", explica a monitora. Em palco vão estar dois rapazes e dez raparigas. "Há sempre mais raparigas nas aulas de dança, os rapazes são mais envergonhados", confirma Mena.

A produção do espetáculo enviou-lhe um link com a coreografia, que é, na verdade, bastante simples, e a professora passou-a aos jovens. Sem problemas. A maior dificuldade prende-se mesmo com o facto de eles terem achado a música dos Pink Floyd "muito calma" e a coreografia "demasiado parada". Estão habituados a dançar hip hop e outros temas mais animados, para eles dançar é um momento de felicidade, e aqui têm de estar muito sérios e até parados durante grande parte da música. "Têm de estar muito concentrados para saberem em que parte da música é que mudam de posição, essa é a maior dificuldade", diz a monitora. Está tudo na atitude. Na determinação com que atiram os gorros para o chão ou na força que colocam nos punhos erguidos. Nada a ver com o modo como dançam os temas de Shawn Mendes, Justin Bieber, Bruno Mars, David Carreira e Anselmo Ralph - os nomes que surgem quando lhes perguntamos quais os seus músicos preferidos.

Nervos? Para já a grande emoção, mais do que estar em palco com Roger Waters, é estar no palco do Altice Arena perante um público de 20 mil pessoas. Poucos conhecem a sala. A Ariana esteve lá no Bad Company Fest mas ficou-se pela Sala Tejo, a Carolina foi lá ver o espetáculo Soy Luna e a Rita costuma costuma ir à Arena porque participa nas marchas de Santo António. Para todos os outros aquela sala é um mundo desconhecido: "Deve ser enorme", diz Madalena, de 11 anos. prevendo: "Vou estar a tremer".

Vão lá estar por pouco tempo. Já foram avisados que depois da atuação terão de sair, não vão poder ficar a ver o concerto. E também não há bilhetes para os familiares. Apesar disso, estão a preparar uma surpresa para Roger Waters: uma guitarra enorme e cheia de cores, que vão assinar e oferecer ao músico. "Para mostrar que os jovens da Flamenga são os maiores."

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