"Quando vi o filme, percebi que andei a treinar para o boneco"

Shu Qi, a atriz fétiche de Hou Hsiao-Hsien recebeu o DN numa piscina em Cannes, durante o festival onde "A Assassina" venceu o prémio de melhor realização. Shu Qi diz que foi surpreendida pelo filme que esta quinta-feira chega às salas portuguesas

Mais do que nunca o rigor da coreografia no cinema de Hou Hsiao-Hsien parece ganhar um peso fulcral. E não estou apenas a referir-me às sequências de ação, parece-me que na quietude isso também acontece...

Todo esse processo tem que ver com o tempo de gestão de A Assassina, dez anos, imagine! Há cinco anos, o Hou Hsiao-Hsien deu-me a ler uma pequena história da dinastia Tang num estilo de escrita muito clássico. A partir daí começou a contar-me mais histórias desse período, em especial dos assassinos. Depois, passei muito tempo em pesquisa. Mais perto da rodagem, foi a altura de ler histórias de samurais. Esse era o meu trabalho de casa, ou seja, antes de alguém entrar num plateau do Hou Hsiao-Hsien tem de fazer muito trabalho de casa! Tinha de perceber a personagem para a poder habitar. E, para isso, é preciso tempo. O melhor é que quando chegamos a um plateau dele, tudo está preparado até ao mais ínfimo pormenor, desde uma caneca... Ao chegar lá, já vestida para a cena, tornamo-nos mesmo a personagem. Às vezes, pregava-me partidas - tirava todos do plateau e eu nem sabia onde estavam as câmaras. Nem as câmaras nem o Hsiao--Hsien! Palavras como "ação" ou "corta" não existem. Aparecemos e as coisas são como são... O ambiente, já agora, é muito fácil de aderirmos de forma perfeita, é um ambiente de filmagens muito confortável. É um conforto que proporciona aquele sossego e calma. O facto de ela ser calma não foi planeado, aconteceu devido às circunstâncias.

Mas terá havido também a pesquisa física habitual que todos os atores fazem antes de fazer um filmes de artes marciais, os wuxia?


Sim, também tive de aprender a combater com cabos e trabalhar com uma faca pequena sem me aleijar e parecer despachada. Enfim, tive de treinar muito. Mesmo durante as quebras na rodagem aproveitava e treinava, o meu objetivo era ser mesmo boa e rápida naquele efeito do rodopiar do corpo. Quando o Hou avisou que ia fazer este filme começaram logo todos a fazer prognósticos: seria este mais um O Tigre e o Dragão [de Ang Lee, 2000]? Mesmo eu pensei que isto poderia remeter para aquilo tipo de filmes ninja... Depois, quando vi o filme, percebi que andei a treinar para o boneco. Pensava que poderia ser um outro tipo de filme...

Há aqui um realçar do poder feminino. De alguma forma, poderemos dizer que Hou Hsiao--Hsien criou uma heroína de orgulho feminista, mesmo sem abdicar da sua matriz trágica?

Sim, todos os seus filmes são com mulheres trágicas! Acho que o Hou tem uma essência trágica [gargalhada]. Se formos ver bem, o seu primeiro filme é sobre a sua infância e o tema era as trevas interiores de cada um. Quanto à minha personagem, não a vejo assim tanto com uma alma negra. Ela não se julga má e é isso que o Hou quis explorar. Ele sabe que as mulheres têm sempre mais tendência a serem complexas e isso agrada--lhe. Posso dizer que me entreguei ao lado trágico desta mulher de forma muito natural.

Como é que hoje em dia na Ásia o star system dos atores funciona? A Shu Qi é tratada como uma rainha, por exemplo?

O que está a passar-se agora com a expansão deste mercado é que cada ator recebe para aí uns dez a vinte grandes argumentos por ano. Mas é claro que cada um de nós só consegue fazer uns dois ou três... e mesmo assim não há tempo suficiente para nos prepararmos. Para mim, tudo isto faz parte do destino. Entrar neste ou naquele filme é algo que já está predestinado. Ser uma estrela na Ásia passa pelo teu look e teres sorte se o público gosta de ti. Em Hollywood é diferente, os atores ainda estudam, vêm de escolas... Tudo é um bocado mais clássico na formação de um ator e têm ainda mais tempo para preparem os seus papéis - tornam-se magros ou gordos para o próximo filme! Essa é a grande diferença. Na Ásia por muito que trabalhemos no duro, estamos sempre sujeitos à sorte. Eu, por exemplo, não sou uma atriz que goste de moda e na Ásia, repito, é tudo acerca da maneira como apareces... Associo muito a moda àquelas obrigações que te impedem de comeres doces e que te colocam em demoradas sessões de maquilhagem. Basta usar a peça errada e sou logo apontada! Seja como for, tenho de me vestir bem, pois faz parte do trabalho. E, já agora, se tenho de o fazer, que seja da melhor maneira... Na verdade, se pudesse, andava apenas de jeans e T-shirt. Quando tenho de ir para uma passadeira vermelha, antes de escolher a roupa no meu roupeiro, fito--as e começo a gritar para elas!

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