Quando o documentário coexiste com a ficção

Vários filmes exibidos no Curtas Vila do Conde relançam a discussão sobre as fronteiras entre realidade e ficção. O francês "À Discretion", com assinatura de Cedric Venail, fica como um notável acontecimento. Esta 25ª edição termina amanhã com a cerimónia de entrega dos prémios.

Será que a proliferação de filmes documentais está a gerar um esgotamento do próprio género? Será que alguns cineastas, assombrados pelas omnipresença dos diretos televisivos, estão carentes de ideias para observar o mundo à sua volta? Ou ainda: até que ponto o olhar documental pode, ou sabe, convocar os artifícios da ficção? São perguntas que, de uma maneira ou de outra, têm marcado a sempre interessante e contrastada oferta do Curtas Vila do Conde (cuja edição n.º 25 termina amanhã, com a cerimónia de entrega de prémios, marcada para as 17.00).

Um dos fenómenos mais típicos desse estado de coisas é a utilização de imagens de arquivo (muitas vezes, justificadamente ou não, designadas pela expressão anglo-saxónica found footage) para construir narrativas mais ou menos paródicas. Um exemplo típico poderá ser Tres Oraciones sobre la Argentina, de Nele Wohlatz, breve exercício de quatro minutos elaborado a partir de imagens de esquiadores, montanhas e neve. As vozes off entregam-se a algumas derivações sobre uma espécie de "ser ou não ser argentino", num jogo irónico que tem tanto de sugestivo como de simplista.

O mesmo se poderá dizer, aliás, de Après le Volcan, produção francesa assinada por Léo Favier. A erupção de um vulcão (suposta ou real) é tratada através das mais diversas imagens de filmes amadores, todas ou quase todas em formato Super 8, numa colagem festiva que, paradoxalmente, já não mostra qualquer empenho ou interesse em abordar alguma realidade palpável. Dir-se-ia que as imagens, apesar de tudo marcadas por algumas componentes documentais, apenas servem para "brincar" às narrativas, sem destino nem objetivo.

Daí o contraste que importa sublinhar com o filme grego Manodopera, de Lukianos Moshonas. De forma simples mas contagiante, reencontramos a rudimentar verdade do documento. Somos, assim, confrontados com um grupo de homens que trabalham na renovação de um apartamento de Atenas. As cenas de demolição e reconstrução de paredes alternam com diálogos no telhado em que, no limite, se discute a própria noção de felicidade. Subitamente, mesmo nas derivações mais caóticas, as palavras renascem na sua vocação de descrição e pensamento dos destinos humanos.

O mesmo se poderá dizer, aliás, de um fascinante objeto cinematográfico, neste caso vindo da produção francesa. Chama-se À Discretion, tem assinatura de Cedric Venail, e concentra-se num encontro insólito: um cineasta, descortinando a hipótese de um tema de filme, marca encontro com um velho amigo de um familiar, esperando que ele o elucide sobre um "clube secreto", em Paris, onde alguns eleitos tinham o privilégio de observar determinadas cenas do quotidiano sem serem vistos.

Dir-se-ia que a situação faz lembrar a herança de um cineasta como Eric Rohmer: as palavras trocadas pelas personagens têm a espessura de uma realidade que adivinhamos complexa, sensual e compulsiva. Através de dois magníficos atores - Sharif Andoura e, sobretudo, o veterano Jacques Nolot -, o filme funciona, no limite, como uma parábola sobre o próprio espectador, questionando-o: que narrativas construímos a partir do mundo que observamos? Ironicamente, À Discretion quase poderia ser uma longa-metragem: dura 50 minutos e, em qualquer caso, fica como um dos acontecimentos maiores do Curtas 2017.

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