Quando menos por menos dá muito mais

Crítica de João Gobern ao novo álbum de James Blake, "The Colour in Anything Phase One"

Muita água correu sob as pontes desde que James Blake Litherland foi apontado como uma das maravilhas nascentes na música pop britânica e, por arrasto, planetária. Muitos seus "irmãos de sangue" nesses estranhos desígnios futuristas desapareceram sem deixar rasto ou, na melhor das hipóteses, deixando atrás de si uma carta de apresentação que lhes vale também como epitáfio. O que prova, sobretudo num tempo de mudanças ao minuto, a falência dessas previsões.

Felizmente, do lado bom desta história de altos voos e quedas abruptas, também há argumentos a favor, como Benjamin Clementine ou FKATwigs. Um pouco acima - que diabo!, sempre é o terceiro disco - mora James Blake. Um adepto reconhecido da ideia matemática, aqui superiormente aplicada à música, de que "menos por menos dá mais". Quer dizer: cada som, cada batida, cada efeito nas canções deste londrino de 27 anos tem uma razão, um propósito, uma consequência.

Mergulhado no mundo da eletrónica, com raízes (mais ou menos distantes) na soul e na música de dança, mas não só, o autor - que também canta, toca, mistura e produz - valoriza um elemento essencial, que tão despercebido passa a muitos dos seus camaradas de profissão: o silêncio. De tal forma que, de cada vez que o interrompe, para criar as suas cadências narcóticas, os seus fragmentados mágicos, as suas repetições rituais, evita religiosamente fazê-lo de forma gratuita. Basta ouvir Love Me in Whatever Way ou My Willing Heart, para se ganhar consciência de como a célebre contenção britânica dispõe de tradução categórica para a música dos nossos dias.

Noutra frente, exercícios de estilo como Radio Silence ou The Colour in Anything poderão exigir mais do que uma audição para ser cabalmente abarcados. Há, ainda, um golpe de asa que vale muitos pontos: a capacidade de Blake abrir um estilo pessoalíssimo a colaborações sublimes como as de Justin Vernon (ou Bon Iver, se preferirem), outro cultor dos silêncios, e de Frank Ocean, um rapper de New Orleans. São complementos, sim, mas nada circunstanciais, num álbum que dissipa dúvidas: anda mesmo um geniozinho à solta.

Classificação: *****

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