Quando escrevemos os livros de Uma Aventura temos outra vez 12 anos

Uma Aventura na Pousada Misteriosa é o 57º volume da coleção. Para o escrever, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada fizeram geocaching e pedalaram na ecopista do Tâmega...

É estranho pensar que há livros vossos em todas as casas?

Ana Maria Magalhães - Não ponho essa questão assim.

Isabel Alçada - Nós não sentimos isso. Sentimos felicidade quando alguém nos vem dizer que gostou de ler os nossos livros. Quando vamos a escolas e vemos os miúdos a ler. E quando entramos numa escola e eles estão à porta a bater palmas, é fantástico. Ter muitos leitores é bom, a ideia de milhões não é óbvia, para nós é um patamar para virem a ser grandes leitores.

Há adultos que cresceram a ler os vossos livros.

AMM - Já com filhos que são também leitores. Uma pessoa disse-me: tenho 33 livros vossos e o meu filho está a lê-los por ordem, do primeiro em diante. Portanto, em termos de negócio, zero, ele tem lá 33 para ler...

IA - Acontece trazerem os livros dos pais para nós assinarmos.

AMM - Isso é uma ternura e é o que nos faz continuar. Enquanto escrevemos Uma Aventura, temos outra vez doze anos, andamos à procura de bandidos, de tesouros, a comer coisas ótimas que as dietas não permitem, tabletes de chocolate, pães com queijo, bolos com sabor a não sei quê, e a conhecer terras. Neste caso, as Terras de Basto.

Mostram as Terras de Basto e trazem o Zé do Telhado, uma figura de que tinha uma ideia bem diferente.

IA - Ele é o bandido mais famoso da nossa História e partilhava com os mais pobres o que roubava aos ricos. Muitas histórias foram escritas pelo Camilo e há muitas na tradição oral.

AMM - Era uma figura muito querida no norte, o nosso Robin dos Bosques. Era um bravo, lutou na Guerra Civil, recebeu a Torre e Espada. A maior parte da minha família é do norte e, esta é uma das histórias que a minha avó contava: entrou num baile, recolheu as joias e dançou uma valsa com a dona da casa antes de sair. A ginja sobre o bolo é que a dona da casa que tinha dançado com o mocetão temido confidenciava que ele cheirava bem, a plantas do campo. Acabou por dar com os ossos em Angola, exilado, e aí tornou-se um tipo estimado, fazia os seus negócios.

Trazem para o livro um homem do século XIX e o geocaching. Como souberam disto?

AMM - A Ana pelos netos e eu pelos sobrinhos. Foi engraçado, porque os netos da Isabel eram mínimos e os meus sobrinhos estavam a estudar Direito em Coimbra.

IA - É um jogo que exige que se tenha GPS no iPhone. Inscrevemo-nos, as duas, fomos fazer perto de Lisboa para experimentar. Fizemos nas Terras de Basto, descobrimos caches e contactámos com pessoas que fazem estes encontros. Há outras novidades, como a ecopista de 21 quilómetros de Amarante a Arco de Baúlhe, onde havia a Linha do Tâmega.

AMM - Eu não me via a andar de bicicleta há 40 anos. A Isabel é que é uma grande ciclista. Recordei o prazer do campo, sem perigo de me cruzar com carros, porque é uma ecopista com uma paisagem linda. Foi um dia de sonho.

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