Quando a grande aventura é o xadrez da geopolítica

Recordando um episódio verídico da Guerra Fria, Spielberg filma a odisseia de um advogado, interpretado por Tom Hanks

O novo filme de Steven Spielberg, A Ponte dos Espiões, com Tom Hanks a assumir a personagem de um advogado que tenta obter uma troca de prisioneiros em plena Guerra Fria, parece corresponder a uma certa vontade de realismo que tem contaminado muitos títulos recentes, das mais diversas origens. Trata-se, de facto, de mais uma narrativa "inspirada em factos verídicos", para mais relançando-nos nas atribulações de um tempo em que a construção do Muro de Berlim desenha, literal e simbolicamente, um novo mapa da Europa.

Estamos perante mais um exemplo das preocupações históricas de Spielberg, à semelhança de títulos emblemáticos como A Lista de Schindler (1993) ou Amistad (1997). Aliás, os dois filmes anteriores a A Ponte dos Espiões - Cavalo de Guerra (2011) e Lincoln (2012) - decorrem do mesmo tipo de preocupações, abordando, respetivamente, um episódio da Primeira Guerra Mundial e a luta legislativa que conduziu à abolição da escravatura.

A convocação de contextos históricos muito precisos nunca foi estranha aos "outros" filmes de Spielberg, habitualmente descritos como "mais espetaculares". Lembremos o exemplo lendário, por excelência: promovido como "o regresso da grande aventura", Os Salteadores da Arca Perdida (1981) não era também uma bela parábola política centrada na resistência do arqueólogo Indiana Jones aos desígnios dos nazis?

Sustentado por um elaborado argumento, resultante da colaboração dos irmãos Coen com Matt Charman, A Ponte dos Espiões trata o xadrez da geopolítica como um jogo aventuroso. Não à maneira do heroísmo de James Bond, entenda-se (que, em qualquer caso, pelo menos na época de Sean Connery, é também indissociável do mesmo contexto de confronto EUA/URSS). Antes através de uma personagem inesperada, de certa maneira compelida a discutir a própria possibilidade de alguma manifestação individual de heroísmo.

James B. Donovan (Hanks) é, assim, o advogado especializado em seguros que, por pressão da sua própria firma, se descobre envolvido num labirinto de factos, relações e enigmas que começa na prisão de Rudolf Abel (Mark Rylance), acusado de atividades de espionagem ao serviço da URSS. Simplificando (até porque importa preservar o direito do leitor descobrir a intriga sem informações excessivas sobre as peripécias), digamos que o núcleo dramático do filme tem menos que ver com as tensões entre americanos e soviéticos e mais com a silenciosa cumplicidade afetiva que se vai desenhando entre Donovan e Abel.

Nesta perspetiva, pode dizer-se que o trabalho de Spielberg se desenvolve no cruzamento da inspiração humanista de um Frank Capra (autor dos emblemáticos Doido com Juízo e Peço a Palavra, de 1936 e 1939, respetivamente) com a tradição liberal enraizada nas convulsões temáticas e formais de Hollywood nas décadas de 1960/70 (Frankenheimer, Pakula, Pollack, etc.). É uma visão eminentemente paradoxal, de exaltação dos valores da liberdade e também de observação da solidão primordial de cada ser humano. A sua base não é exatamente a "reconstrução" histórica (não encontramos aqui nenhum decorativismo que se baste a si próprio), mas sim a vertigem que a própria história põe em marcha, oscilando entre as abstrações coletivas e a irredutibilidade de cada indivíduo.

Não admira, por isso, que este seja um objeto de imaculado classicismo. Desde a sofisticada direção fotográfica de Janusz Kaminski até à delicadeza sinfónica da música de Thomas Newman (no lugar do fiel John Williams, indisponível por razões de saúde), A Ponte dos Espiões atesta o sereno génio de um cineasta que não cede à facilidade das modas (mesmo as que ele ajudou a pôr em marcha). Enfim, não esqueçamos a composição de Tom Hanks: ele continua a ser o exemplo modelar de um ator que, como diria Hitchcock, sabe representar a odisseia de pessoas normais face a factos e contextos que as transcendem - e que as obrigam a transcender-se.

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