Qual é o filme mais assustador?

Amanhã é Dia das Bruxas, dia de pregar sustos e de brincar com os nossos medos. O que nos assusta mais no cinema? Serras elétricas, mortos-vivos ou terror psicológico?

Sabem aqueles filmes que nos fazem dar saltos na cadeira? Ou tapar os olhos para não ver o que se passa no ecrã? Os filmes que nos tiram o sono ou nos deixam com medo de andar no escuro na nossa própria casa? Esses são os típicos filmes de Halloween. Mas o que nos assusta hoje em dia no cinema? O suspense de ' Psycho' ou o terrível Freddy Kruger de 'Pesadelo em Elm Street'? E qual é o filme mais assustador de sempre? Perguntámos a quem sabe e estas foram as respostas que obtivemos:

João Lopes, crítico de cinema do DN, escolheu Repulsa (Roman Polanski, 1965):

"Assustar em cinema tornou-se um gadget banal: alguém abre um armário escuro e salta de lá uma coisa qualquer aos gritos... Damos um pulo na cadeira, mas é tão gratuito como a Casa dos Segredos a massacrar crianças e adultos com lições sobre a sexualidade - nada acontece, a não ser a preguiçosa repetição de uma fórmula. Mais difícil - incomparavelmente mais difícil, trabalhoso e arriscado - é expor o medo humano e o cruel desconhecimento dos seus/nossos limites. De Ingmar Bergman a David Lynch, há cineastas que filmaram isso de forma concisa e perturbante, inevitavelmente desafiando o espectador a questionar todas as suas certezas. Roman Polanski é outro desses autores e Repulsa (1965) uma das suas mais radicais proezas. No limite, Polanski consegue filmar Catherine Deneuve a contemplar as fendas do chão da rua, sugerindo a imensidão de um mundo em que nenhuma noção de normalidade parece poder aquietar-se. O medo deixa de ser um truque de montagem, para contaminar todas as aparências do real."

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Rui Pedro Tendinha, crítico de cinema do DN, escolheu Shining (Stanley Kubrick, 1980):

"As ordens do medo e dos seus níveis no cinema multiplicam-se. Ter medo a ver um filme não é cair nos sustos fáceis dos truques mais hábeis de fórmulas instaladas. Um grande filme de choque tem sempre de retirar o espetador da sua zona de conforto e convocá-lo para imaginários negros capazes de o aliciarem com surpresas. Há sempre o "ter medo, muito medo" através das fobias mais enraizadas que David Cronenberg conseguiu na sua A Mosca ou o seminal Leatherface, papão de Tobe Hooper em Massacre no Texas. Há isso tudo, certo, mas nada se compara ao imenso calafrio psicológico que é Shining, de Stanley Kubrick. O cineasta norte-americano provou que o que nos assusta mais é o mal que está dentro de nós. Um lado negro que suplanta fantasmas, monstros ou vampiros. Depois de ser atacado por aquele Jack Nicholson possuído nunca mais fiquei o mesmo. Um corredor largo de hotel já não é só um corredor largo de um hotel. Um par de meninas gémeas nunca mais é só um par de meninas gémeas. Kubrick era tão genial que mudou o paradigma do filme que causa pesadelos. Pois, a verdade é que há pesadelos com requintes..."

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Filipe Melo, músico, argumentista do filme de zombies I'll See you in My Dreams (2003) e fã de filmes de terror, escolheu A Noite dos Mortos Vivos (George A. Romero, 1968):

"É inevitável. É A noite dos mortos vivos do George A. Romero. Pensei em vários, mas este, com todos os problemas de produção que possa ter, é o que tem o conceito mais assustador de sempre. A prova disso é mesmo o facto de agora haver zombies por todo o lado. A premissa é genial e assustou-me verdadeiramente quando era criança. Nos últimos anos, o filme mais agoniante que vi foi o Serbian Film (Srdjan Spasojevic, 2010) porque mostra que, passados tantos anos desde o Massacre no Texas e do Holocausto Canibal, ainda é possível fazer um filme que choca tanto as pessoas e que vai a sítios onde nenhum outro tem coragem de ir."

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João Monteiro, co-diretor do Motelx, Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, escolheu Máscaras de Cera (André De Toth, 1953):

"Os medos mudam com a idade e quando era mais novo, dentro daquilo que me deixavam ver na TV, o filme que mais me assustou foi House of Wax, com Vincent Price. A cena em que a heroína lhe parte a máscara de cera revelando o monstro que está por baixo ainda funciona e resume o apelo do filme. Actualmente e depois de ter filhos, o filme que mais me perturbou nos últimos tempos foi The Babadook, de Jennifer Ken (2014)t, que recupera os dois eixos fundadores que ainda caracterizam o bom terror: o surrealismo e o expressionismo."

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Flávio Gonçalves, crítico de cinema do DN, escolheu Videodrome - Experiência Alucinante (David Cronenberg, 1983):

"O realizador canadiano David Cronenberg conheceu a televisão com cinco anos e desde então acompanhou uma transformação sem retorno do paradigma no consumo das imagens. Em Videodrome, o ecrã doméstico é a representação simbólica da alienação do espectador num mar de horror e violência instrumentalizado por grandes poderes ocultos. James Woods dá corpo a Max Renn, um diretor sem escrúpulos de uma emissora pirata de televisão. Intrigado pela origem das imagens de tortura e violência que o fascinam e obcecam, o anti-herói acaba por dirigir-se à deformação e destruição da nossa percepção sobre a realidade. Tal como anunciada pelo título português, trata-se de uma "experiência alucinante" em tom surrealista, que faz a ponte entre o nosso tempo e a alegoria da caverna descrita por Platão. 31 anos depois do seu lançamento, Videodrome permanece um dos filmes mais provocadores e influentes na história do cinema de terror, talvez porque não se contenta com os típicos artifícios do género. É também um título-chave para compreender as preocupações que percorrem a obra prolífica do autor, ainda antes da sua viragem para as grandes produções norte-americanas."

Texto publicado originalmente em 2014

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