Puro Terror nas noites de Halloween

As Halloween Horror Nights invadiram Hollywood com recriações de clássicos como O Exorcista ou Krampus. Toda a gente sabe que são atores e efeitos especiais, mas ninguém consegue evitar o medo e a adrenalina

As tabuletas apontam para baixo. Uma massa de gente caminha, animada, sem se dar conta que está a entrar num túnel. De repente, as luzes começam a falhar e a tremelicar de forma estranha, transformando o interior do túnel num imenso poço escuro durante alguns segundos. Quando regressam, há um homem com uma faca a dois centímetros da nossa cara, a gritar histericamente. Um gangue que parece saído de uma cena de A Purga aterroriza os transeuntes, batendo com paus no chão, aparecendo por cima do ombro e caminhando em direção às "vítimas" com uma expressão assassina. O túnel é longo, parece que não acaba. O barulho é ensurdecedor e as luzes apagam e acendem de forma frenética, como uma rave dos anos noventa que está a correr mal. Todas as fibras do corpo se arrepiam, a adrenalina sobe, apetece correr mas a massa de gente atropela-se. É um percurso do inferno, este túnel que liga duas partes do parque da Universal Studios, em Hollywood.

É lá que o estúdio tem a decorrer as Halloween Horror Nights, uma celebração incrível do medo, dos filmes de terror e do culto sem paralelo que existe nos Estados Unidos em torno do Halloween. A produção é exímia. Por mais que alguém tente fixar-se racionalmente na noção de que são atores e que tudo isto é como estar dentro de um filme, o corpo reage de forma diferente. É isso que torna a produção tão atrativa: é mesmo como estar dentro de um filme de terror.

Espalhados por vários lotes dos estúdios da Universal estão labirintos que recriam vários filmes e séries de sucesso. Este ano, o alinhamento é excecional: O Exorcista, Freddie vs Jason, The Texas Chainsaw Massacre: Blood Brothers, Halloween: Hell comes to Haddonfield (baseado em Halloween II), Krampus, The Walking Dead e American Horror Story. Há ainda um Comboio do Terror que nos leva até ao Bates Motel e nos deixa sozinhos para enfrentar um cenário absolutamente louco: palhaços estranhos e assustadores com motosserras que gritam e provocam até o coração estar a bater com violência. A certa altura, no meio daquela confusão, é legítimo questionar se não terão ido buscar atores com desvios de personalidade e instabilidade mental.

Mas é isso mesmo que a produção quer que pensemos. John Murdy, diretor criativo da Universal Studios e responsável por toda a conceção destas noites de terror, começa a trabalhar nos temas dos labirintos em dezembro do ano anterior. É um trabalho colossal, com uma obsessão pelos detalhes que parece inútil - com o medo e a adrenalina, ninguém nota que uma parede tem uma alusão a uma cena cortada do filme, ou que o doutor maléfico tem narizes decepados numa jarra.

"Temos critérios específicos para os labirintos: as pessoas conhecem e querem ver? Pode ser popularidade, bilheteiras, no geral procuramos por sagas que os fãs querem ver. Este ano temos tudo. De todos os anos que tenho feito isto, acho que é o melhor lineup que alguma vez tivemos", diz o responsável ao DN, numa visita aos bastidores da produção. "Os outros critérios são ambientes e personagens que podemos transportar para um evento ao vivo, a variedade de cenários. Não vejo filmes como as pessoas normais, estou sempre a olhar para um filme de terror para ver se posso fazer alguma coisa com aquilo."

Foi o que aconteceu com Krampus, um filme que saiu no ano passado e pega num mito do folclore germânico sobre uma figura que aterroriza crianças na noite de Natal. Realizado por Michael Dougherty, foi bem recebido pela crítica e tem o ambiente perfeito para uma produção ao estilo Universal. "O que é refrescante no Krampus é ser tão diferente dos outros filmes de terror que estavam a sair. O horror é um género muito cíclico, passa por várias ondas. Quando algo tem sucesso, como Atividade Paranormal, de repente há um milhão de filmes desse estilo", afirma Murdy. "Mas o Krampus é diferente. Ele [Dougherty] tem uma estética muito própria, parece um filme de terror dos anos oitenta. Evoca filmes como Gremlins."

E é mesmo assim, uma viagem ao terror do passado. Os jogos de luzes e fumo transportam-nos para uma noite gélida, em que bonecos de gengibre ganham vida e bonecos de neve horripilantes tentam atacar-nos. Na cozinha cheira a doces e canela, mesmo antes de entrar num quarto onde uma pessoa está a ser comida por um boneco. Tocam músicas de Natal, o que torna o ambiente ainda mais arrepiante.

"Nada é uma repetição de algo que já fizemos no passado", adianta Murdy, explicando que este foi o ano em que conseguiu concretizar o sonho de orquestrar um labirinto com O Exorcista. "Para mim não há filme mais assustador na história do cinema. É um desafio, porque acontece tudo num quarto, e basicamente é uma personagem apenas. São coisas teatrais, a Reagan ou o padre não vão saltar e gritar "aaaah"." Por isso, o labirinto tem cinco quartos e uma grande dose de efeitos especiais, que incluem a levitação de Reagan (como é que fizeram? Não sabemos).

Mas talvez o mais interessante dos labirintos seja o de American Horror Story, que abrange a primeira temporada, Murder House, a terceira, Freak Show, e a quarta, Hotel. Sempre a partir dos episódios de Halloween da série. A primeira parte do labirinto é icónica, mostra onde toda a saga começou. O homem com o fato de borracha é o elemento central, que sai de trás de uma porta e tenta agarrar os participantes. Há também o personagem de Larry Harvey, que tem metade da cara queimada, e uma casa de banho imunda onde um homem-porco ataca de dentro do chuveiro.

Depois vamos aos anos vinte, onde o personagem do Dr. Montgomery tem uma cave de tortura e há frascos estranhos com cérebros, dentes e mãos. Nesta divisão, há um cheiro a mofo e podridão insuportável, mas o pior é quando Tate aparece na direção oposta com um machado. "É um efeito clássico de redirecionamento, atrair a atenção das pessoas para um lado e atacá-las do lado oposto. Faz-se num ângulo para que apareça na visão periférica e não de frente", explica Murdy.

Uma coisa que a produção não usa é acessórios das séries e dos filmes. Quase tudo é desenhado e construído de raiz, um trabalho monumental que começa em fevereiro, depois de decididos os temas. E mesmo sendo o cérebro por detrás de tudo, Murdy confessa que por vezes se assusta. "Os atores são muito bons e orgulham-se quando me conseguem fazer saltar, o que não é fácil, mas acontece", admite. "Venho sempre. Entro com as pessoas e muitas vezes caminho atrás de um grupo e não consigo manter-me com eles, andam muito depressa, porque estão assustados. A adrenalina toma conta de nós e começamos a andar mais depressa."

Verdade. Depois de termos visitado os bastidores do labirinto, fomos à noite de estreia e pudemos confirmar isso. O medo mistura-se com a vontade de absorver tudo o que estamos a ver, mas faz-nos andar mais depressa. Entramos num labirinto com vontade de chegar à saída. E vale a pena: depois de quatro fins de semana completamente esgotados, este é já um dos melhores anos das Halloween Horror Nights. O culminar será, pois claro, a 31 de outubro, a noite em que todas as cidades da América se mascaram para aterrorizar o próximo.

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