Programar com carinho cinéfilo 365 dias por ano

Hoje fomos conhecer Américo Santos, o homem por detrás do renascer do Cinema Trindade

Uma vida de cineclubista não é uma vida de artista, mas dirigir um dos melhores festivais portugueses, o Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira, gerir a programação de filmes de autor da sua Nitrato Filmes e tomar conta das duas salas do belíssimo cinema Trindade, no Porto, requer veia de artista, que o diga Américo Santos, mais do que um programador de cinema, um curador da sétima arte.

Partilhar o melhor cinema do mundo é causa nobre, sobretudo quando se está fora de Lisboa. A abertura do Trindade em fevereiro passado era o bálsamo que o centro do Porto precisava. O único cinema na Baixa portuense a ter sessões não regulares era o Passos Manuel, a par de algumas antestreias pontuais no Rivoli. Os cinéfilos do Porto agradeceram e, segundo Américo, as salas renovadas são um sucesso: "As pessoas no Porto estavam curiosas - beneficiámos de uma certa euforia. Trata-se de uma sala que dizia e diz muito à cidade. O arranque foi muito interessante. Mais recentemente, caminhámos num outro sentido em termos de programação: apostámos mais em reposições. Podemos não ter tanto público mas quem lá vai fica fidelizado. Estamos muito satisfeitos."

E quem visita as salas percebe que há ali um toque de amor em todo o projeto, a começar pela decoração vintage e sem maneirismos. São salas de velha guarda com equipamento moderno e cadeiras desalmadamente confortáveis. Américo faz também questão de promover sessões especiais. Já lá conversou publicamente com Nuno Lopes, na estreia de São Jorge, ou Kleber Mendonça Filho, na estreia nacional de Aquarius. Para ele, o Trindade é um festival que dura 365 dias - o cinema ali é para ser discutido.

"A ideia era o Trindade alavancar a distribuidora Nitrato. Pois bem, aconteceu o contrário: ficámos demasiado absorvidos... O ritmo de programar uma sala com dois ecrãs e muitos filmes é muito complicado", refere. A sua ideia é dar ao público do Porto miniciclos, jogar com a temporalidade, fazer sessões com debates e acolher festivais e mostras, enfim, gerar eventos. Um público que tem aderido a uma iniciativa da câmara municipal, o cartão Tripasse (cuja alcunha é Tripas), que dá desconto a quem frequenta também o Rivoli e o Passos Manuel.

Américo Santos tem daquelas paixões pelo cinema que não se explicam. Antes de fundar o Luso-Brasileiro inventou o Cineclube da Feira, conseguindo que Santa Maria da Feira fosse uma referência cineclubista. Há 20 anos começava o festival, que nunca quis crescer muito e que ficou mais famoso no Brasil do que cá. Trouxe nomes como Walter Salles, Maitê Proença ou Sérgio Bianchi, mas também teve um papel interessante em promover a arte de cineastas portugueses como João Nicolau, Pedro Costa ou João Pedro Rodrigues. Em 2017, a 21.ª edição está em risco: "Estamos num momento em que é preciso saber se vale a pena a continuidade do festival. Temos uma estrutura minúscula."

Como distribuidor, Américo tem orgulho de ter lançado um cineasta brasileiro como Gabriel Mascaro, com o curioso Boi Néon, embora a vocação de lançar cinema brasileiro já tenha sido atraiçoada com cinema português . "A ideia da Nitrato não é ser mais uma distribuidora como as outras, queremos fazer uma programação diferente. Por exemplo, há um filão interessante para explorar: o cinema da América Latina", salienta.

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