Primeiro romance e a corrigir História dos Descobrimentos

A Confissão do Navegador é a primeira experiência literária de Duarte Nuno Braga. A história da descoberta do Brasil por Duarte Pacheco Pereira.

É a primeira vez que Duarte Nuno Braga está numa Feira do Livro, mas também é a primeira vez que publica um romance. E logo com um tema que não é nada consensual, o da viagem marítima de Duarte Pacheco Pereira até ao Brasil, alegadamente realizada dois anos antes da de Pedro Álvares Cabral. Trata-se de um autor que vem da área das tecnologias, é licenciado em Engenharia Eletrotécnica, e que já está a escrever o segundo livro.

A Confissão do Navegador não relata apenas as peripécias de Pacheco Pereira até ao Brasil, mas toda a sua viagem até ao Oriente, designadamente o confronto militar em Calecute. Quando se pergunta ao autor se não foi uma aventura iniciar a carreira com um romance histórico que a História nega, Nuno Braga responde: "Os historiadores têm dificuldade em concretizar o que é oficial e não. Esta não é a versão que normalmente é dada nas escolas, mas cada vez vai sendo mais aceite e consensual de que "alguém" chegou ao Brasil antes de 1500."

A partir do momento em que o tema Duarte Pacheco Pereira surgiu ao autor, este achou que era incontornável para um primeiro livro: "Queria escrever algo relacionado com os Descobrimentos porque estou ligado à náutica na minha vida pessoal. Quando vi que a História não tinha dado ao meu protagonista o real valor, ainda fiquei mais seduzido." Além de que, explica, "as pessoas ficam curiosas quando refiro o navegador e querem saber se posso mesmo sustentar esta tese. O que não é difícil, visto que existem muitas provas documentais que tornam esta questão cada vez menos polémica."

Entre os documentos, o destaque vai para o manuscrito Esmeraldo de situ orbis: "Uma prova cabal porque é o registo que Pacheco Pereira deixou, no qual dá indicação ao rei D. Manuel I de que fora descoberto o Brasil e com todas as informações geográficas do território, e que data de 1498."

Se esse documento, que esteve escondido quase 400 anos, já é ele próprio quase um romance, o autor usou-o como "anzol" para o seu livro: "Toda a sua vida é uma aventura. Após o Brasil, segue-se a viagem a Cochim e a conquista que faz com 150 homens contra um exército de 50 mil do samorim de Calecute. Que mostra a sua bravura e inteligência em termos de estratégia militar."

Para que o romance não fosse pouco mais do que a narrativa da viagem de Pacheco Pereira, Duarte Nuno Braga inclui a vida pessoal do navegador: "O livro não pretende ser um ensaio mas um romance histórico, onde se relata a relação com o rei, a mulher e D. Antónia de Albuquerque, com quem teve oito filhos." Para dar mais picante, o autor introduz uma lenda, "a paixão vivida em Cochim com uma jovem local".

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.